Águas em saudação a Guineto e a Ralé da Blackyva

Águas em saudação a Guineto e a Ralé da Blackyva

Rodrigo Fonseca

11 Maio 2017 | 11h22

RODRIGO FONSECA

Gente de Aruanda, entidades do terreiro de Mãe Janayna Lázaro (um bunker para artistas da invenção incrustado no coração do subúrbio carioca), dois musos da teatro de performance e do canto do Rio de Janeiro prometem incendiar a cidade nesta quinta, via Lapa e Copacabana: Lorde Jefferson Almeida e Lady Blackyva. Cada um com seu estilo, este jovens atores, dançarinos e compositores, unidos pelo Candomblé e pela transgressão teatral, têm eventos esta noite ligados às suas pesquisas rítmicas.

 

Às 21h, na Casa de Baco, na Lapa, Jefferson presta uma homenagem a Almir Guineto – que cometeu a indelicadeza de partir deste mundo no último dia 5, sem pedir a nossa autorização, deixando o Samba órfão de sua poesia – no “afroshow” Eu e Água. Vai ter Caxumbú, em tributo ao sambista, mas cabe também Geraldo Azevedo, Gonzaguinha, Bonga e Dominguinhos. “O Almir é uma sonoridade onipresente no samba do Rio o que torna obrigatório cantá-lo quando se passa em revista todo o apanhado das referências musicais populares da minha geração, com um acréscimo de cantos de fé, como Figa de Guiné, para prestigiar os orixás”, diz Jefferson, cujo show será aberto por Renata Jambeira.

“Balé Ralé”: olhar sobre Marcelino Freire

Alguns bairros à frente, no Sesc Copacabana, às 20h30, Blackyva se integra a um coletivo de atores e bailarinos para a estreia do Balé Ralé, do Teatro de Extremos, que desafia convenções das artes cênicas na Ocupação Marcelino Freire – Palavra Amassada Entre os DentesSob a direção de Fabiano de Freitas, a Beyoncé de São Cristóvão (voz e corpo da resistência racial e social no RJ) se integra a um elenco que reúne Leonardo Corajo, Mauricio Lima, Samuel Paes de Luna e Vilma Melo Schaefer para expressar as vozes e as agonias da rua. Eles ficam em cartaz até 4 de junho.

Tanto Blackyva quanto Jefferson são expoentes de um movimento geopolítico de arte como jira que está sendo chocado num ninho de reflexão e discussão sobre teatro em São Cristóvão, sob os auspícios de Mãe Janayna. Dali já saíram peças convulsivas como Bird, da arlequina Livs Ataíde, hoje em cartaz no Teatro da UFF, cercada de elogios; o musical Para Sempre Rei – As Canções de Elviscom Santiago Villalba (o novo Aguinaldo Rayol, aclamado por onde passa pela potência de seu gogó), em cartaz a partir da próxima quarta na Casa de Arte e Cultura Julieta de Serpa; e uma recente adaptação do lispectoriano A Hora da Estrela. Pouco a pouco, seus “filhos” tingem a paisagem carioca com cores da inclusão e da provocação. É um movimento digno da atenção dos antropólogos culturais de plantão.