Adirley Queirós na arena sci-fi do .doc nacional

Adirley Queirós na arena sci-fi do .doc nacional

Rodrigo Fonseca

25 de novembro de 2020 | 13h52

Nascido em Morro Agudo de Goiás em 1970, Adirley Queirós fala sobre sua Ceilândia esta noite no simpósio Na Real_Virtual

Rodrigo Fonseca
Um dos mais exuberantes exercícios de fabulação do cinema nacional nesta década, no casamento do documentário com as cartilhas da sci-fi, “Branco Sai, Preto Fica”, aclamado lá fora, nos festivais de Hamburgo, Turim e Mar Del Plata – por sua visão distópica do Distrito Federal e sua lucidez na denúncia contra o racismo -, integra atualmente a grade da Netflix e, esta noite, servirá de combustível para o principal seminário cinéfilo de 2020. Às 19h, o Na Real_Virtual vai receber seu realizador, Adirley Queirós, para conversar sobre as inquietações políticas do país e sobre a resiliência da Ceilândia que ele chama de lar há quatro décadas. O simpósio produzido por Marcio Blanco e organizado sob a curadoria de Bebeto Abrantes e Carlos Alberto Mattos arrebanha olhares na URL https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2, somando cerca de 250 ouvintes inscritos por noite. E neste 25/11, vivências periféricas vão nortear a conversa com um diretor instaurado no coração do país. “Periferia para mim, é o espaço da minha experiência”, diz Adiley ao P de Pop, que, em 2005, aplaudiu o sucesso de seu curta “Rap, o Canto da Ceilândia”. “Acho que a representação de qualquer ficção na periferia, por atores não profissionais, leva para um campo documental muito grande. É uma ficção que possui vontade de contar fatos cotidianos. Hoje não faço muito essa diferença entre o documental e o ficcional. Vou muito na ideia de fabulação. É como seu eu fosse propor personagens ficcionais e filmasse como etnografia documental”.

No recorte curatorial deste Na Real_Virtual, Mattos elogia o humor de Adirley e sua liberdade rara na construção das narrativas. “Admiro a fidelidade que ele mantém não só às locações da sua Ceilândia, mas também às equipes, atores e atrizes que habitam aquele território. Sua capacidade de encontrar talentos, inteligência e humor entre seu povo é admirável”, diz o decano da crítica.

Em 2017, Adirley deixou o Festival de Locarno, na Suíça, com uma menção honrosa para seu “Era Uma Vez Brasília”, uma distopia com foco nas ruínas de um país após o Impeachment, representado a partir do olhar de visitantes do futuro. No cinema dele, a ficção científica é um filão balizador. “Antes de fazer filmes, o cinema e a literatura já eram importantes para mim, enquanto espectador e leitor. Sempre gostei de contar histórias e conversar, sempre gostei de estar na rua até madrugada e conversar com os amigos. Essa coisa de estar desempregado e conversar na rua sempre fez parte da minha vida. A leitura é fundamental na minha vida. Eu sempre fui um leitor e gosto muito de ler desde pequeno. Desde ler a Bíblia, quando era pequeno, até tudo que cai na minha mão. Os filmes que entraram minha vida foram os clássicos de Hollywood, filmes de bangue-bangue, filmes do Bruce Lee, filme de Kung-Fu… Todos esses filmes tiveram muito presentes na minha vida. Os faroestes italianos, também, assim como os filmes clássicos americanos dos anos 80 e 90, desde ‘Apocalypse Now’ e ‘O Poderoso Chefão’ até ‘Mad Max’. Mais recentemente, quando comecei a ter acesso e circular pelo cinema, descobri ‘Serras da Desordem’; os filmes do Glauber Rocha; e ‘O Bandido da Luz Vermelha’, um filme que está sempre presente comigo”, diz Adirley ao Estadão. “Os livros que li foram vários, desde ‘Escaravelho do Diabo’ e ‘Dom Casmurro’. Eu lia tudo que você imaginar. ‘Grande Sertão: Veredas’ é um livro que eu continuo lendo. Acredito já ter lido mais de dez vezes na minha vida. Esse livro é sempre no gerúndio, um ‘Estou lendo ‘Grande Sertão’…”. Li ficção cientifica em um momento da minha vida e li Dostoiévski. Recentemente estou lendo muito Ernesto Sabato, um cara argentino que tem coisas fundamentais na reflexão que faz do cinema e da vida. Era um físico que virou escritor na Argentina, mas sempre foi taxado com um cara mais reacionário e da direita. A literatura dele tinha uma coisa muito subjetiva”.
No frigir das inquietações documentais do país, Abrantes e Mattos têm agendadas ainda conversas com Evaldo Mocarzel, Sandra Werneck e Walter Salles. Esses papos rolam sempre às 19h, às segundas, quartas e sextas. Valem a atenção, o estudo, o aplauso e um lugar de honra na História, a do nosso cinema, por ser uma reação e uma proposição em um tempo de doença (em múltiplos níveis). Cada conversa é um curso de em si.

p.s.: Em seu cardápio de iguarias de não ficção, o Globoplay tira onda com “Tiros em Columbine” (“Bowling For Columbine”), longa que deu o Oscar de Melhor Documentário a Michael Moore, em 2003, sob as vaias de uma claque em prol de George W. Bush. O longa, centrado na sanha armamentista dos EUA, deu ainda um prêmio especial ao realizador em Cannes, em 2002.

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