Ainda é hora pras ‘Ilusões Perdidas’ do Varilux

Ainda é hora pras ‘Ilusões Perdidas’ do Varilux

Rodrigo Fonseca

26 de junho de 2022 | 10h45

Vincent Lacoste, que estampa a capa da mais recente “Cahiers du Cinéma”, vive o alter ego de Balzac

Rodrigo Fonseca
É tempo de Varilux: começou na última quinta-feira a 13ª edição da maior maratona de cinema francês das Américas, pilotada por Emmanuelle e Christian Boudier, com 19 longas inéditos e seis séries, em carreira por 50 cidades brasileiras até o dia 6 de julho. Estre as atrações imperdíveis destacam-se “O Acontecimento”, de Audrey Diwan, que ganhou o Leão de Ouro em Veneza, em 2021; e “Peter von Kant”, de François Ozon, que abriu a 72ª Berlinale, na capital alemã, em fevereiro. Todas essas gemas seguem uma estética contemporânea. Mas na edição número 12 do Varilux, o longa-metragem que mais brilhou foi uma superprodução que remonta à tradição do “cinema moderno”, como se fazia (muito bem) nos anos 1960 e 70: o suntuoso “Ilusões Perdidas”, de Xavier Giannoli. No Rio de Janeiro, ainda é possível se deleitar com toda a sua potência plástica na telona, em projeções no Estação NET Rio que segue até quarta, às 16h15. Na cerimônia de entrega do troféu César, o Oscar da França, esse esplendor de longa papou sete estatuetas, entre elas a de Melhor Filme, Roteiro Adaptado e Ator Coadjuvante, dada a Vincent Lacoste, que hoje estampa a capa do exemplar de junho da revista “Cahiers du Cinéma”, a bíblia do audiovisual.
Tem algo de sexagenário, no apuro formal de “Ilusões Perdidas”, sem jamais ser acadêmico, apoiado numa direção de arte (chefiada por Riton Dupire-Clément e Etienne Rohde, que junta Bruno Via e Fathi El Aihar no melhor de cada um) e num enxoval de figurinos (desenhados por Pierre-Jean Larroque) que o Oscar deveria premiar. É tão sexagenário como “O Leopardo” (1963), de Visconti, numa analogia que atesta sua excelência. É algo que se chamava, vulgarmente, de “filme espetáculo”. E, certas vezes, as vulgaridades são prazerosas.

É difícil não se deslumbrar com o desempenho do já citado Lacoste (um dos mais talentosos atores da Europa hoje), no papel do chefe de redação Etienne Lousteau, nesta adaptação feita a fio de ouro do romance “Illusions perdues” (1837), de Honoré de Balzac (1799-1850). Egresso do Festival de Veneza, que o esnobou em sua premiação oficial, o novo longa do diretor de “Quand j’étais chanteur” (2006) é um estudo sobre a gênese do jornalismo, fidelíssimo à ironia balzaquiana em sua observação do cinismo da classe profissional sobre a qual se debruça, sendo fiel ao clima de ressaca de sua prosa. Benjamin Voisin (de “Verão de 85”) usa tudo o que aprendeu com François Ozon para construir a figura do poeta Lucien Rubempré como um edifício afetivo de múltiplos andares de angústias e sonhos.
Seu enredo – qual está no livro – sintetiza a viagem pela ascensão e queda de um aspirante a Anacreonte, que encontra na Imprensa meios de ganhar o pão após chegar a Paris, vindo do interior, atrás de um amor, com traços de nobreza – um bom papel dado a Cécile de France. Na metrópole, Rubempré vai se calejar como um crítico ferino, treinado por Lousteau, que é um alter ego de Balzac (segundo muitos críticos). Além de calos, ele ganha noites e noites de prazer nos lençóis da atriz Coralie, chama ardente que Salomé Dewaels interpreta (bem) com decantada inteligência. Mas o moço ganha também uma vaidade desmedida. Ganha um ego tamanho GG. São maus ganhos, que seu rival, Nathan (vivido com garbo pelo diretor e ator Xavier Dolan), vai explorar com viperina sagacidade. Sob a fotografia barroca de Christophe Beaucarne, vemos o tombo de Rumbempré doer, espatifar ossos, revelar nuanças da prática da reportagem e apontar uma série de nódoas do presente, na lógica das fake news.

“As Ilusões Perdidas” é um curso de Comunicação em duas horas de requinte, com Gérard Depardieu a dar aulas de empáfia, numa genial participação como um editor. Não por acaso, em Veneza, Elisa Giudici, do site “The Film Experience” deu a “Illusions Perdues” uma definição precisa, ao chama-lo de “proto-‘Cidadão Kane’”, enchendo-o de elogios.
Analisando a programação deste ano do Varilux, vale uma especial atenção para “Um Pequeno Grande Plano” (“La Croisade”), de Louis Garrel, que terá sessão nesta terça, às 14h, no Espaço Itaú, no Rio. Seguindo os passos de seu pai, o icônico realizador Philippe Garrel (de “Lágrimas de Sal”), Louis sofistica suas habilidades como realizador a cada nova incursão sua pela direção, sem deixar de lado seu trabalho como (bom) ator e sua imagem de galã. Neste novo trabalho, ele e sua mulher, a atriz Laetitia Casta, são um casal às voltas com um filho idealista. O rapaz vendeu em segredo os seus bens mais preciosos. Em todo o mundo, centenas de crianças como ele uniram forças para financiar um projeto misterioso. A sua missão é salvar o planeta.

p.s.: Nesta madrugada, à 1h35, a Globo exibe “O Resgate do Soldado Ryan” (1998) – um dos melhores filmes de guerra da História, que deu a Steven Spielberg seu segundo Oscar de Melhor Direção – numa versão brasileira muito bem dublada. Garcia Júnior, um titã da arte de dublar, cedeu a voz a Tom Hanks, que nos arrebata numa comovente interpretação. A trama se passa nos derradeiros momentos do conflito dos Aliados contra o Eixo. Ao desembarcar na Normandia, no dia 6 de junho de 1944, o Capitão Miller (Hanks) recebe a missão de comandar um grupo do Segundo Batalhão para o resgate do soldado James Ryan (Matt Damon), o caçula de quatro irmãos, dentre os quais três morreram em combate. Por ordens das Forças Armadas dos EUA, o pelotão de Miller precisa procurar Ryan e garantir o seu retorno, com vida, para casa. No elenco, no papel do soldado Caparzo, está um jovem Vin Diesel.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.