‘A Última Chance’, um réquiem pra Paulo Thiago

‘A Última Chance’, um réquiem pra Paulo Thiago

Rodrigo Fonseca

06 de junho de 2021 | 10h10

Rodrigo Fonseca
Indicado ao Urso de Ouro de 1974 com “Sagarana, o Duelo”, após uma consagradora viagem ao Festival de Karlovy Vary com “Senhores da Terra”, o mineiro Paulo Thiago (1945-2021) fez do estudo das imposturas e dos desatinos a matéria de uma obra dividida entre ficções e .docs alinhados com a poesia e com a música. A notícia de sua morte, aos 75 anos, no dia 5 de maio, arrancou do P de Pop um desabafo nas redes sociais, seguido da expectativa de rever seus filmes nas mostras virtuais que hoje se multiplicam (graças aos Céus!) pela web. Escrevemos:
Numa das cenas mais singelas de nosso cinema na década de 00, um maestro amordaçado pelo veto institucional, ameaçado de cancelamento sob uma falsa acusação, esbarra com a alma de seu avô músico, num gesto de transcendência da Vida, num sinal da fantasmagoria saudosa que nos cerca. Era um trabalho de encantamento, apoiado na vontade que o ator Murilo Rosa tinha (e tem) de desbravar fronteiras e surpreender olhares. O diretor por trás disso, por trás do belíssimo “Orquestra dos Meninos” (2008), cantou pra subir e nos deixou, neste sábado, sem pedir licença à carência que hoje nos rói. Paulo Thiago era um cineasta de mais vasta cultura cinéfila, que se arriscou por veredas de gênero e de reflexão sociológica diversas. À luz de nossa perplexidade diante de sua partida, sua cordial (mas sempre crítica) mirada sobre o Brasil há de virar poeira de estrelas. Seu “Águia na Cabeça” (1984) e seu “Jorge, um Brasileiro” (1989) hão de crescer em nosso imaginário, pela fina direção de atores e pela hábil destreza com o neorrealismo em sua cartografia de desastres nacionais. Seu canto de cisne na ficção, “A Última Chance”, exibido no Festival do Rio 2017, é um “Leão Branco, Lutador Sem Lei” à moda suburbana. Gratidão por todas as tentativas e pela eterna resistência, Paulo Thiago. Serena.

Um antigo colega de lutas do diretor, o cineasta Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, escreveu ao Estadão, dizendo:
“Mais culto e profícuo diretor da minha geração, Paulo Thiago deixa algumas pérolas como ‘Policarpo Quaresma’ e ‘Coisa mais linda’. Marcou presença nas lutas do Cinema brasileiro, um dos fundadores da 1a Associação de Cineastas, a ABRACI. Mais um amigo querido que perdemos”.
Há muito para ser dito sobre PT, sobretudo sobre seu “A Última Chance”, exibido no Festival de Montreal, pois há muito a ser visto nele.

Cena de vitória no longa que levou Paulo Thiago ao Festival de Montreal

Dramaturgias esportivas são, em geral, narrativas de redenção, cuja jornada tem como ponto de chegada a vitória (ou a loucura, no caso do precioso Heleno). Porém “vitória” é uma palavra prostituta em “A Última Chance”, um prazeroso exercício de criativo de veteranos talentos do nosso cinema (o diretor Paulo Thiago, fotógrafo Antonio Luiz Mendes) que se apresenta como uma espécie de ensaio poético (de lírica seca) sobre a perseverança. Existem engasgos e derrapadas na edição de certas cenas, sobretudo em algumas sequências de luta, mas nada disso dilui o efeito de imersão que o filme gera, ao desromantizar (ao limite do sufoco) a saga de um campeão de muay thai e ao focar mais (e melhor) numa geopolítica carioca invisível à mídia ficcional. É um filme com ethos de documento sobre a vida sub-urbana, sobre o periférico, o RJ excluído. Nos 45 minutos do segundo tempo do Festival do Rio 2017, o ator Marco Pigossi subiu num ringue para uma luta com o Realismo e extraiu da peleja não apenas uma atuação vívida (a inteligência no uso de seu ferramental cênico é mais atraente do que o tônus trágico de seu personagem), mas também um senso rico de reflexão sobre a exclusão. Seus nocautes só se equiparam ao que a brasa chamada Juliana Lohmann incendeia em cena, compondo uma mulher que desafia convenções arquetípicas. É um frescor ver os dois em cena, como casal, numa trama cujo argumento tem o dedo (e a sabedoria) do escritor Julio Ludemir (de “Lembrancinha do Adeus”).
Uma câmera observadora, seca, abre mão do sépia e do cinza jornalistíscos para se embrenhar por uma Vila Kennedy recriada por Paulo Thiago – numa comunhão de olhares com a fotografia de Antonio Luiz Mendes (que também nos deixou faz pouco) – no registro de ambientes por onde o ex-presidiário e instrutor de lutas marciais Fábio Leão (papel que Pigossi devora) passa numa epopeia de desacertos, crimes e chutes perfeitos. Dono de um histórico de 20 anos de crime, Leão virou bamba do MMA e passou a ensinar muay thai, primeiro para crianças, depois para presos. O filme dá um mergulho no bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro onde ele cresceu com uma lupa fenotípica: algo do abandono social local favoreceu a falha trágica dentro dele que o impele ao crime. A medida dessa falha DELE são as boas almas que o cercam, sobretudo Luciana (Juliana, beirando o tom das mulheres neorrealistas, como a Carmela de “Paisà”), a mãe (Helena Varvaki) e o amigo Bruno (Erom Cordeiro, sempre no ponto certo). Apesar desses dois, ele entra e sai da trilha do mal sempre que sua fraqueza interna e um vetor chamado Pobreza (estamos no realismo, não esqueça) batem à sua porta.

Paulo Thiago dirige Pigossi no set da biopic de Fábio Leão

Em 2015, Leão voltou a ser detido por porte de arma. Mas a prisão foi cercada de controvérsias acerca do passado do lutador. Ele começou com furtos, aos 9 anos, e, aos 17, virou uma liderança do tráfico carioca, envolvido com clonagem de carros. Na prisão, ele muda de vida, convertendo-se a um credo evangélico e iniciando seus treinos para lutar e lecionar, a fim de cuidar da filha com Luciana. O filme não entra em seus delitos de agora. Mas também não fica em seus combates. Não é “Rocky, um Lutador” e, sim, uma discussão sobre como perseverar diante dos próprios erros. Dá pra sentir nos procedimentos cinematográficos de Paulo Thiago a influência de “Rocco e Seus Irmãos” (1960). Pigossi é seu Alain Delon de subúrbio. Seu Renato Salvatori é Jackson Antunes, perfeito no papel de um Papai Noel dos pobres, um político com meios tortos.
Essa influência se nota porque a cinefilia segue o diretor mineiro em seus 50 anos no ofício. “A Última Chance” foi a estreia dele no terreno da violência urbana do Rio, tema que ele sabiamente regurgitou sem os ácidos do filão favela movie. E isso dá a ele um frescor e dá ao filme um azeite de raro sabor. Como vinha de um histórico de diferentes gêneros, indo da crônica policial (o já citado “Águia na Cabeça”) a épicos rurais de unho intimista (caso do memorável “Os Senhores da Terra”), Paulo Thiago encarou o universo à sua frente com liberdade para subverter expectativas. E encontrou em Juliana e em Pigossi parceiros de luta bons de briga. Com eles, gerou uma história sobre um Brasil que pode dar certo. Algo muito bem-vindo. Assim como seria bem-vinda uma revisão de seu apaixonado cinema.

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