‘Açúcar’ leva às telas o mel da ousadia

‘Açúcar’ leva às telas o mel da ousadia

Rodrigo Fonseca

28 de janeiro de 2020 | 16h04

Rodrigo Fonseca
Pontuado por um clima de erotismo áspero, com direito a uma canção de Agepê e à cena de masturbação mais inusitada (e telúrica) do cinema nacional, o filme pernambucano “Açúcar” arrebatou olhos, corações e mentes no Festival de Roterdã e na Première Brasil em 2017 e 2018 e, agora, enfim, consegue espaço nobre em tela grande. Nesta quinta-feira ele entra em cartaz, desafiando normas morais a partir de um debate (sensorial e espiritual) sobre reforma agrária, racismo e pertença. É o casal de diretores Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira que assina a direção deste drama político centrado no preconceito e no decadentismo da aristocracia rural no país. Só a fotografia de Fernando Lockett – de uma paleta de cores imune a clichês na representação do desejo e no registro de uma paisagem de areia, verde e névoa moral – já vale o olhar. Quem encarna a nobreza falida do Nordeste é Maeve Jinkins, em uma atuação arrebatadora. Cabe a ela interpretar a herdeira de um engenho de cana. A partir dela, mergulhamos em um universo onde realismo social e fantasia dançam frevo. Maeve vive Maria Betânia Wanderley, a dona de um império agrícola em vias de desaparição. Seu choque é ver que um centro cultural negro ao redor de suas posses prospera mais do que seus negócios. O sabor de frustração é maior ao notar que seu empenho em plantar chuchu e frutas exóticas não deu em nada. A chegada de uma aristocrata ainda mais racista, vivida por Magali Biff (do doído “Pela Janela”), vai inflamar os ânimos locais, envolvendo até mesmo os orixás. Ou quase. Brevíssimo, mas letal, “Açúcar” é um poema sobre a solidez do arcaísmo que desmanchou no ar, sem dar deixas a lutas de classe: o desmanche deu-se por dentro, por um âmago carcomido pela tradição e pela alienação.

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