‘Abraço’ apertado na Educação

‘Abraço’ apertado na Educação

Rodrigo Fonseca

15 de outubro de 2020 | 19h44

Construído com base numa aparente simplicidade, “Abraço” é um estudo sobre a conjugação do verbo “resistir” na desinência da poesia, na primeira pessoa do plural e na força trágica de Giuliana Maria, hoje uma das mais potentes atrizes de sua geração

RODRIGO FONSECA
Ganhadora do Kikito de Melhor Atriz em Gramado em 2015 por “Herói”, Giuliana Maria carrega (e depura) de papel em papel um máscara trágica que traduz no olhar – como poucas intérpretes de sua geração hoje conseguem – a noção de resiliência em sua brasilidade plena. É difícil pensar em alguém mais acertada para dar vida à educadora Ana Rosa no drama político “Abraço”, um necessário estudo sobre práticas de sucateamento do ensino brasileiro, laureado pelo júri popular no Cine PE 2019. De lá veio ainda um prêmio de Melhor Trilha Sonora, para André Abujamira e Eron Guarnieri, e mais um merecido troféu para Giuliana, que vem desenvolvendo (ainda que sem receber os holofotes merecidos) uma trajetória profissional singular, que, com frequência, é pautada pelo heroísmo social. Sua personagem neste longa de DF Fiuza, com CEP sergipano, é uma Norma Rae da Educação. Com base em fatos reais ocorridos em 2008, Fiuza refaz, com tons de um marxismo doce, a peleja dos professores da rede pública de Sergipe para brigar contra antincostitucionalização da progressão vertical de quem vive do ensino. Flávio Bauraqui, sempre na medida precisa do levante, é o mestre que articula a luta jurídica pelo bem de sua classe – e de toda a sua população. A Ana Rosa de Giuliana é uma das docentes que abraçam a causa e brigam, ferinas, para que a Lei não sei reprovada por mau comportamento. Essa briga é narrada em plena sintonia com a tradição do cinema de protesto (vide “Braços Cruzados, Máquinas Paradas”), consolidando-se como um brado de guerra numa montagem capaz de cozinhar a tensão no ponto certo de fervura. E, nas cenas de Giuliana, a ebulição é notável. Neste Dia das/ dos Professoras/res, este “Abraço” fica ainda mais urgente. No RJ, ele está em cartaz no Espaço Itaú, às 18h, e passa ainda na plataforma digital Cinema Virtual. É uma narrativa contagiante, que merece ser vista na telona… assim como merece ser aplaudida, não apenas como o documento de uma história de resistência, mas por méritos artísticos indisfarçáveis em sua (aparente) simplicidade.

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