‘Ainda Há Tempo’ de aplaudir Viggo Mortensen

‘Ainda Há Tempo’ de aplaudir Viggo Mortensen

Rodrigo Fonseca

18 de fevereiro de 2022 | 10h20

Lance Henriksen e Viggo Mortensen vivem pai e filho em tempestuosa relação em “Falling”

Rodrigo Fonseca
Ao fim da Berlinale, com a vitória consagradora da espanhola Carla Simón e seu “Alcarrás”, só faz crescer a boataria acerca das atrações do 75º Festival de Cannes (17 a 28 de maio), que é o próximo evento de peso no calendário cinéfilo, e especula-se sobre a potencial presença de Viggo Mortensen na cabeça de algum dos júris, quiçá o da Un Certain Regard. É provável que ele seja visto na competição – quiçá na abertura – em “Crimes of the Future”, do canadense David Cronenberg. Consagrado há 21 anos com a trilogia “O Senhor dos Anéis”, iniciada em 2001, que lhe deu fama, como ator – e que ator ele é! -, ele agora tem mais um ofício em seu currículo: o de diretor. Em 2020, ele lançou seu primeiro filme como realizador, o devastador “Ainda Há Tempo” (“Falling”). Esse drama sobre os espinhos da paternidade (no ponto de vista de um filho amoroso e no ponto de vista de um pai selvagem) arrebatou elogios no mundo todo. Atualmente, segundo o site Filmelier, pode ser visto em uma série de plataformas digitais, como a Apple TV, o Now, o Google Play e a Vivo Play, em aluguel.
Depois de três indicações ao Oscar, por seu modo febril de interpretar – obtidas com “Senhores do Crime”, de 2007; “Capitão Fantástico”, de 2016; e “Green Book: O Guia”, de 2018 – e depois de ter virado uma lenda pop como Aragorn, em “O Senhor dos Anéis”, Viggo emprega suas vivências num drama que passa pelas trincheiras do ódio para se se firmar como um estudo sobre a arte de saber envelhecer. O personagem central é o rancheiro Willis, que na juventude é defendido com fúria pelo ator sueco Sverrir Gudnason. Devotado a seu rancho, ele se enerva ainda mais ao se agrisalhar, sendo confiado ao ator Lance Henriksen (o agente Frank Black da série “Millennium”). Seu nervosismo explode com o passar dos anos, arrancando de Henriksen um desempenho áspero, de doer no peito da gente. Mas a medida da velhice, na alma desse irascível sujeito, tem como termômetro aquele neném das primeiras cenas, John, que, já adulto, ganha o talento – e que talento! – do próprio Viggo. O amargor de Willis no trato com o mundo piora com a idade, ao contrário do que se passa com John: este, quanto mais velho, sente-se mais bem amado, sente-se mais bem resolvido em sua orientação homossexual e vive livre do alcoolismo de sua juventude, abraçado à paz. Ao menos é o que parece. O que lhe falta é estender essa harmonia ao pai. Essa será sua jornada na trama escrita pelo próprio Viggo.

Exibido em janeiro de 2020 em Sundance, chancelado com a logo de Cannes e elogiado em Toronto, o périplo de John rumo ao amor de Willis passou com pompas, em setembro retrasado, no 68. Festival de San Sebastián, configurando-se como o mais delicado longa-metragem do evento espanhol. E sua exibição fez parte de uma homenagem a Viggo, que foi laureado com o Troféu Donostia pelo conjunto de sua trajetória, dos anos 1980 para cá. Uma trajetória que passa pela América do Sul, onde o nova-iorquino de origem escandinava cresceu, entre a Argentina e a Venezuela. Em nosso continente, ele buscou parcerias em cineastas como Ana Piterbag (“Todos Temos Um Plano”), Vicente Amorim (“Um Homem Bom”), Walter Salles (“On The Road”) e Lisandro Alonso (“Jauja”). Com eles, teve diferentes experiências do realismo e da fabulação, duas instâncias da essência do verbo “narrar” que se confluem em “Ainda Há Tempo” (“Falling”).
Como Willis está beirando a demência, há momentos em que passado e presente se trombam na casa de John, onde os comentários homofóbicos e racistas de seu pai fazem arder a garganta do filho e de seu marido, o enfermeiro Eric (Terry Chen). Willis ofende o casal todo o tempo, assim como é hostil com sua filha, vivida por Laura Linney. Sua boca é um esgoto que vaza brutalidade. Mas, em seu amor incondicional, John sabe filtrar a sujeira e buscar a humanidade que sobrou no espírito alquebrado de seu velho. Esse processo de filtragem é retratado por Viggo com uma suavidade sedutora, traduzida na paleta de cores nunca saturadas da fotografia do dinamarquês Marcel Zyskind.
Cronenberg, que redefiniu o trajeto profissional de Viggo ao escalá-lo em “Marcas da Violência” (2005), faz uma ponta em cena, como o proctologista que cuida de Willis.

p.s.: Já que abrimos esta conversa falando de Cannes, especula-se que o festival francês há de exibir “Argentina, 1985”, de Santiago Mitre, em competição. No novo filme do realizador de “Paulina” (2015), Ricardo Darín integra um time de advogados que devassaram a junta militar responsável pela tortura durante a ditatura em seu país.

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