Adam Sandler se recicla via NetFlix e chega a Cannes

Adam Sandler se recicla via NetFlix e chega a Cannes

Rodrigo Fonseca

17 Abril 2017 | 10h55

Campeão de bilheteria nº1 da comédia de 1998 a 2011, Adam Sandler vive um caçador de talentos em

Campeão de bilheteria nº1 da comédia de 1998 a 2013, Adam Sandler interpreta um caçador de talentos em “Sandy Wexler”, uma joia do humor no NetFlix

RODRIGO FONSECA

Ao anunciar a primeira leva dos concorrentes à sua Palma de Ouro de 2017, o Festival de Cannes incluiu entre os indicados um filme de humor agridoce – The Meyerowitz Stories – cujo protagonista é o ator mais achincalhado pela crítica das últimas décadas, mesmo tendo sido a maior máquina de fazer dinheiro de Hollywood de 1998 a 2013: Adam Richard Sandler. Aos 50 anos, este humorista nova-iorquino do Brooklyn goza de uma das piores reputações estéticas no showbiz – embora seja louvado como empresário, no ramo de produtor – por explorar à exaustão um padrão de atuação que se calca no grito e na perda da paciência, o que deu a ele uma certa persona autoral. Mas, goste-se ou não dele (e o P de Pop aqui é do time dos que gostam, muito), ele é uma exceção de sucesso pleno que pode (e deve) ser encarado como um modelo. Para começar, ao longo de 15 anos a fio, ele foi o comediante responsável pelas maiores bilheterias do gênero em Hollywood, deixando para trás rivais como Jim Carrey e Ben Stiller ao faturar – sem falhar – US$ 100 milhões por filme, com exceção dos dramas sazonais por ele estrelados, tipo Reine Sobre Mim (2007). Estrelou até uma obra-prima da fantasia: Como Se Fosse a Primeira Vez (2004), que é exibida TODO DIA em algum canal a cabo (ou na TV Globo) no Brasil. E, quando caiu do pódio das salas de exibição, ele arranjou para si um outro império onde pudesse reinar: a NetFlix. É lá que, desde sexta-feira, ele brilha à frente de um longa-metragem impagável: Sandy Wexler.      

Dirigido pelo ator e cineasta Steven Brill (de Totalmente Sem Rumo), esta produção é uma espécie de Broadway Danny Rose, um dos melhores filmes de Woody Allen, no qual Sandler faz um personagem bem parecido com o do diretor de A Rosa Púrpura do Cairo lá: um caçador de talentos e empresário desastrado e de pouco sucesso. Tudo aqui se passa nos anos 1990, quando Wexler enxerga numa jovem aspirante a cantora (Jennifer Hudson) uma joia a ser lapidada. E, aos poucos, apesar de seu prestígio do tamanho de uma uva passa, ele consegue dar a ela a visibilidade merecida, cavando um poço para si. Seus feitos são comentados por personalidades da mídia (todas elas amigas e parceiras de Sandler) como o diretor Judd Apatow, os atores Henry Winkler, Pauly Shore e Chris Rock e o cantor Vanilla Ice.

Testada em projetos do já citado Woody Allen, tipo Poucas e Boas (1999), a aparência de mockumentary (falso documentário) de Sandy Wexler é uma forma de Sandler homenagear seu próprio agente, Sandy Wernick, que foi, entre muitas coisas, um dos consultores da série Alf, o Eteimoso. A estrutura narrativa desta comédia NetFlix serve o padrão dos filmes mais famosos do comediante: o patético nele não se dá pela fraqueza ou pela fragilidade e sim pela brutalidade de suas explosões, aqui medidas em gargalhadas caricatas. É uma receita batida, mas que Sandler cozinha com uma competência sem par na indústria do riso dos EUA, temperando-a com um carisma único. Desde que foi para a NetFlix, após o fracasso de Juntos e Misturados (2014), estrelando The Ridiculous 6 (2015), ele arrumou para si um cantinho confortável, que agora se estende à Croisette, em concurso pela Palma dourada.

Noah Baumbach dirige Sandler e Dustin Hoffman (de barba) em

Noah Baumbach dirige Sandler e Dustin Hoffman (de barba) em “The Meyerowitz Stories”, indicado à Palma de Ouro

Encarada como dramédia familiar, The Meyerowitz Stories é dirigida pelo ótimo Noah Baumbach, que nos deu A Lula e a Baleia (2005) e Frances Ha (2012) e tem Dustin Hoffman e Emma Thompson no elenco, deixando Sandler em boa companhia. E não se esqueça de que, há 15 anos cravados, ele esteve em Cannes, sob a direção de Paul Thomas Anderson, com o memorável Embriagado de Amor (2002). E, naquele ano, Anderson acabou deixando o balneário francês com o prêmio de melhor diretor. Quem sabe o que se passa com Noah agora. E, se nada der certo fora NetFlix, Sandler ainda tem para si uma garantia de vacas gordas com a franquia Hotel Transylvânia, da qual ele é o produtor titular e a voz de Drácula.

E, falando em voz… a dublagem nacional de seus melhores filmes, incluindo Sandy Wexler, é feita por um de nossos melhores dubladores, Alexandre Moreno, um ator soberbo.