‘Ainda Temos a Imensidão’ de Gustavo Galvão

‘Ainda Temos a Imensidão’ de Gustavo Galvão

Rodrigo Fonseca

02 de abril de 2021 | 11h08

Karen (Ayla Gresta) busca seu lugar na música, em Brasília e na música: atriz foi premiada em Brasília: foto de André Carvalheira

RODRIGO FONSECA
Vitrine de invenções latino-americanas, focada nas mais variadas latitudes do continente, o Buenos Aires Festival Internacional de Cine Independiente (BAFICI) conferiu o prêmio de melhor interpretação para a atriz Ayla Gresta, por seu desempenho de fina rebeldia em “Ainda Temos a Imensidão da Noite”, um dos poucos longas-metragens nacionais a ter espaço em telona antes da pandemia começar, em 2020. Elogiado no Festival de Havana e bem resenhado em sua estreia em SP e no DF, essa joia de Gustavo Galvão foi laureado em terras Hermanas num empate. Em terra argentina, a consagração de Ayla foi dividida com uma outra estrela de talento GG do Brasil, Simone Spoladore, laureada por seu trabalho em “O Livro dos Prazeres”. Nas redes sociais, Galvão comemorou duplamente, uma vez que Simone estrelou seu belíssimo “Nove Crônicas para um Coração aos Berros” (2012) e uma vez que Ayla vem popularizando seu longa mais recente na streaminguesfera. Ensaio sobre territórios (rítmicos, afetivos e geopolíticos), “Ainda Temos…” está disponível nas plataformas Now, Vivo Play e Oi Play. A partir de dia 29 de abril, ele ampliará seu circuito digital, entrando no catálogo da Apple TV, Google Play e YouTube Movies. Realizador do cult “Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa” (2013), Galvão faz nesse novo longa-metragem uma espécie de “Round Midnight” do BRock dos anos 2010. É pura vontade (d)e potência: um ensaio existencial sobre geografias, a de Brasília e a de Berlim, sob acordes do rock. Bonito de ver e viver. A trama: cansada de lutar por um lugar ao sol com sua banda de rock, a vocalista e ás do trompete Karen (Ayla) decide ir embora do Distrito Federal. Ela vai deixar para trás a realidade brasiliense, abandonando a metrópole que seu avô, hoje muito adoentado, ajudou a construir. Ela segue os passos do ex-parceiro de banda Artur (Gustavo Halfed), que tenta a sorte na capital alemã. O convite parte de Martin (Steven Lange), amigo alemão com quem os dois fecham um triângulo imprevisível. Em solo alemão, sob um frio rascante, amores, disputas, porres, solfejos vão marcar o desterro de Karen.

