‘A Tropa’: um ensaio sobre culpa, uma peça imperdível

‘A Tropa’: um ensaio sobre culpa, uma peça imperdível

Rodrigo Fonseca

27 Abril 2017 | 08h29

No leito da excelência, Otávio Augusto comanda um ritual de exorcismo de mágoas e cicatrizes em “A Tropa”, no Teatro Sesi (RJ) até 27 de maio

RODRIGO FONSECA
Poucas atuações no teatro brasileiro de encenações mais recentes têm voltagem mais alta do que a Otávio Augusto em A Tropa, um espetáculo devastador, esnobado em premiações e em debates críticos em sua montagem inicial, em 2016, no CCBB, que volta agora ao circuito, nos palcos cariocas, de casa nova, com fôlego para mostrar toda a potência de seu astro e de seu texto. Dirigida por César Augusto a partir do inventário de cicatrizes (muito bem) escrito por Gustavo Pinheiro, a peça inicia nova temporada no Teatro Sesi nesta quinta-feira, dia 27, e fica em cartaz até 27 de maio, sempre às quintas e sextas, às 19h30, e aos sábados, às 19h. Na trama, Otávio dá vida a um militar reformado, viúvo e pai de quatro filhos, que passa em revista sua vida de intolerâncias num confronto entre o riso e a tragédia com seus “meninos. Ele está em um leito de hospital, às portas da Morte, o que justifica a visita de suas crias. O embate familiar evidencia a trajetória de cada cria: Alexandre Menezes vive Humberto, um dentista militar aposentado que mora com o pai; Daniel Marano é João Batista, o caçula, jovem usuário de drogas com passagens por clínicas de reabilitação; Eduardo Fernandes, em atuação excepcional, interpreta Artur, um empresário casado, pai de duas filhas, que trabalha numa empreiteira que está sob investigação por corrupção; e Ernesto, papel dado a Rafael Morpanini, é um jornalista que acaba de pedir demissão de um jornal e está em crise com a profissão. Numa lavação de roupa imunda de rejeição e rancor, Otávio bufa e bafeja como um rinoceronte em fuga, tentando escapar do corredor polonês de interrogação e cobrança de seus rebentos, que passam do pedido de bênção ao ressentimento, com uma virada de espatifar peitos. A iluminação de Adriana Ortiz (econômica, mas vívida) amplia o tom claustrofóbico da encenação.