ACCRJ: ‘Parasita’ na cabeça, ‘Guerra Fria’ no peito

ACCRJ: ‘Parasita’ na cabeça, ‘Guerra Fria’ no peito

Rodrigo Fonseca

10 de fevereiro de 2020 | 13h33

Indicado a três Oscars, “Guerra Fria” (“Zimna wojna”), que rendeu o prêmio de melhor direção em Cannes ao polonês Pawel Pawlikowski, abre a mostra Melhores do Ano da ACCRJ, realizada no Odeon e no MAM

Rodrigo Fonseca
Ainda em júbilo pela vitória histórica de “Parasita” na cerimônia de 2020 da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, da qual saiu com os Oscars de melhor filme, filme internacional, direção e roteiro original, o circuito de mostras do audiovisual brasileiro vai abrir uma brecha de honra para o longa-metragem dirigido pelo sul-coreano Bong Joon-ho, como o principal destaque da retrospectiva Melhores do Ano da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ). Foi ele o título eleito como a melhor produção de 2019 pelo coletivo de jornalistas e pesquisadores presidido por Ana Rodrigues, cujo festival anual, desta vez, ocorre no Cine Odeon Claro – Centro Cultural LSR, de 13 a 19 de fevereiro. Apesar da paixão mundial por “Gisaengchung”, título original do ensaio sobre luta de classes de Bong, quem inaugura o evento é “Guerra Fria” (“Cold War”), da Polônia, dirigido por Pawel Pawlikowski. Os demais vencedores foram – “A Favorita” (The Favourite), de Yorgos Lanthimos; “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz; “Ad Astra: Rumo às Estrelas” (“Ad Astra”), de James Gray; “Assunto de Família” (“Manbiki kazoku”), de Hirokazu Koreeda; “Coringa” (“Joker”), de Todd Phillips; “Dor e Glória” (“Dolor y gloria”), de Pedro Almodóvar; “Era Uma Vez em… Hollywood” (“Once Upon a Time… in Hollywood”), de Quentin Tarantino; e “O Irlandês” (The Irishman), de Martin Scorsese (Estados Unidos, 2019). A partir do dia 19/2, às 18h30, a retrospectiva segue para a Cinemateca do MAM-RJ, para uma projeção de “Filhas do vento” (2004), de Joel Zito Araujo, em homenagem póstuma à atriz Ruth de Souza (1921-2019). No dia 20/2, também às 18h30, o Museu de Arte Moderna ajuda a Associação num tributo à realizadora belga Agnès Varda (1928-2019). De sua vasta e premiada obra, foi selecionado “As Praias de Agnès” (“Les plages d`Agnès, 2009).

Com exibição agendada para esta quinta-feira, às 17h, no Odeon, “Guerra Fria” é um minucioso trabalho de autópsia emotivo que ficou impresso a brasas em nosso imaginário ultrarromântico, sulcado em nosso peito por sua excelência narrativa. É difícil pensar em um diretor que tenha dado ao amor descabelado uma dimensão plástica (e ética), no pathos do querer, tão possante quanto o inglês David Lean (1908-1991) deu a suas incursões ora intimistas (“Desencanto”, 1945), ora épicas (“Doutor Jivago”, 1965) ao bem querer. Lean foi único, e merecia mais atenção e prestígio do que tem. A força de seu legado se faz notar quando realizadores dos de hoje emulam sua visceralidade, caso de Pawlikowski. Houve também Boris Barnet (1902-1965), russo por trás de “À beira do mar azul” (1936), que salpicava humor na massa áspera do desejo. E há Philippe Garrel (“Amantes constantes”), mas este, francês, vai por uma metafísica na qual a paixão é doença, febre que arde a uma temperatura ferevente. Em Lean, paixão era um norte, não um cadafalso. Como ele, talvez só haja o já citado Pawel, polonês responsável por tocar Caetano e Gil no suarento “Meu amor de verão” (2004). Um dos nomes de maior popularidade entre os artistas da Polônia, ele alcançou prestígio ao ganhar o Oscar com “Ida”, em 2015. Mas ali, num terreno de certo exibicionismo, ele era só um artesão. Um artesão embevecido com o próprio rigor técnico, dada a força plástica de suas imagens em preto e branco. Não havia a transcendência que transpira de cada quadro (aliás, um mais rigoroso do que o outro) de “Guerra Fria”, produção de €4,3 milhões pela qual ele conquistou o prêmio de melhor direção em Cannes. Com bilheteria de 20 milhões, “Cold War” ficou na mira da Academia, tendo sido nomeado a estatuetas em três categorias: melhor diretor, filme estrangeiro e fotografia, coroando os enquadramentos de Lukasz Zal, por toda sua beleza plástica na saturação do P&B. Temos um romance desvairado e doído como os de Lean, como uma canção de Lupicínio Rodrigues: o maestro Wiktor (Tomasz Kot) e a cantora Zula (Joanna Kulig), revelada por ele, entram numa simbiose de almas em meio à realização de um espetáculo e, para fugir do controle do Estado, ganham a Europa à cata de paz. Mas existe o amor e existe a vida, sua inimiga. Nas andanças, em anos de vai e de vem, erráticos, por muitos países, o certo vira errado, o desacerto se torna acerto, e brotam demandas a serem vencidas, como ciúme, posse, gastura… É um filme sobre correntes que libertam e liberdades que agrilhoam: um ensaio sobre a hipótese do perpétuo no efêmero da vida a dois. Um filme que a ACCRJ coloca em um pedestal honrado, para se redesenhar na História de cidade como um farol de coragem e excelência.

Num balanço do ano que passou, a AACRJ concedeu o prêmio de Melhor Iniciativa Cinematográfica de 2019 a Carlos Alberto Mattos, pelo livro “Sete faces de Eduardo Coutinho”, um trabalho seminal de estudo sobre o papa do documentário nacional, morto em 2014, que rendeu exposição, mostra e curso.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: