Acordes de Tom Zé e Lee Perry no Anima Mundi

Acordes de Tom Zé e Lee Perry no Anima Mundi

Rodrigo Fonseca

25 de julho de 2018 | 14h55

Rodrigo Fonseca
Um óvni animado foi avistado (e ouvido) no céu digital do audiovisual brasileiro, unindo estéticas de videoclipe ao experimentalismo do cinema figurativo nacional numa narrativa poética, suingada, calcada nas pesquisas rítmicas do coletivo carioca DigitalDubs. O tal alien se chama Estudando o Dub e poderá ser avistado nesta sexta (27/7), às 18h30, ao ar livre num evento livre e gratuito, na Praça Animada, do Anima Mundi, no Centro Cultural dos Correios. Trata-se de um pequeno grande filme (3’51” de cores lisérgicas) que chega agora a plataformas de projeção da web (www.youtube.com/digitaldubsoficial) com base numa faixa musical lançada para streaming em dezembro de 2017 com nota A dos mais variados críticos. Nela, tem Tom Zé, numa releitura de seu LP Estudando o Samba (1976), e Lee ‘Scratch’ Perry, bruxo jamaicano no feitiço do reggae. Ambos nasceram em 1976: um em Kendal, outro, em Irará. Na música, a veia de pesquisa na sonoridade de ambos leva a uma alquimia. Nas telas deste curta musical, os dois se transformam em personagens de animação, soltos neste Submarino Amarelo que troca o LSD pela batida pós-tropicalista dos samplers da DigitalDibs. Cada um dos acordes gera uma simbologia (mitológica, pop, delirante) na jornada estruturada pelo animador Aleixo Leite.

Egresso da UNB, um celeiro de talentos da animação, Aleixo aplica a experiência de quase 20 anos de exercícios cinematográficos (autorais) em prol de um jogo sensorial (divertidíssimo) que a canção Estudando o Dub produz. A faixa revive o sempiterno desejo de se ampliar as portas da percepção a partir de sonoridades que desafiem convenções. E desafiar normas é a base da obra de Tom Zé e de Lee Perry, cada qual com seu conceito, cada qual com seu universo cultural. Mas, para padrões cinéfilos, fluídos por natureza, é uma delícia ver este Tom & Jerry estroboscópico com o baiano e o jamaicano flutuando entre transistores, fios, caixas de som e baús do tesouro. O importante, como diz a letra, “é abrir a porta”, neste caso a dos limites narrativos do próprio cinema brasileiro de animação, que completou cem anos em 2017 em novos voos pelo mundo, buscando se afirmar lá fora. Não esqueça que fomos indicados ao Oscar do setor em 2016 com O Menino e o Mundo e, em 2018, estamos na linha de tributos do maior festival de animação do planeta, Annecy. O clipe de Aleixo, amparado na universal sinestesia da DigitalDubs, funciona como um agente essencial (e fundamental) na internacionalização de nossa arte animada.

A pedra fundamental do desenho animado foi posta em pé quando Lee ‘Scratch’ Perry veio ao Brasil tocar e a DigitalDubs abriu um show dele em São Paulo. Um dos corações do coletivo, MPC aproveitou para propor a Perry gravar um vocal enquanto estivesse na cidade. Um ano depois Tom Zé adicionou sua contribuição vocal em seu próprio estúdio caseiro, também em São Paulo. Daí nasceu a mistura de fogo e gelo, de Bahia e Jamaica, de inquietações de dois super-heróis da melodia. Eles são gigantes como o gorila de pelos avermelhados que salta em diversos planos do curta de Aleixo numa representação viva da Natureza, a irmã-dionisíaca da Cultura, e que tanto simboliza para os dois músicos veteranos e para os jovens do DigitalDubs.

Estamos diante de um dos mais ousados trabalhos de animação do país nos últimos anos, na relação entre a narrativa cinematográfica e a música, expandindo as noções de videoclipe por bases livres, anárquicas como o legado de Tom Zé e de Lee Perry. É pra ver, rever, reviver…