Abbas Kiarostami: um adeus ao inventor da ‘iranidade’

Abbas Kiarostami: um adeus ao inventor da ‘iranidade’

Rodrigo Fonseca

05 Julho 2016 | 02h19

set 2 Abbas Kiarostami Abbas Kiarostami

Existe um preceito filosófico essencial aos estudos de identidade nacional, iluminado pelo historiador francês Michel de Certeau (1925-1986), nas páginas de A Invenção do Cotidiano (1980), chamado “popularidade”, que se mostra uma ferramenta de análise valiosa neste momento de luto cinéfilo pela morte do iraniano Abbas Kiarostami. A dor da perda prematura (e desnecessária) do realizador de O Vento Nos Levará (1999) e Close-Up (1990) impulsiona a revisão crítica urgente de sua contribuição às artes da imagem. Revisá-lo é importante, sobretudo, para entendermos a maneira como ele fez a apreensão (ou a abstração) do Real se sofisticar no plano, num neo-neorrealismo no qual uma nova cultura, a do Irã, abria-se diante de nossos olhos ocidentais. A ideia do Irã como um perímetro de afirmação de uma nação – ou de uma realidade – é o que nos liga a Certeau, pois foi Kiarostami quem inventou a “iranidade” no cinema. Este crédito deve se estender também a Jafar Panahi (com O Balão Branco) e a Mohsen Makhmalbaf (via Salve o Cinema). Mas nenhum alcançou dimensão igual a de Abbas, consolidada com a conquista da Palma de Ouro, em 1997, por Gosto de Cereja.

“Gosto de Cereja”: Palma de Ouro de 1997

Mas a “iranidade” nele é uma relativização, nos moldes do que pregava Certeau. Dizia este que um grupo de indivíduos se faz povo a partir de uma contingência afetiva à qual atribui valores de identificação e de pertença: ou seja, povo é o grupo que se reconhece a partir da apreensão de uma instância de terra qualquer, a qual demarca como lar. A “popularidade” é o gesto de fazer deste quinhão de terra o emblema de sua existência, um RG geográfico, uma flâmula a ser esgarçada na troca simbólica com outros povos de modo a fazer dela uma pecinha no quebra-cabeça do universalismo. Ser povo é exercer a individualidade num coletivo: é o particular que se desgarra do universal. Kiarostami entendia isso assim, ó…:

“É difícil para a imaginação se desapegar da geografia. É desafiador expressar um modo de ser ou de estar no mundo distanciando-nos das referências de onde viemos. Mas é esse o desafio que me leva a fazer filmes. O cinema me mostrou que todos nós, humanos, compartilhamos as mesmas angústias. Na angústia nos universalizamos. Há uns dias, ao exibir um filme num festival, eu saía de uma sessão e um conterrâneo me acenou, em voz alta, com jargões em persa, gesticulando de uma maneira exaltada típica do Irã. Eu poderia botar isso num filme, se quisesse, mas seria quase uma piada interna, algo para poucos, para iranianos. Não é isso o que eu busco. O que eu quero são as interseções culturais, as percepções que aproximam alguém no Irã a alguém no Brasil. Ser iraniano, nos meus filmes, é o mesmo que não ser iraniano. Busco pessoas, sejam elas de onde forem”, disse o diretor durante uma visita ao Brasil, em outubro de 2004, para participar da Mostra de Cinema de São Paulo.

“Cópia Fiel” (2010)

Foi uma sexta-feira mítica para um crítico aprendiz de 24 aninhos, uma tarde para não se esquecer (como tardes de mãos dadas, de felicidade clandestina). De meio-dia às 14h, emendaram-se três entrevistas daquelas de dividir a vida entre “antes” e “depois” daquele dia: o israelense Amos Gitai (diretor de Kedma), o (hoje finado) português Manoel de Oliveira (realizador de Vale Abraão) e Kiarostami, este à época envolvido com o lançamento do documentário 10 Sobre Dez (2004). Ali, numa tarde paulistana, ele explicou as origens de seu cinema, numa genealogia de uma obra iniciada em 1970 com o curta-metragem Le Pain et La Rue (1970). “Sou fruto de uma geração que conheceu o audiovisual a partir de Yasujiro Ozu (realizador japonês, responsável por obras-primas como A Rotina Tem Seu Encanto) visto na Cinemateca de Teerã, aprendendo a beleza da contemplação e da desierarquização dos ambientes. Fechar uma câmera num carro, em duas pessoas falando, não precisa nem deve ser encarado como uma solução extraordinária de direção: ela deve ser tão orgânica quanto se filmar duas pessoas passeando entre uma multidão num parque”.

Muitas imagens foram produzidas desta entrevista, de 2004, até aqui… Muitos filmes foram feitos por aquele mestre do Real, fossem rizomas como Dez (2002), fossem equações de P.A. e P.G. como Cópia Fiel (2010) e o devastador Um Alguém Apaixonado (2012), dois jogos de armar, dois modos de pensar o querer. O tempo passou e Kiarostami só cresceu. Daí ser imperdoável sua indelicadeza de morrer sem pedir licença ao nosso cinéfilo coração, que terá sempre em seu Através das Oliveiras (1994) um alento aos olhos, um afago ao peito. Obrigado, Abbas. O mundo fica mais triste sem você.