A tigresa do Vietnã

A tigresa do Vietnã

Rodrigo Fonseca

24 Outubro 2015 | 09h35

Trinh T. Minh-ha 1

Introspectivo em fotos, mas onipresente durante um encontro ao vivo, mesmo nos momentos em que tópicos políticos aquecem a conversa à fervura máxima, o sorriso da vietnamita Trinh T. Minh-ha – diretora cuja obra está sendo exumada e revivificada em uma mostra em cartaz até 1º de novembro na Caixa Cultural, no Rio de Janeiro – jamais se rende ao artificialismo ou ao mau humor, sobrevivendo até a recorrentes pedidos de (auto)definições mais cartesianas. Realizadora de cults como Sobrenome Viet Nome Próprio Nam (1989) ou Um Conto de Amor (1995), a cineasta, nascida em Hanói em 1952, é também poeta e artista visual, o que lhe dá um apresso maior pela relativização do olhar, sobretudo aquele aplicado à forma. Seu cinema é o da fluidez e é sobre essa perspectiva – a da liberdade formal – que ela tentará compartilhar suas reflexões e descobertas estéticas em um bate-papo com o público carioca neste sábado (dia 24), às 16h, em uma masterclass (é imperdível! confiem) na Caixa, ali no Centro. Ela teve um espaço de destaque no Brasil, há dez anos, na mostra Cinema Que Pensa, organizada por Paula Gaitán, Juan Posadas e Eryk Rocha há exatos dez anos, quando teve suas obras projetadas no MAM-RJ. Mas a carreira da realizadora não parou, assim como seus estudos culturais e até antropológicos. Premiada em Sundance, em 1992, por Mire o Conteúdo, Minh-ha reza pelo evangelho da conciliação em suas análises do real, o que a leva a mesclar gestos de ficção a seus dispositivos ficcionais em ensaios narrativos nos quais a beleza é senhora, sobretudo quando o tema é a condição da mulher nesta planeta. Saiba mais e melhor na conversa a seguir:

O quanto o boom das tecnologias digitais facilitaram a condição de documentaristas que, como você, buscam uma poética na experimentação formal?

Trinh T. Minh-ha: É preciso que se relativize essa relação da tecnologia com a expressão artística, porque embora as ferramentas digitais tenham deixado a informação na ponta de nossos dedos, ela não permitiu que capturássemos a realidade em todas as suas dimensões, o que, aliás, é ótimo, por ser libertador. No passado, muitas vezes o documentário foi pensado como algo cuja meta era informar. Vimos com o passar dos anos e a evolução das liberdades, que a poética documental vai muito além disso: ela vai no âmago das complexidades que formam o real. No passado, quando se pensava em disputa colonial e em dominação, em relação ao Vietnã, as pessoas pensavam em conquistas de terras firmes, virgens ou não. Hoje, na nova geopolítica da Ásia, as disputas territoriais são em torno da água: quem domina os rios. Ou seja: a fluidez se estende também à ocupação, à disputa pelo Poder. O mesmo se dá na História: quando eu filmava Sobrenome Viet Nome Próprio Nam (1989), parti de indícios da colonização francesa até chegar no período em que a China tentou nos ocupar e controlar. Antes eram europeus, depois os próprios asiáticos. A cada mergulho que faço em um tema que documento, mais descubro, ou seja: mais incertezas chegam. Não por acaso meu novo filme se chama Forgetting Vietnam (esquecendo o Vietnã), o que ilustra essa importância de relativizar, que é dada pela percepção humana e não pela tecnologia. A tecnologia não é muito maleável quando você tenta mesclar passado e presente: pois ela tende a pasteurizar tudo pelo alinhamento da imagem e não pela sensorialidade do Tempo.   

Existe uma geração, aquela alfabetizada pela Hollywood dos anos 1980 e 90, que aprendeu a ver o Vietnã como um celeiro do Mal, a ser redimido por Rambos e Braddocks. Para gerações mais à esquerda, alfabetizadas pelo cinema autoral dos anos 1960 e 70, o Vietnã é uma terra que vislumbrou a revolução ao desafiar o capitalismo e peitar os EUA. Qual é o seu Vietnã?  

Trinh T. Minh-ha: É aquele que aprendeu a entender o colonialismo como uma condição que não se apaga. Não existe o pós-colonialismo na prática, pois as relações patriarcais inerentes às dominações a que fomos submetidos ainda são um lastro em nossa sociedade, embora ela esteja em mudança. Isso não é algo ruim. É algo a ser compreendido e pensado. O que chamam de pós eu “chamo de sempre”. Veja na própria economia: hoje as pessoas olham a China como uma potência, inclusive no cinema. O que há de mais significativo nisso não é o fato de uma nação hoje estar na dianteira econômica do mundo. O mais importante é que esta nação é asiática e, portanto, isso é um indício de que a Europa e os EUA não detêm mais o protagonismo nas decisões do Mercado. Sob um certo prisma, há uma manutenção do colonialismo quando se avalia a hegemonia que a China terá em relação aos demais territórios asiáticos. Por outro, pode haver uma mirada mais libertadora: quem hoje será o provedor das novidades e até das decisões do planeta será a Ásia. Tudo depende do olhar.

Mas de que maneira essa relativização que você pratica no âmbito da política e mesmo da estética se aplica na prática de filmar?

