‘ADN’ e Liam Neeson no circuito de Cannes

‘ADN’ e Liam Neeson no circuito de Cannes

Rodrigo Fonseca

28 de outubro de 2020 | 06h35

Maïwenn com Louis Garrel em “ADN”

Rodrigo Fonseca
Assombrada pelas tensões em Paris, Marselha, Lyon e arredores, acerca do boom da Covid-19 em terras países, Cannes mantém seu parque exibidor aberto, e com força total, apoiado em normas de segurança rígidas, acompanhando, lá no Palais des Festivals, a atual retomada de seu principal evento, inaugurado na terça, em versão pocket, com o delicioso “Un Triomphe”, dramédia de Emmanuel Courcol. Esta noite ocorre, nesta edição especial do festival cannoise – a realização tradicional, no mês de maio, não teve meios de ser realizada este ano, por conta da pandemia – a competição dos filmes universitários de curta metragem, a Cinéfondation, e, na quinta, a maratona chega ao fim, com a briga pela Palma de Ouro de curtas e a projeção de um longa. O título de encerramento traz o brilhante Bruno Podalydès atrás e à frente das câmeras: “Les Deux Alfred”, sintonizado com a onda de desempregos na Europa. Concorrem 11 curtas, entre eles “Filles Bleues, Peur Blanche”, de Marie Jacotey e Lola Halifa-Legrand (França); “O Cordeiro de Deus”, de David Pinheiro Vicente (Portugal); e David”, de Zachary Woods (EUA). Mas, longe do Palais, no circuitão, quem mais atrai atenções, é “ADN”, o novo trabalho da diretora de “Meu Rei” (2015), Maïwenn Le Besco, que explode no gosto popular e no paladar da crítica como sendo iguaria fina. Sua passagem por San Sebastián foi consagradora. O longa está no escopo do Festival Varilux (agendado de 19 de novembro a 3 de dezembro) onde é chamado de “DNA”, numa tradução literal.
Laureada com o Prêmio do Júri cannoise de 2011 por “Políssia”, a cineasta explora em “ADN” as suas raízes argelinas em uma narrativa nas raias do melodrama, que equilibra o mel com doses fartas de um rascante alumbramento político. Na trama que escreveu com Mathieu Demy (filho de Agnès Varda e de Jacques Demy), ela é Neige, a combativa integrante de um clã de gênese na Argélia, que chora a morte de um avô amado por todos. Tradições e mágoas represadas colidem no primeiro hemisfério do filme, no qual o enterro é preparado. O segundo ato é a jornada de Neige para se assumir como argelina e entender de onde veio o homem tão querido que manteve seus parentes unidos e conectados a partir de práticas de amor a uma pátria com a qual a França mantém uma dívida. E nesses dois extremos, Louis Garrel entra luminoso como o amigo de toda hora que junta e cola os cacos do coração de Neige. E o faz com um humor singular.

A aposta de Cannes para sua cerimônia de encerramento, nesta quinta

Outra aposta do circuito de Cannes é o divertido thriller americano de ação “Legado Explosivo” (“Honest Thief”), de Mark Williams, batizado na França como “The Good Criminal”. Nele, Liam Neeson (em plena forma heroica) vive um ladrão de bancos que se regenera nos braços de um amor (Kate Walsh) e decide se entregar ao FBI. Mas ao esbarrar com uma dupla de agentes corruptos, ele é obrigado a empregar seu engenho mortal para sobreviver. Os diálogos beiram o absurdo, de tão Bs que são, mas as cenas de perseguição e tiroteios compensam o nonsense com litros de adrenalina. E o carisma de Neeson é indevassável, confirmado pelo sucesso do longa nos EUA.

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