A ‘vida invisível’ de Karim faz o coração de Cannes acelerar (ou carta a um mestre)

A ‘vida invisível’ de Karim faz o coração de Cannes acelerar (ou carta a um mestre)

Rodrigo Fonseca

20 de maio de 2019 | 09h42

Côte d’Azur, 20 de maio de 2019
Amigo Paulo Cézar Saraceni, que nos deixou em 2012, cedo demais, sem pedir licença…

Tô em Cannes e tomei uma trombada de um ônibus chamado “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, que atropelou convicções acerca do lugar do melodrama, não só como gênero, mas como “expressão de um povo”, uma rubrica sua, das suas falas. O motorista? Anotei o nome: Karim Aïnouz, veio lá do Ceará, com a carteira renovada para renovar… A placa? Anotada tb: a palavra que mais conta nela é cumplicidade, senha para se desbravar essa radiografia de um Rio de Janeiro entre o bucolismo e a boemia, um Rio de portugueses em suas gentes. Lembrei de uma conversa que tivemos, você e eu, sobre “Amor, carnaval e sonhos” (1973), da qual veio uma lição: “Na dúvida sobre a natureza do povo brasileiro, antes de passar pela pena da sociologia, escuta Lupicínio Rodrigues. Nossa sabedoria está nele. O samba é oráculo”. Pois no choro da Salle Debussy do Palais des Festivals de Cannes, choro que parecia de muitos soluços ao meu lado, pensei no Lupicínio que mais e melhor sintetiza Karim, o de “Um favor”, na voz do Jamelão:

Eu hoje acordei pensando/ Por que é que eu vivo chorando/ Podendo lhe procurar/ Se a lágrima é tão maldita/ Que a pessoa mais bonita/ Cobre o rosto pra chorar/ E refletindo um segundo/ Resolvi pedir ao mundo/ Que me fizesse um favor/ Para que eu não mais chorasse/ Que alguém me ajudasse/ A encontrar meu amor/ Maestro, músicos, cantores/ Gente de todas as cores,/ Faça esse favor pra mim/ Quem puder cantar que cante/ Quem souber tocar que toque/ Flauta, trombone ou clarim”

Acrescente piano à lista acima, pois é um instrumento fundamental ao universo que se ergue em torno da relação ausente (ou onipresente na ausência do banzo) entre duas irmãs, dos anos 1950 aos tempos de hoje. Nesse filme que fura o sinal vermelho da moral folhetinesca, Saraça, tem algo que me lembrou do teu “Ao sul do meu corpo” (1982): uma vivência de amor abortado, que, aqui, espalha-se no tempo por cartas que nunca chegam. Com cerca de 2h20 de uma sensorialidade similar àquela que você buscou acrescentar ao Cinema Novo, num tipo de narrativa de invenção que substituía o épico pela poesia, A vida invisível de Eurídice Gusmão” tece sua estrutura a partir de uma troca de cartas entre um remetente sedento de se fazer ouvir e de um destinatário oculto. Não cabe muito explicar por que: o filme faz isso. Não é da natureza de Karim explicar muito. Às vezes um corte pode fazer avançar cinco décadas, sem que nenhum preâmbulo seja feito, mas as explicações estão todas ali, nas cartas e numa forma de enquadramento (a fotografia é Hélène Louvart, que clicou “Pina”, pro Wim Wenders) capaz de traduzir em cores e focos inusitados como é o cheiro de um lança-perfume. Como é o éter na mente… eternamente inebriante.

Falar, as cartas falam. Tem um livro de que um dia te falei, Saraceni, na entrevista que fizemos sobre o teu “O gerente”, chamado “Cartas roubadas”. Quem escreveu foi o Lupicínio do cinema francês, Gérard Depardieu. Numa delas, escrita postumamente para François Truffaut, depois que este morreu, em 1983, Depardieu, no abraço partido dos que ficam, escreve: “François, depois que você morreu, não há mais lugar para histórias de amor nas telas”. Erro. Erro que a saudade produz: o filme de Karim é a prova do contrário. O amor existe, assim como existe a vida, sua inimiga. A questão é o amor escreve-se com um que comporta muitas formas – como a fraternidade de Eurídice e de Guida, irmãs que Carol Duarte e Júlia Stockler esculpem na pedra, num batismo de fogo na maternidade dos grandes papéis de nosso cinema. Livre adaptação do romance homônimo de Martha Batalha, a história delas converte literatura em sensação, tipo o teu “Capitu (1968) buscou fazer.   

Cá pela Croisette, onde Pedro Almodóvar, Céline Sciamma e Terrence Malick são os mais potentes nomes na disputa pela Palma de Ouro, a mostra Un Certain Regard faz lotação no ônibus de Karim: melhor filme, a seção paralela mais disputada de Cannes, não viu este ano. Produção de Rodrigo Teixeira e sua RT Features, agora em parceria com a produtora alemã The Match Factory, o novo filme do realizador de “Madame Satã” (2002) mostra que as irmãs Guida e Eurídice são cúmplices no afeto, inseparáveis no dia a dia. Eurídice, a mais nova, é uma pianista prodígio, enquanto Guida, romântica e cheia de vida, sonha em se casar e ter uma família. Um dia, com 18 anos, Guida foge de casa com o namorado, um marinheiro grego, com mel no pi e na delta. Ao retornar grávida, seis meses depois e sozinha, o pai, um padeiro português conservador, expulsa a menina de casa. Guida e Eurídice são separadas para sempre e passam suas vidas tentando se reencontrar. Coisa de Rádio Nacional. Ou do teu Lupicínio, ao dizer: “de uma coisa podes ter certeza/ O teu lugar aqui na minha mesa/ Tua cadeira ainda está vazia/ Tu és a filha pródiga que volta/ Procurando em minha porta/ O que o mundo não te deu”.

