Adam Sandler, um ator autoral… genial

Adam Sandler, um ator autoral… genial

Rodrigo Fonseca

10 de outubro de 2020 | 11h16

Filmagens de “O Halloween do Hubie”

Rodrigo Fonseca
Ainda que a lei pétrea da autoralidade cinematográfica atribua o traço residual de identidade estética da criação apenas a quem dirige, existem atrizes e atores que, sim, desenvolveram um traço característico de singularidade em sua forma de interpretar e, em certos casos, também de produzi, dando a seus filmes uma embalagem de reconhecimento instantâneo: é o caso de Adam Richard Sandler. A partir de 1998, quando “O Rei da Água”, orçado em US$ 23 milhões, faturou US$ 185,9 milhões em escala planetária, ele iniciou uma trajetória – e que trajetória – milionária sem precedentes na bilheteria americana nos 12 anos seguintes. Ninguém na seara da comédia nos EUA fez mais dinheiro do que ele nas telas, arrecadando cerca de US$ 100 milhões por filme e, ainda, emplacando duas obras-primas. A primeira foi “Embriagado de Amor” (mais conhecido por seu título de berço: “Punch-Drunk Love”), que rendeu o prêmio de melhor direção em Cannes, em 2002. A segunda foi a fábula “Como Se Fosse a Primeira Vez” (2004), talvez o mais belo ensaio sobre a resiliência do amor no embate com a memória. Após uma derrapada em 2011, com “Cada Um Tem a Gêmea Que Merece”, ele teve seu histórico de infalibilidades atropelado e partiu, pioneiro, para uma parceria com a então infante Netflix. Hoje o êxito mastodôntico que fazia na venda de ingressos reverteu-se em número GGG de acessos ao grande N, streaming do qual periga ser o astro mais popular. Basta ver a corrida atrás de “O Halloween do Hubie” (“Hubie Halloween”), deliciosa trama de Dia das Bruxas na qual ele vive um vendedor obcecado em proteger sua cidade – que tanto o hostiliza – das forças do excesso e do Mal. A parceria com a ótima Julie Bowen, que vive Violet Valentine, o objeto de amor de seu personagem (Hubie), torna este mingau de aveia um salpicão de sabores, com a uva passa do afeto. É seu filme mais Frank Capra. Em 2019, o thriller “Joias Brutas”, do irmãos Josh e Benny Safdie, deu a ele mais prestígio e o troféu de melhor atuação no Independent Spirit Awards. No Brasil, cada passa desse Oscarito bravio (sua marca de clown é viver tipos patéticos capazes de explodir) é calçado pela excelência sem par do Midas da dublagem nacional: Alexandre Moreno. Ele torna Sandler ainda mais peculiar e potente. Que dublador de talento pantagruélico o Moreno é.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.