Agnès Patron: invenção à francesa no Animage

Agnès Patron: invenção à francesa no Animage

Rodrigo Fonseca

14 de outubro de 2021 | 11h19

Agnès Patron ministra uma masteclass nesta quinta no ANIMAGE

Rodrigo Fonseca
Oásis de contemplação e reflexão das estéticas de desenho, de stop motion, de rotoscopia, de computação gráfica e de técnicas de transcender o live action, o festival ANIMAGE, em Pernambuco, joga seus holofotes sobre uma das principais grifes da produção francesa contemporânea: Agnès Patron. Seu filme mais recente, “L’Heure de l’Ours”, sobre o impacto da Natureza sobre vivências infantis, disputou a Palma de Ouro em Cannes, em 2019. Nesta quinta-feira, às 16h, ela vai ministrar uma masterclass sobre a arte de animar no YouTube, num papo aberto ao público. Seu currículo inclui ainda “Chulyen, histoire de corbeau” (2016) e “La veuve Caillou” (2011). As exibições via web serão feitas para todo o Brasil pelo site do evento: www.animagefestival.com. Já as sessões presenciais ocorrem no Teatro do Parque, importante polo aglutinador de artistas em terras recifenses. Integram o evento candidatos a cults como “Altötting”, de Andreas Hykade (Alemanha); “ON-GAKU: Our Sound”, de Kenji Iwaisawa (Japão); e “Subsolo”, de Erica Maradona e Otto Guerra (Brasil).
No papo a seguir, Agnès compartilha com o Estadão seu olhar sobre como a covid-19 afetou a rotina de trabalho de animadoras e animadores no exterior.

“L’heure de l’ours” concorreu à Palma de Ouro em 2019

Qual é a extensão da manifestação da Natureza (em sua forma mais primitiva e livre) em “L’Heure de l’Ours” em seu olhar para uma horda de crianças? O que este filme reflete sobre a condição humana?
Agnès Patron:
O poder da natureza, essa força primitiva que nos supera, é um componente de todos os meus filmes. Aqui, o urso é tanto uma manifestação da raiva da criança, mas também um meio para que ela se liberte do jugo dos adultos. Eu vejo a fuga para a floresta como uma emancipação. É uma partida para o desconhecido, para outra forma de vida, uma outra “mãe”, diferente do que aquela que a criança conhece. Essa mãe é mais poderosa, mais intensa, selvagem e violenta. A natureza ressoa com a fúria que se abate sobre as hordas de crianças no final da história. Não tenho certeza do que o filme reflete sobre a condição humana, mas está claro para mim que precisamos nos libertar das autoridades insalubres que nos infantilizam, sabendo que a natureza provavelmente ditará nosso comportamento nos próximos anos, se ainda não o fez. Se não a escutarmos, estamos em apuros.
Como funciona seu uso da cor em seus filmes e que técnicas você utiliza para construir suas histórias? Como a cor na animação transmite a inquietação das suas personagens?
Agnès Patron:
“L’Heure de l’Ours” é meu primeiro filme em cores. Durante muito tempo, eu pensei em preto e branco. Mas, aqui, o uso da cor era óbvio: permite que muitas coisas sejam ditas com poucos elementos. A ligação entre mãe e filho se resume no vermelho de seus cabelos. O verde da grama acaricia nossos olhos. Os fogos que devoram as casas são brutalmente amarelos. Tudo se mistura no final na dança das crianças. A agitação dos personagens se traduz pela vibração da textura, talvez mais do que pela cor. Há momentos em que a raiva se acende sob uma calma aparente e há momentos em que a vibração do material vem para devorar nossos olhos enquanto a raiva devora a criança.

Como você avalia o cenário atual da indústria francesa de animação?
Agnès Patron:
Não sou especialista nisso, mas sinto uma tênue sensação de que estamos no início de uma mudança na indústria do longa-metragem: a animação deixa de aparecer como um território exclusivamente reservado às histórias infantis. Foi a palavra “indústria” que me orientou para os longas-metragens, porque o curta-metragem de animação, que é mais artesanal, ainda é uma área de grande liberdade na França. Entretanto, às vezes, é difícil conseguir filmes com pouca narrativa ou filmes totalmente atípicos financiados. É uma luta que temos que lutar, mas acredito que temos sorte em comparação com outros países.
Quais são seus projetos atuais? Como a pandemia afetou seu trabalho e o de outros facilitadores franceses?
Agnès Patron:
A pandemia afetou todos nós. Parou alguns filmes no meio de seu desenvolvimento. Filme que, agora, estão recebendo um segundo vento, felizmente). Estou pensando, por exemplo, no “La traversée”, de Florence Miailhe, que atrasou suas filmagens. Mas também ouço alguns diretores, aqueles que estavam no meio de seu processo de produção – inclusive os mais solitários – dizerem que não há grande diferença no processo de estarem animando um filme sob confinamento. Da minha parte, trabalhei e filmei cenas para um documentário durante o segundo confinamento. Não foi fácil, porque todos estavam trabalhando por conta própria. O filme foi coproduzido pela Austrália e o diretor estava baseado na Inglaterra. Então, passamos muito tempo fazendo zoom. Atualmente estou trabalhando em um novo projeto de curta-metragem em pintura animada. Espero que seja lançado em 2023.

Em 11ª edição, o ANIMAGE segue com programação gratuita até dia 16 de outubro, em edição híbrida com exibições online e presenciais no Recife, no Teatro do Parque. No domingo, 17/10, a premiação da mostra competitiva internacional de curtas encerra o festival. O evento foi criado e é realizado sob a direção geral de Antonio Gutierrez, com curadoria de Júlio Cavani.

p.s.: Sintonizado com a campanha “O Que Você faz Importa”, a National Geographic se uniu com a Rádio Disney para criar uma série de podcasts sobre Mudanças Climáticas. O projeto, que conta com seis episódios, será lançada até 9 de novembro. A condução será feita pela locutora Priscila Santos.

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