A volta de ‘Jabberwocky’ e bossas francesas

A volta de ‘Jabberwocky’ e bossas francesas

Rodrigo Fonseca

30 de dezembro de 2019 | 07h01

Rodrigo Fonseca
Às vésperas de inaugurar a edição 2020 de seu encontro anual de debates entre realizadores, produtores e jornalistas do mundo inteiro, chamado Rendez-Vous e agendado para ocorrer de 16 a 20 de janeiro, o cinema francês fecha seu ano “letivo” de 2019 com mostras de seus maiores sucessos, apostas no amanhã e revisões históricas, com direito a “Jabberwocky” (1977), de volta aos écrans. O segundo longa-metragem de Terry Gilliam, ainda ligado a seus pares de Monty Python, está em exibição no fofíssimo Le Champo – Espace Jacques Tati, sala que vai resgatar “Lola Montès” (1955), de Max Ophüls, também. O espaço batizado em tributo ao astro de “Meu Tio” (1958) vai rever ainda “A Vida de Brian” (1979) e “Em Busca do Cálice Sagrado” (1975) a partir de 1º de janeiro. As projeções pegam carona na restauração dos longas-metragens da fase medievalista da trupe inglesa, feita pelo British Film Institute (BFI).
“Olhar para trás é uma forma de olhar pra frente, sobretudo neste momento em que a gente perde tanto tempo com filmes de super-heróis. É bom olhar pra realidade e ver como existiu gente interessante, mesmo em épocas turbulentas, que foi capaz de viver sem superpoderes”, disse Gilliam ao P de Pop, em Cannes, em 2018, quando o restauro começou.

Na ocasião o cineasta estava às voltas com o lançamento do saboroso “O homem que matou Dom Quixote”, que foi cuspido nas telas brasileiras. Definido por alguns como “um equívoco sem um pingo de graça” e por outros como uma obra-prima, “The Man Who Killed Don Quixote” é uma releitura livre, e pop, do texto publicado em 1605 por Miguel de Cervantes (1547-1616) com uma direção de arte magistral. Elogiou-se muito a atuação de Adam Driver como um Sancho Pança dos novos tempos. O Cavaleiro da Triste Figura foi confiado ao bamba Jonathan Pryce, que anda arrebatando elogios com seu papel como o pontífice Bergólio em “Dois Papas”. Parceiro de Gilliam em “Brazil, O Filme” (1985), Pryce esbanja romantismo como Javier, sapateiro de uma vila espanhola que, anos atrás, viveu Quixote no filme de conclusão de curso de Toby (Driver, em brilhante atuação). No momento em que volta à Espanha, a fim de rodar um comercial, Toby se vê impelido a voltar às raízes e reaver seu contato com a saga de Cervantes e sua metalinguagem. Por isso decide encontrar Javier, que, tomado por sua imersão nas artes, passou a crer que é o próprio Quixote. Possuído pela imaginação, ele passa a ver em Toby seu Sancho ideal, arrastando o garoto para lutar contra os gigantes do mundo de hoje. Poético do começo ao filme, “The Man…” foi a atração de encerramento de Cannes em 2018 e amplicou o prestígio de Driver, hoje adulado por sua comovente interpretação em “História de um Casamento” (“Marriage Story”), de Noah Baumbach.
“O tipo de cinema que eu faço aposta no sonho e na liberdade, forças que vão na contramão das convenções narrativas do audiovisual. Eu não faria nunca uma sequência de Quixote não apenas pelo pesadelo que esse projeto foi na minha vida, entre idas e vindas. Eu não vejo sentido numa Parte Dois porque a história concebida por Cervantes está inteira neste filme que fiz, sem nada a acrescentar. Mas se tivesse que voltar a esse mundo, teria uma Dueña Quixota e não um homem”, disse Gilliam a Croisette.

Na entrevista em questão, ele definiu seu “Jabberwocky” como “uma bem-humorada releitura moral da sociedade”. Na trama, Michael Palin é o aldeão Dennis, que precisa encarar uma criatura faminta por carne humana em meio às pragas da Idade Média. A direção de arte feita por Roy Forge Smith impressiona até hoje.