Trinh T. Minh-ha: Talvez pela minha experiência como poeta, eu entenda o cinema como uma mistura de imagem, palavra e música. Tudo o que os pensadores da linguagem falam sobre a excelência da imagem eu estendo ao som, à musicalidade, e à palavra, seja ela escrita em cartelas ou dita em um diálogos. Para mim são componentes que têm uma independência interna. Eu entendo como se fossem três trilhas distintas aproximadas por um mesmo raciocínio estético. Essa independência é parte da minha percepção sobre dominação: na arte, se você não administra com equilíbrio cada integrante de um discurso estético, um deles se superpõe e ofusca os outros. Basta pensam numa pintura ou numa fotografia colorida: nelas, o uso da cor depende de critérios de temperatura. Se você pegar uma das cores primárias e a coloca em relação às outras, sem um tratamento, ela vai chamar mais atenção e até tirar o sentido das demais. É preciso dar às cores valores iguais. O mesmo vale para som, imagem e palavra na ação de um filme. É como água e terra. Se você erra na dose na mistura, o barro que se forma endurece ou fica úmido demais, incapaz de gerar uma forma.

Trinh T. Minh-ha 13

Neste ano em que o filme brasileiro de maior destaque, Que Horas Ela Volta?, foi dirigido por uma mulher (Anna Muylaert), comentou-se muito sobre a mudança da condição feminina na direção de longas-metragens. Não por acaso, os festivais de Berlim e de Cannes foram abertos em 2015 por filmes dirigidos por Isabel Coixet e Emmanuelle Bercot. Essa suposta mudança no papel da mulher no cinema, por trás das telas, mudou (de fato) a representação feminina nos filmes?

Trinh T. Minh-ha: Não é uma resposta a ser dada no plural, pois representação é um exercício de contribuições individuais: cada diretor ou diretora dará a sua. O número de oportunidades profissionais a nós, mulheres, hoje é mais alto, mas a discussão do feminino não se reduz a isso, nem se atém a números. É necessário perguntar se a inquietação também cresceu no que tange a maneira como a mulher é vista. E isso só responde com uma análise de filme a filme. No passado, quando alguém retratava a nudez feminina num filme, isso chegou a ser considerado opressor. Hoje, há jovens diretoras e mesmo artistas visuais em várias partes do mundo que acha de uma beleza obrigatório expor a nudez. Algumas expõe seus próprios corpos. E, neste caso, mais do que um exercício de vontade individual, há a força da corporalidade: é pelo corpo que as lutas são feitas; é pelo corpo que passam todas as mudanças. Contribuições existem mesmo na ficção que hoje, ao oferecer às mulheres chances de filmar, começa a esgarçar as barreiras da dominação masculina.

Confira no cronograma a seguir o que a mostra ainda revela sobre essa rosa asiática com fúria de tigresa:

24 de outubro (sábado)

15h – Remontagem (1982), Trinh T. Minh-ha, 40 min, EUA, 14 anos.

16h – Cinema 2 –  Master class com a diretora Trinh T. Minh-ha. Duração: 2h

18h30 – Espaços descobertos: viver é circular (1985), Trinh T. Minh-ha, 135 min, EUA, 14 anos. Sessão apresentada pela diretora Trinh T. Minh-ha.

 

25 de outubro (domingo)

16h – Cinema 2 –  Master class com a diretora Trinh T. Minh-ha. Duração: 2h

18h30 – Um conto de amor (1995), Trinh T. Minh-ha, 108 min, EUA, 14 anos.

 

27 de outubro (terça-feira)

18h30 – Mire o conteúdo (1991), Trinh T. Minh-ha, 102 min, EUA, 14 anos.

Sessão comentada por Gustavo Soranz.

 

28 de outubro (quarta-feira)

19h – Remontagem (1982), Trinh T. Minh-ha, 40 min, EUA, 14 anos

20h – Sessão de curtas/video-instalações,  49 min.

O deserto a assistir (2003), Trinh T. Minh-ha, 11 min, EUA, 14 anos.

Corpos do deserto (2005), Trinh T. Minh-ha, 19 min, EUA, 14 anos.

Velha terra novas águas – partes 1 e 2 (2007), Trinh T. Minh-ha, 18 min, EUA, 14 anos.

 

29 de outubro (quinta-feira)

19h – Um conto de amor (1995), Trinh T. Minh-ha, 108 min, EUA, 14 anos.

 

 

30 de outubro (sexta-feira)

18h30 – Passagem noturna (2004), Trinh T. Minh-ha, 98 min, EUA, 14 anos.

Sessão comentada por Ewerton Belico

 

31 de outubro (sábado)

15h Sobrenome Viet nome próprio Nam (1989), Trinh T. Minh-ha, 108 min, EUA, 14 anos.

17h – Cinema 2 – Mesa redonda: O cinema de Trinh T. Minh-ha

Com Ilana Feldman, Rose Satiko, Carla Maia e Luís Felipe Flores

19h30 – A quarta dimensão (2001), Trinh T. Minh-ha, 87 min, EUA, 14 anos.

 

1º de novembro (domingo)

15h – Mire o conteúdo (Shoot for the contents, 1991, 102 min, 16mm) , EUA, 14 anos.

17h – Espaços descobertos: viver é circular (Naked spaces: living is round, 1985, 135 min, 16mm) , EUA, 14 anos. Sessão comentada por Pedro Veras.