‘O Truque da Galinha’ dá aula de naturalismo mágico

‘O Truque da Galinha’ dá aula de naturalismo mágico

Rodrigo Fonseca

29 de junho de 2022 | 11h41

Demyana Nassar é a mãe coragem do longa laureado com o Grand Prix da Semana da Crítica de 2021, em Cannes

RODRIGO FONSECA
Corre pro cinema hoje, se você estiver no Rio de Janeiro, e vai ali no Estação Net Rio, às 14h ou às 21h, um dos mais finos exercícios de reflexão sociológica do cinema contemporâneo: “O Truque da Galinha” (“Feathers”), produção egípcia trazida para cá pela Imovision. Em São Paulo, o primeiro longa-metragem do realizador egípcio Omar El Zohairy, de 34 anos, está no Reserva Cultural, às 13h40; 16h10; e 18h40, e segue até quarta que vem. Sua narrativa de um amaríssimo humor, mesclado a doses fartas de angústias, numa toada de realismo naturalista, conquistou o Prêmio de Melhor Filme (Grand Prix Nespresso) da Semana da Crítica do Festival de Cannes de 2021. Ganhou outros 20 prêmios, entre os quais a láurea da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) também na Croisette, no ano passado. Seu elenco é formado por intérpretes não profissionais, encontrados ruas por El Zohairy, que vem do Cairo. Demyana Nassar é a mais impressionante estrela dessa trupe, no papel da mãe coragem de uma família paupérrima de uma cidade operária do Egito. Sua rotina silenciosa é surpreendida por um acontecimento nas raias do realismo mágico – pelo menos é o que aparenta.

Demyana vive uma personagem cujo nome nunca é dito. Seu marido, vivido por Samy Bassouny, é um sujeito cheio de dívidas que decide ostentar o que tem e o que não tem ao celebrar a festa de aniversário de um de seus filhos. O casal tem duas crianças e um bebê, mesmo correndo sempre o risco de perder seu lar, por inadimplências de aluguel. Em sua ostentação, a festinha inclui a presença de um mágico de circo. O prestidigitador faz um número de mágica usando uma caixa na qual essa figura patriarcal endividada, encarnada por Samy, desaparece. Seu sumiço parece inexplicável, sobretudo pelo fato de, em seu lugar, só sobrar uma galinha. Há quem acredite que o sumido se transformou na ave, numa inexplicável metamorfose. Crendices à parte, o que vai mover o longa é o empenho monumental de sua protagonista (Demyana) para tomar as rédeas da casa e cuidar de tudo, movendo céus e terras para trazer o marido de volta, e garantir a sobrevivência de seus rebentos. A esplendorosa fotografia, que dá um tom de naturalismo ao longa, é assinada por Kamal Samy, sempre ressaltando a aspereza do ambiente. O roteiro, escrito por Ahmed Amer e El Zohairy, investe numa forma amarga de humor, que lembra o cult brasileiro “O Profeta da Fome” (1969), de Maurice Capovilla (1936–2021). Entre os achados da direção está o uso da canção de “Love Story” quando menos se espera.

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