‘Abu Saddam’, a fina flor do cinema egípcio

‘Abu Saddam’, a fina flor do cinema egípcio

Rodrigo Fonseca

30 de novembro de 2021 | 21h40

Uma requintada fotografia marca a força plástica do novo longa da diretora Nadine Khan

RODRIGO FONSECA
Pela foto que ilustra este post, já possível detectar um requinte plástico singular no único dos 14 concorrentes à Pirâmide de Ouro do 43º Festival do Cairo que “joga em casa”, tremulando a bandeira do Egito em sua abordagem ética e estética das relações cotidianas: a dramédia de costumes “Abu Saddam”. Nadine Khan, sua realizadora, recebeu uma reverência em massa da cinefilia egípcia em reconhecimento ao empenho da indústria audiovisual local em disputar a mais valiosa das láureas cinéfilas de sua pátria. Não por acaso, o presidente do evento, iniciado na sexta – o roteirista e produtor Mohamed Hefzy -, foi à sala de exibição Ópera a fim de fazer a apresentação do filme e da diretora, que hoje é uma dos vozes do mundo árabe com mais eco nas telas. Seu protagonista, o ótimo Mohamed Mamdouh, é uma espécie de Leandro Hassum norte-africano: um signo de humor em sua carreira na TV e nos circuitos exibidores.
Reconhecida em sua nação e fora dela por “Harag W’ Marag” (2012), Nadine fez o Cairo rir e se angustiar com o procedimento humanista com que consegue transformar um personagem de modos reprováveis e detestáveis (em seu machismo e em sua soberba incontornáveis) em um tipo tridimensional de uma doçura inegável. Abu Saddam, o papel de Mamdouh, fuma sem parar, é grosso com as mulheres e trata seu assistente com indelicadeza. Até com a polícia ele grita. Difícil não lembrar de Jack Nicholson em “Melhor É Impossível” (1997) – só que sem TOC. Afastado das estradas há tempos, Abu adquiriu a pior das reputações, amplificada por toda a truculência com que trata as pessoas que o amam. A decisão de voltar a pilotar um caminhão é uma forma de resgatar a fama de “durão” e de “garanhão” que ele acreditava ter. Para isso, o chofer aceita uma missão que pode devolvê-lo aos rumos de outrora.

Mohamed Mamdouh é o Leandro Hassum do Egito

Mas o que Nadine busca, em sua narrativa on the road, não é cartografar a sua dita “jornada do herói”, até pelo fato de ele não ter um pingo de heroísmo – passivo ou ativo. O que sua diretora busca é desossar o esqueleto do sexismo e do moralismo enquanto ele avança, por cerca de um dois dias e uma noite, adotando uma festança como pouso. Paqueras sazonais nos cruzamentos, faniquitos de esquina e uma ingestão de nicotina cavalar fazem parte de um road movie que resgata a figura dos gigantes de coração mole – ainda que de boca suja – como eram os personagens de “Marty” (1955) e “Gigante” (2009). Irrita-se com a misoginia de Abu. Mas é por meio dela que conseguimos vislumbrar (e exorcizar) os fantasmas do patriarcalismo à sua volta. E o fazemos apoiados por uma fotografia de acabamento primoroso. Por meio de um esmero plástico delicadíssimo, Nadine desconstrói o politicamente incorreto, extraindo um lado bom – e necessário – dele. Que o Festival de Cairo, que segue até domingo, saiba valorizar um longa tão inquieto.

p.s.: Amigos de infância, os atores Thati Lopes (de Porta dos Fundos e do filme “Socorro! Virei uma garota”) e Pedro Henrique Lopes (das novelas “Verão 90”, “Êta Mundo Bom” e do projeto Grandes Músicos para Pequenos) apresentam, a partir desta terça-feira (30/11), sessões de pré-estreia do curta-metragem musical “Um Casal Normal (Sem pai nem mãe)”. Com humor, a obra propõe uma reflexão sobre os estereótipos de gênero na sociedade. Com direção de Diego Morais e roteiro de Pedro Henrique Lopes, o curta brinca com as funções de um homem e de uma mulher dentro de casa e da relação. Os ingressos gratuitos podem ser retirados pelo Sympla até o dia 30/12 (https://linktr.ee/umcasalnormal).

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