Cannes chegou em 2019 abordando três tônicas centrais: Morte, território, parceria (ou a tal da cumplicidade, chamada de sororidade por muitas bocas). A Morte flana por A vida invisível de Eurídice Gusmão” não como um abutre, mas sim como uma gaivota de papel, daquelas que a gente faz na escola. Já o território (na língua de crítico: o lugar como espaço de afirmação de identidade ou de pertença) transpira no roteiro assinado por Murilo Hauser, em colaboração com Inés Bortagaray e o próprio Karim, como chapa em raio X de um Rio que se estende por Tijuca, Santa Teresa, Estácio e São Cristóvão. Um Rio de Centro, sem centro. Um Rio de octanagem lusitana, cuja imigração raramente é falada em nossos filmes (fora “Morro da Conceição”, de Cristiana Grumbach, e “Portugal… minha saudade”, de Pio Zamuner e Mazzaropi), mas aqui ganha uma varanda para o mar do estudo, do entendimento.

Utilizando uma pantomima do dores, cansaços e perseveranças com confete, tipo a que você, Saraceni, buscava em suas estrelas, em Isabelle, em Ana Maria Nascimento e Silva, em Marília Pêra, e em muitas outras, Carol Duarte e Júlia Stockler dão a Eurídice e a Guida a tridimensionalidade da educação sentimental pela navalha. Guida vem de volta, grávida, e é vetada pelo pai, com a masculinidade tóxica de quem se sente ferido na honra. Eurídice casa com o amor possível, não com o amor sonhado, até porque, este, o coração, pertence a seu piano. Mas esse amor funcional é encarnado com uma doçura singular pelo zé-pereira Gregório Duvivier, bumbo, alaúde e tinteiro de uma poética de enfretamento nestes tempos sem um Alex Polari que nos dê versos de protesto. Gregório escava em Antenor sutilezas de um funcionário público que sonha com pouco, mas ama com muito.

No olhar de Karim, Antenor goza bufando, transa desmedido, sua e fica vermelho. Os homens todos do longa-metragem gozam assim. Guida e Eurídice por vezes dão o gozo a eles sem descompostura, distantes, imersa na inquietação com o lodo do mundo. Com aquilo, Saraceni, que teu Lupicínio chamava de “judiaria”, numa música que cantava assim: “Estas palavras que eu estou lhe falando/ Têm uma verdade pura, nua e crua/ Eu estou lhe mostrando a porta da rua/ Pra que você saia sem eu lhe bater”.

Segundo Lupicínio, “as coisas ficam muito boas quando a gente esquece”. Mas a falta que Eurídice sente de Guida, e Guida de Eurídice, não se esquece. Nem pode: é filme de Karim, um realizador que reflete sobre a memória amorosa em toda a sua obra. Logo depois que você “subiu”, Saraceni, pra pedir “Odoya” à tua mãe Iemanjá, o Karim lançou “Praia do Futuro” (2014). Numa sequência dele, um mergulhador salva-vidas (Wagner Moura) olha para seu namorado alemão, aponta para a cabeça e diz: “Aqui dentro não tem só você não”. Depois toca no peito e diz: “Aqui dentro, não é só você que tá não”. Na cabeça laqueada e no peito de Eurídice cabe um mundo: a filha recém-chegada, a mãe sofrida (“ela é a sombra do meu pai”), o conservatório de Viena e a amiga de útero quebrado (papel que cabe a Maria Manoella, botando o filme no bolso a cada vez que aparece, borrifando carisma e retidão). Na cabeça preocupada com a falta de dinheiro e o peito cheio de leite de Guida, existe toda uma ciranda que roda na bolandeira do verbo “sobreviver”. Fernanda Montenegro vai reinar numa hora crucial do filme para reafirmar esse verbo em seus vértices mais farpados, aqueles que dão tétano. O tétano da consciência pesada ou o tétano da ilusão, assunto que a personagem de Bárbara Santos ilumina.

Mas Guida cabe em um lugar de honra, um lugar irretrocedível, na alma de Eurídice. O mesmo se dá com Eurídice na alma de Guida. Almas que Stockler e Duarte catapultam à condição de personagens memoráveis, que fizeram Cannes chorar na discussão sobre o sexismo, sobre o abandono, sobre a função que o melodrama pode ocupar na polis do audioviosual, entre “almodramas” tipo “Dor e glória” (o novo e gigantesco filme de Almodóvar), entre “This is Us”. Foi escolha de Cannes dedicar o ano ao debate sobre cinema de gênero. O melodrama é um deles. E Karim ventilou novas hipóteses de sinestesia para sua gramática.

Aqui em Cannes ainda tem água para rolar, Saraceni. Mas você iria chorar com esse filme. No Brasil, as coisas com o cinema não andam felizes. Mas filmes como “A vida invisível de Eurídice Gusmão” mostram que a gente não desiste. Aprendemos com você. Saudade. Você faz muita falta.

Rodrigo Fonseca, seu fã, seu entrevistador, seu amigo

Nas cacetadas da vida, o cinema ainda Lupicínio.

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