‘A Última Floresta’ leva Bolognesi à Berlinale

‘A Última Floresta’ leva Bolognesi à Berlinale

Rodrigo Fonseca

10 de fevereiro de 2021 | 11h37

“A Última Floresta”, de Luiz Bolognesi, leva a sabedoria de Davi Kopenawa pra Panorama Dokumente

Rodrigo Fonseca
Depois da série “Os Últimos Dias De Gilda” e da instalação “Se Hace Camino Al Andar”, de Paula Gaitán, mais uma produção brasileira ingressou na seleção da Berlinale 2021, esta na grade do Panorama: “A Última Floresta”, longa-metragem dirigido por Luiz Bolognesi, da animação “Uma História de Amor e Fúria”, sensação do Festival de Annecy em 2013. Este ano, o evento acontece de 1º a 5 de março, e de 9 a 20 de junho de 2021, em formato híbrido – online e presencial, sendo que o hemisfério inicial fechado para negociações do mercado de distribuição. Nesta quarta foram anunciadas algumas atrações das seções paralelas à briga pelo Urso de Ouro, que divulga nesta quinta seus concorrentes – há quem aposte na escolha de “A Viagem de Pedro”, de Laís Bodanzky, com Cauã Reymond, pra concorrer. No verão europeu, o festival europeu vai conferir exercícios investigativos como o de Bolognesi, que assina o roteiro com o escritor Davi Kopenawa Yanomami, xamã e líder yanomami. O filme é produzido pela Gullane (dos irmãos Caio Gullane e Fabiano Gullane) e Buriti Filmes, e tem distribuição da Gullane. A estreia no Brasil está prevista para o segundo semestre deste ano. Sua narrativa deixa transbordar o cotidiano de um grupo Yanomami isolado, que vive em um território ao norte do Brasil e ao sul da Venezuela há cerca de mil anos. Ali Davi Kopenawa busca proteger as tradições de sua comunidade e contá-las para o homem branco que, segundo ele, nunca esforçou-se em vê-los ou ouvi-los. Enquanto Kopenawa tenta manter vivos os espíritos da floresta, ele e os demais indígenas lutam para que a lei seja cumprida e os invasores do garimpo retirados do território legalmente demarcado. Mais de 10 mil garimpeiros ilegais, que invadiram o local em 2020, derrubam a floresta, envenenam os rios e espalham Covid-19 e outras doenças entre os indígenas. Esse clima de alerta alimenta o longa e já alimentava o trabalho anterior de Bolognesi como realizador de .docs, “Ex-Pajé”, laureado com uma menção honrosa na própria Berlim que o acolhe de volta agora.

Ardendo na febre do fundamentalismo religioso cristão, como sinal de alerta para a institucionalização gradual da jihad na sociedade brasileiro, “Ex-Pajé”, documentário de uma beleza plástica perturbadora exibido há três anos na Berlinale, permite-se, em muitos momentos, desgrudar-se da querela etnográfica e do denuncismo ao qual se associa vez por outro para ir ao supermercado. Literalmente. E, às vezes, ir a uma Loteria para acertar o pagamento de uma conta. Por se tratar de um exercício documental de cinema direto, ou seja, sem intervenção da câmera na cena, seria normal a inclusão de ações cotidianas na narrativa engendrada por Bolognesi. Mas há algo de arejado demais nessas digressões propostas pelo filme ao seguir os passos de um ex-sacerdote da tribo Paiter Suruí, na Amazônia, para, a partir dele, mapear a erosão das práticas culturais daquela sociedade. Por proximidade dos credos evangélicos, o tal xamã reformado do título, Perpera, cedeu à Sagrada Escritura e aos desígnios do Filho do Homem. Mas como ele segue comendo inhame do modo como seus antepassados aprenderam, num pré-vestibular do Sagrado, com os deuses da floresta, nem tudo o que a Bíblia diz parece ser o caminho, a verdade e a vida. Daí, indo comprar Café Pilão ou um Jequiti qualquer… ou mesmo indo à Loteca ficar em dia com seus impostos… Perpera bate um papo com espíritos. Às vezes, na rua; às vezes, na beira de um rio. E essa conversa não necessariamente costura pra dentro da linha dramática do filme. Linha esta cerzida como reflexão sobre o desmatamento das ancestralidades, sobre a extinção da memória. As conversas são, às vezes, puros respiros, à imagem e semelhança da Natureza, num grau de arejamento que serve para a elaboração de planos sofisticadíssimos em termos de uso da luz, na alquimia entre as lentes do fotógrafo Pedro J. Márquez e a aquarela de tons de verde da mata local. E Márquez volta a ser parceiro de Bolognesi em “A Última Floresta”.

À época de sua estreia mundial, na Europa, sob os olhos curiosos do Festival de Berlim, um diretor mais conhecido por seu trabalho como roteirista (em “Bingo – O Rei das Manhãs” e “Chega de Saudade”) nos deu mais uma quebra de conduta sociológica, num filme de traqueia larga, autoimaginativo, capaz de driblar convenções e se lançar numa pesquisa de formas. Existe um conceito de dramaturgia na Antropologia da Imagem, derivado dos estudos do historiados americano David Bordwell, chamado de 3º Campo, que é aplicado para filmes cujo cerne é o esgarçamento máximo das fronteiras da imagem, sem submissão a uma ideia de jornada de personagem (cerne do 1º Campo) ou a algum debate social, político ou comportamental (eixo do 2º Campo). Teóricos como o português João Maria Mendes (autor do obrigatório livro “Culturas Narrativas Dominantes”) ou o professor baiano José Carvalho (um dos maiores teóricos de dramaturgia das Américas) usam “Procurando Nemo” (2003) como um exemplo bom do dito primeirocampismo (quando Nemo for achado, encerra-se a jornada e termina o longa); citam O Poderoso Chefão para ilustrar o segundocampismo (não importa se Michael Corleone terá ou não redenção, vale mais o debate que corre a partir dele; e para o tal terceirocampismo, mais recente, oriundo do que Jean-François Lyothard chama de pós-modernidade, teríamos os trabalhos dos anos 1990 e 2000 do galês Peter Greenaway (a partir de “O Livro de Cabeceira”) como referência. Mas existem diretores que trançam o 2º e o 3º campos, mesclando discurso e pesquisa formal radical, como é o cinema dos filipinos Brillante Mendoza e Lav Diaz, na ficção, e também de “Ex-Pajé, que se quer river movie, tapera movie, hipermercado movie, em movimento pleno, sem cabresto. Belo acerto para um cineasta que veio da palavra e escrita e já tinha flertado com o indigenismo em seu épico animado “História de Amor e Fúria”, premiado em Annecy, na França, em 2013. Há, nele, a coragem de querer ser cinema… antes de ser manifesto. De ser os dois. De ser selva e tela. Langue e parole, num P.A. e P.G. saussuriano envolvente.

“Hygiène sociale”, de Denis Côté (Canadá)

Além de “A Última Floresta”, a leva de atrações berlinenses anunciadas neste 10 de fevereiro agita o planisfério cinéfilo com a presença de “Hygiène sociale”, de Denis Côté (Canadá), na mostra Encounters, e com “Genderation”, da brilhante cineasta alemã Monika Treut, na Panorama.

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