‘A Vida Viva’ é Bianca Joy Porte em ebulição

‘A Vida Viva’ é Bianca Joy Porte em ebulição

Rodrigo Fonseca

30 de março de 2021 | 10h40

Bianca Joy Porte desafia a gravidade do moralismo em “A Vida Viva” (foto de Priscila Jammal)

Rodrigo Fonseca
Não há perdão para o fato de “Prometo um Dia Deixar Essa Cidade” (2014) não ter estreado comercialmente em circuito, privando a cinefilia do desempenho visceral de Bianca Joy Porte. Aplaudido a fogo em Roterdã, esse filmaço deu a ela o troféu Redentor num Festival do Rio lá de atrás, por uma atuação do tipo “pra sempre”, tão aguda quanto a que ela acaba de fazer no centauro de peça e filme “A Vida Viva”. Tá no YouTube, com link válido até 11 de abril: https://youtu.be/bO_8nR9yc_w. Entre um feito e outro, Bianca garimpou outras pérolas pelos palcos (“Tubarões”) e pelas telas (“Alfazema”). Mas esse seu regresso ao audiovisual, híbrido de linguagem teatral, segue as vias da performance, do sangue, das tripas e da inquietude. Ela ainda colabora no roteiro, escrito e dirigido por Antonio Guedex, num ambiente que evoca o “Cão Andaluz” de Buñuel, com olhos que a fitam em vigília e cortam como navalhas. Eva é o nome que Guedex empresta a ele, num misticismo primevo, a fim de discutir as práticas da resiliência feminina contra a opressão falocêntrica. Num mundo de “Fala Que Eu Te Escuto” (#sqn), Eva não sabe muito quem é, tem uma memória não tão completa de seu pai e sente sede. Se a Eva da Bíblia curava sua secura de viver na seiva da carne da maçã, traspassando a casca da vermelhidão, a Eva de Joy Porte se entorpece numa bacia de H2O fresquinha, onde molha um rosto surrado a golpes de repetição. Seu mundo não é “eterno retorno”, pois não tem a leveza do “vou de volta” nietzschiano. Seu mundo é reprise mesmo: prisioneira dos campos de trabalho de um monolito freudiano chamado Totem da Moral, ela perdeu as recordações. Mas, com a ajuda de seu Self Livre, ela preservou sua habilidade de conjugar o verbo “resistir” na primeira pessoa do singular. Ao longo do espetáculo, que oferece ao espectador um grau de interatividade numa escolha de “segue” ou “não segue”, Eva se liberta e tenta libertar os demais prisioneiros. Por mais que tudo seja encenado na chave da metáfora, talvez o cabedal de vivências cênicas de La Joy porte não resista à tentação do realismo e rompa com a ilusão. Relativize esse “talvez” aí com gosto, pois, numa série de momentos, sua maneira de esgrimar a palavra vai mais para a consciência do real do que para o ilusório. Tem um Artaud ali, em alguns olhares dela pra gente, famintos por contato. E tem um pouco da Sally Field de “Norma Rae” (1979), a heroína marxista que salva suas colegas do mesmerismo fabril. No caso, assim como a Eva do Velho Testamento salvou o mundo da caretice, transformando em cidra o que alguns chamam de pecado, a Eva de Joy nos salva da miopia moralista que borra a visão do quão urgente a equidade de gêneros é. E isso se dá numa micareta cinemática, na qual Guedex é especialmente feliz na fusão entre projeções, na decantação dos planos, no enquadramento de um rosto que é um planisfério de sensações e angústias criativas. Peçaça boa… doída… doida, como coisa que só Denise Stoklos fazia. Joy Porte é stoklosiana em sua forma de inventar na cena. Coisa vívida. “A Vida Viva” mesmo.

p.s.: Depois de um estreia no Youtube, com cerca de 5 mil acessos, o musical “Pimentinha – Elis Regina para Crianças” faz uma curta temporada virtual, aos sábados e domingos, às 16h, até 25 de abril. Esta é a sexta peça do projeto Grandes Músicos para Pequenos, que já levou mais de 200 mil pessoas ao teatro e soma 14 prêmios de teatro infantil. Com direção de Diego Morais, direção musical de Guilherme Borges e texto de Pedro Henrique Lopes, o espetáculo é inspirado na infância de Elis Regina e reúne sucessos da carreira da cantora como “Fascinação”, “O Bêbado e a Equilibrista”, “Madalena” e “Como nossos pais”. A história acompanha a infância de Lilica (vivida pela cantora, compositora e atriz Jullie), umamenina apaixonada por música e por suas grandes cantoras, que faz de tudo parasua mãe levá-la a um concurso de jovens talentos no rádio. Chegando lá, amenina de óculos e cabelo desgrenhado se sente intimidada pelo visual que a obrigam a usar. Em busca de sua própria essência, vai desafiar os padrões de beleza emostrar que toda pessoa é linda quando dá espaço para sua real personalidade.
Venda de ingressos pelo Sympla: www.sympla.com.br/grandesmusicosparapequenos.

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