Qual é a noção de solidão que parece nortear teus personagens, numa reflexão autoral (quiçá existencial) de seu cinema? Que dimensão solitária forma o imaginário de Brasília?
Gustavo Galvão:
Quem cresce em Brasília aprende desde cedo a se relacionar com o espaço de uma forma especial. Crescemos aprendendo a olhar para o chão (a terra vermelha), para o horizonte e para o céu (“o mar de Brasília”, disse Lúcio Costa). A espacialidade de Brasília é um convite para o olhar e para o devaneio, duas características essenciais do trabalho artístico. Mas é preciso entender que as distâncias dessa cidade-maquete, dessa “cidade-autódromo”, também afastam as pessoas e chegam até mesmo a excluí-las. Brasília é excludente por natureza. Dois filmes dissecam isso com o olhar implacável: “Brasília, Contradições de uma Cidade Nova” (Joaquim Pedro de Andrade, 1967) e “A Cidade é Uma Só?” (Adirley Queirós, 2011). “Ainda Temos a Imensidão da Noite” dialoga com esses filmes. A personagem mora no Gama, que fica a quase 35km do centro do Plano Piloto. A solidão dela se torna algo físico, pelas distâncias que ela precisa percorrer, além de vir carregada de frustração (com a exclusão sofrida pelo avô doente, que trabalhou na construção da capital e nunca teve a chance de vivenciar a cidade que construiu) e de inconformismo (pelas distâncias que chegam a isolá-la mesmo no meio musical). Em outros filmes eu lidei com a solidão, é verdade. Mas neste eu não particularizei o drama da protagonista, muito pelo contrário: ela combate todo um modelo humano e social, representado por Brasília, que falhou.
Qual é a dimensão heroica da personagem de Ayla?
Gustavo Galvão:
Conheci muitos músicos como a Karen no processo de desenvolvimento do projeto, que sentem uma pressão enorme para levarem uma vida “normal”, o que significa buscar a estabilidade e abandonar a música. E acredite: são muitos os que abandonaram. Tenho uma admiração por músicos enorme, em especial por aqueles que não desistem da luta, porque encontro neles um estímulo para a minha própria luta. Lembro de uma conversa que tive com meu pai, na única vez em que ele demonstrou insegurança em relação à minha opção profissional. Ele perguntou, basicamente, “por que o cinema?”. Então eu respondi, sabendo que ele é um admirador de Cartola: “Já pensou se Cartola pensasse: ‘por quê a música?’”. Bom, meu pai entendeu e nunca mais tocou nesse assunto comigo. A arte não se explica, ela se sente. A personagem da Ayla surge no meio da caretice e do conformismo para mostrar que precisamos sentir a arte. Fazer isso, no Brasil contemporâneo, é uma luta inglória, mas é uma luta necessária.
O que a luta de Ayla sintetiza da cultura musical brasiliense?
Gustavo Galvão:
Não posso falar pela cultura musical brasiliense, porque é uma cena muito diversa. O que eu posso falar é do meio roqueiro, que vivi um pouco mais de perto e que conheci mais com as pesquisas para o filme. E esse meio, como se sabe, é machista. Então a luta da Karen é duplamente inglória, porque também existe a barreira do sexismo. Não por acaso, muitas roqueiras acolheram o filme quando viajamos pelo Brasil com ele. Foi assim em São Paulo, Porto Alegre, Rio, Goiânia e Curitiba. No caso de Brasília, há muitas mulheres guerreiras como a Karen, conhecemos inclusive algumas da periferia, como ela, e que diziam com orgulho nos debates e encontros que tivemos: “a Karen sou eu”. O prêmio no BAFICI mostra que essa identificação extrapola as fronteiras do Brasil.

Quanto custou o filme? Onde ele foi rodado (locações)? Qual o tamanho da sua equipe?
Gustavo Galvão:
O filme custou em torno de R$ 2.3 milhões, incluindo o desenvolvimento. Se você considerar que filmamos 1/3 da trama em Berlim, com gastos em Euros e o Real desvalorizado, o total não é alto na prática. O restante da trama foi rodado no Distrito Federal, em três das chamadas regiões administrativas: Plano Piloto, Cruzeiro e Gama. E também pelo fato de termos uma equipe no Brasil e outra na Alemanha, o tamanho da equipe como um todo parece grande, mas tínhamos em torno de 25-30 técnicos no dia-a-dia do set.
Como você avalia o papel do Bafici no atual cenário dos festivais de cinema?
Gustavo Galvão:
O BAFICI está, sem dúvida alguma, entre os três principais festivais com competição internacional na América Latina, ao lado de Havana (onde o filme também foi exibido) e Guadalajara. Só não incluí a Mostra de São Paulo na lista porque é um festival não competitivo. De qualquer modo, o BAFICI é um festival relativamente novo e, mesmo assim, tem reconhecimento global. Acho que isso se deve à fidelidade inabalável ao cinema independente e ao rigor e à integridade da seleção. É uma pena que a pandemia tenha me impedido de prestigiá-lo pessoalmente, mas já avisei ao pessoal que um dia eu vou para lá.

p.s.: Às 20h30, na série de lives “Diálogos com o Cinema”, o exibidor e agitador cultural Adailton Medeiros, do Ponto Cine, bate um papo com o crítico Ricardo Cota sobre o documentário “Cauby – Começaria Tudo Outra Vez” (2013), de Nelson Hoineff (1948-2019), que faz uma falta danada a este mundo.

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