Aforismos de Rocha, Na Real_Virtual

Aforismos de Rocha, Na Real_Virtual

Rodrigo Fonseca

14 de novembro de 2020 | 10h48

Trabalhando em Roraima, o diretor Eryk Rocha fala de sua obra documental na sala do Zoom do Na Real_Virtual

Rodrigo Fonseca
Transcendental, plural, cosmogônico… muitos são os adjetivos que poderiam traduzir o colóquio de Eryk Rocha no seminário Na Real_Virtual, afirmando-se noite a noite como “O” evento cinéfilo brasileiro de 2020. Em cartaz na streaminguesfera com uma ficção, a premiada “Breve Miragem de Sol”, hoje no menu do Globoplay, o realizador de “Rocha Que Voa” (2002) foi sabatinado pelos curadores do simpósio, o crítico Carlos Alberto Mattos e o cineasta Bebeto Abrantes, com foco em sua porção documentarista e em sua conexão com o América hispânica. As conversas do evento ocorrem a partir das 19h, indo até 21h30, na URL https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2, sob a produção de Márcio Blanco (e sua Imaginário Digital), arrebanhando uma multidão de espectadores sempre às segundas, quartas e sextas. Os papos sempre assumem um longa como motor de arranque e, no caso da obra de Eryk, a escolha foi “Pachamama” (2008), que celebra sua conexão com a latinidade. Em 2016, ele conquistou o troféu L’Oeil d’Or de Cannes (a Palma dos documentários) com “Cinema Novo”, no qual revisitava cults dos realizadores responsáveis por fundar a concepção moderna de audiovisual no Brasil – entre eles, seu pai, Glauber Rocha. Hoje instalado em Roraima, Eryk brindou a plateia com pérolas. O P de Pop garimpou algumas:

“A questão latino-americana na minha vida, sem dúvida, veio pela minha mãe – Paula Gaitán, uma cineasta imensa – para a minha vida. Antes da minha mãe, veio pelo meu avô, um grande poeta colombiano: Jorge Gaitán Durtán. Um poeta que fundou, com o (escritor Gabriel) García Márquez, a revista de literatura chamada ‘Mito’. Você falou que minha mãe é uma cineasta colombiana e brasileira, portanto, eu me sinto colombiano também. (…) Sempre tive o sonho de fazer uma viagem pela América Latina, para vivenciar uma experiência de viagem de um road movie, um filme de estrada. Fazer esse projeto foi um grande presente. ‘Pachamama’ é um filme que conecta todas essas raízes. Se com ‘Rocha que Voa’, eu fui buscar o passado do meu pai em Cuba, em ‘Pachamama’, faço uma abertura de conexão com a minha mãe e com a minha família colombiana”.

“Talvez mais do que fronteira, o que interessa é a desfronteira. Para mim,as fronteiras não são nítidas. Da mesma forma que, para grande parte das cosmologias indígenas, não existe uma fronteira entre Natureza e Cultura, existe uma integração, pois todos são os habitantes da Terra. (…) Nem racional ou intuitivamente, eu nunca percebi de uma forma nítida certas fronteiras. Nem em relação a gêneros ou a um alinhamento a um certo tipo de cinema. Nunca me senti com referências muito presas. Embora muitos cineastas tenham me influenciado, as coisas vão caminhando juntas. Não tenho nenhuma relação historicista com o cinema. O que me levou a fazer cinema foi andar por aí e viver as coisas do mundo”.

“A montagem de um filme começa na primeira ideia de um filme”.

“Se você pega um país como o Brasil ou um continente como a América Latina, o rádio é presente até nos lugares mais distantes. O rádio sempre foi um meio de comunicação popular, de integração entre povos. Estava pensando outro dia em como o rádio volta (a ter destaque) de tempos em tempos. Estamos em um mundo, mais do que nunca, fuzilado pelo audiovisual. Hoje, todas as linguagens são traduzidas e afuniladas pelo audiovisual. Temos um mundo que possui mais telas e câmeras do que pessoas. Em cada casa, tem uma sala de cinema. Listo tudo isso para falar que existe um esgotamento da imagem, um cansaço do olhar. É preciso morrer os olhos para ver e expandir os pensamentos. O rádio é um meio de comunicação que volta hoje. (…) Às vezes a gente precisa fazer morrer os olhos para ver (referência atribuída a pensadores indígenas). Acho que dentro disso, o som não tem hierarquia nenhuma. Não existe uma relação de protagonismo. Acho que o som traz uma vocação física para a linguagem, ele leva o sensorial para a imagem. Tem uma história curtinha do (videoartista) Bill Violla, que ele narra para falar da potência do som. Ele foi em uma sala de cinema e não gostou do filme, então ele tapou os olhos e acontece que o som estava vibrando no chão e ele não conseguia (se desvencilhar). O som tem uma vocação física de atravessar corpos e trazer essa potência física em um mundo onde a gente cisma em separar mente do corpo. O som desfronteiriza, ele é algo que conecta com o inconsciente”.

Joel Zito Araújo é o convidado desta segunda do simpósio produzido pela Imaginário Digital, de Márcio Blanco, com curadoria de Bebeto Abrantes e Carlos Alberto Mattos

Nesta segunda-feira, a violência do racismo e as lutas de afirmação racial vão perpassar o Na Real_Virtual num encontro com Joel Zito Araújo, para falar de “A Negação do Brasil” (2000) e outros .docs de prestígio. No frigir das inquietações documentais do país, Abrantes e Mattos têm agendadas ainda conversas com Adirley Queirós, Claudia Priscilla, Evaldo Mocarzel, Kiko Goifman, Roberto Berliner, Sandra Werneck, Susanna Lira e Walter Salles. Já foi dito, mas vale reforçar: esses papos rolam sempre às 19h, às segundas, quartas e sextas. Valem a atenção, o estudo e o aplauso.

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