Em paralelo à exibição de “Jabberwocky”, o circuito francês confere um festival promovido pela revista “Télérama”, com os grandes êxitos do ano, incluindo “Dor e Glória”, “Parasita”, “Era uma Vez em Hollywood” e a coprodução Brasil x Itália “O Traidor”, de Marco Bellocchio, com Maria Fernanda Cândido e Luciano Quirino. Da prata da casa, o destaque no evento da Télérama vai para “Retrato de uma Jovem em Chamas” (“Portrait de la jeune fille en feu”), de Céline Sciamma. O prêmio de melhor roteiro em Cannes e a Queer Palm (a láurea LGBTQ+ da Croisette) foram reconhecimentos obrigatórios diante da excelência de dramaturgia deste ensaio sobre a sororidade. Uma pintora do século XVIII (Noémie Merlant) tem uma tarefa de retratar uma jovem nobre (Adèle Haenel) forçada pela mãe a um casamento não desejado. Da pintura vai brotar uma paixão cúmplice. E libertadora.

Badalado na França, “El Reino” é um dos destaques do Télérama. Depois de seduzir o público brasileiro com a interpretação do jovem Pepe Mujica em “Uma noite de 12 anos” (2018), o espanhol Antonio de la Torre virou objeto de todas as conversas cinéfilas na cidade por seu trabalho neste thriller do diretor Rodrigo Sorogoyen. Ele vive um político que decide devassar a corrupção entre seus pares.

No quesito futurologia, o circuito parisiense empresta holofotes a potenciais mobilizadores de plateias como “La Fille au Bracelet”, de Stéphane Demoustier, sobre o julgamento de um caso de assassinato cuja acusação pode não ser tão injusta quanto parece. E, de cola no Oscar, há uma pré-estreia à vista de “Dark Waters”, de Todd Haynes, com Mark Ruffalo encarando uma luta contra a indústria química. No dia 7 de janeiro, o Champo, a salinha Tati, abre tela para “Merveilles à Monfermeil”, dirigido pela cantora e atriz Jeanne Balibar, projetado com muita badalação em Locarno. O longa é uma das promessas internacionais da França para circuitos internacionais.

Ainda sobre as telas da França:
Um dos filmes brasileiros de melhor acolhida entre crítica e público nestes dias de “Bacurau”, o tenso thriller (se é que rótulos cabem) “No Coração do Mundo”, dos irmãos Gabriel e Maurílio Martins, das Minas Gerais, está em cartaz por estas bandas. Produção com a grife da Filmes de Plástico, o longa se passa em Contagem, cidade vizinha de Belo Horizonte, onde seus diretores cresceram, e narra a rotina de moradores dessa periferia. Em sua farpada trama, Marcos (Leo Pyrata) vive de pequenos delitos realizados em um bairro pobre de MG. A rotina do crime, no entanto, traz altos riscos e poucos benefícios, visto que ele não consegue planejar assaltos mais substanciais e valorosos. Ao reencontrar uma antiga parceira de trambiques, Selma (Grace Passô, brilhante), Marcos enxerga a possibilidade de tramar um roubo grandioso a um condomínio de luxo. Para isso, vai precisar convencer uma mulher ainda afeiçoada à retidão, Ana (Kelly Crifer), a participar da empreitada.

p.s.: Delícia de ver e rever, “Encantada” (“Enchanted”, 2007) é a atração da “Sessão da Tarde” desta segunda, com a atriz Amy Adams no papel da princesa que sai de um mundo de fantasias para tentar a sorte na Terra, flertando com Patrick Dempsey. A dublagem desse par romântico, feita por Andrea Murucci e Alexandre Moreno, lava tímpanos com a água benta da excelência.
p.s.2: Ainda sobre filmes da TV… A última “Tela Quente” de 2019 aposta em Ridley Scott e seu “Perdido em Marte” (“The Martian”, 2015), produção de US$ 108 milhões que arrecadou seis vezes mais nas bilheterias (cerca de US$ 630 milhões) e ainda ganhou dois Globos de Ouro: os de melhor filme e de melhor ator, dado a Matt Damon. Dublado aqui com competência singular por Marco Antônio Costa, Damon é um astronauta que fica preso em solo marciano, após um acidente em sua expedição, e precisa inventar um modo de regressar ao nosso planeta.

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