A visível luz de Gregório Duvivier

A visível luz de Gregório Duvivier

Rodrigo Fonseca

21 de maio de 2020 | 18h16

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Ver um zé pereira como Gregório Duvivier em cena, diante de toda a sua luta contra a falência moral brasileira, no programa “Greg News”, da HBO, sempre dá uma dose de extra de ânimo à resiliência nacional. Mais animador ainda é ver o ator e escritor, mais conhecido por suas proficiências cômicas, arriscando-se pelas veredas do melodrama em “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz, que estreia na televisão no domingo, no Canal Brasil, às 23h10. A exibição dá adeus à mostra que a emissora dedicou a pérolas do Festival de Cannes. Há um ano, esta produção da RT Features, pilotada por Karim, a partir do livro “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Martha Batalha, atropelou a Croisette, de onde saiu com o Prêmio Un Certain Regard. Na trama, a pianista Eurídice (Carol Duarte) passa décadas em busca de sua irmã, Guida (Julia Stockler), que foi expulsa de sua casa por seu pai, num gesto de machismo. Eurídice se casa com Antenor (papel de Gregório), que parece reproduzir o modelo sexista à sua volta. É um dos melhores desempenhos do astro nas telas.
“O filme é sobre as mulheres e faço um homem nesse universo. Acho que o primeiro objetivo é não achar que o filme é sobre o meu personagem. Ele está ali, mas a minha função, sem tentar defende-lo, é tentar encher ele de carne e osso. Não fazer um estereótipo, é algo de que o Karim sempre fugiu. Ele não é um vilão, é um sujeito fraco e frágil”, disse Gregório ao P de Pop. “Para mim, o desafio sempre foi encarná-lo e acho que uma das maneiras de fazer isso é botar amor e paixão nele. Não acho que isso justifique, mas, ao mesmo tempo, torna ele compreensível e humano. Eu sempre tive esse mote. Falar dos meus avôs, por exemplo. Eles eram péssimos maridos, mas ótimos avôs. Essa contradição habita as pessoas e ao fazer um personagem o ator deve lembrar disso. Ele não é apenas um marido abusivo, mas ele tem mil facetas. Isso não torna ele menos abusivo, mas torna ele mais multifacetado e humano”.

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