A temperatura é sempre máxima com Paul Rudd

A temperatura é sempre máxima com Paul Rudd

Rodrigo Fonseca

21 de junho de 2020 | 11h01

Rodrigo Fonseca
Se você nunca leu um gibi Marvel na vida, o título “Homem-Formiga” pode soar como convite a uma chanchada, mas não é. Trata-se de uma franquia de azeitada mistura entre riso e adrenalina que oxigenou as narrativas de super-heróis consagrando Paul Rudd como um dos mais carismáticos talentos de Hollywood na atualidade. E é dia desse oxigênio pop arejar a grade da TV aberta, na Globo, às 13h50. Com uma bilheteria internacional estimada em US$ 519 milhões, “Ant-Man” (no original) pegou carona na verve cômica aberta por “Guardiões da Galáxia”, que, em 2014, teve uma rentabilidade mundial de US$ 774,1 milhões. Seu êxito comercial ampliou o prestígio do cineasta Peyton Reed em sua passagem do riso à ação na criação de um filme de aventura sobre laços de família. Mais do que isso, não se pode deixar de celebrar o engenho de Rudd no esforço de se reinventar como intérprete, alcançando a atuação mais inspirada de uma carreira lapidada em suas parcerias com o diretor Judd Apatow.
Estabelecido como um cineasta de estilo singular com “Abaixo o amor”, em 2003, Reed deu indícios de autoria em longas-metragens como “Sim, senhor” (2008) e “Separados pelo casamento” (2006) ao se habilitar à tarefa de fazer crônicas sobre conciliações afetivas. Ele traz esse estilo para o Universo Marvel ao adotar como objeto de estudo a rotina de um pai em busca de se conciliar com a filha pequena de que teve de se afastar por conta de sua conexão com o crime, ainda que como bom ladrão. Scott Lang, o herói encarnado por Rudd sob um capacete de feições insectoides, é, antes de ser um justiceiro urbano, um cavaleiro da paternidade, desesperado por fazer de seu abraço um abrigo para a menininha que gerou antes de ir para o cárcere. A meta de ser um bom genitor vai guiar suas ações e dar ao filme um açúcar que os demais exemplares do cinema “marvete” não têm. Mas esse tempero de doçura não aleija o cuidado de Reed com o riso, pontuado mesmo os momentos de maior adrenalina de deixas cômicas. O equilíbrio de diferentes cartilhas de gênero é o atestado da maturidade de Reed como realizador.

Na cozinha de diferentes elementos cinematográficos e de uma mitologia quadrinística mais jocosas, o cineasta constrói um filme B, na melhor tradição de Roger Corman ou mesmo do George Miller de “Mad Max”. Gravita pela caricatura por opção, mas humaniza o que poderia ser um retrato bidimensional das relações interpessoais e das narrativas de violência. Na humanização de seus personagens, que crescem no bate-bola com Rudd, “Homem-Formiga” ganha uma geometria tridimensional e se aprofunda nos dramas.

Na trama, Lang é tirado da cadeia pelo cientista Hank Pym (Michael Douglas, sempre carismático) com o intuito de roubar um traje experimental chamado Jaqueta Amarela, capaz de reduzir seu usuário a proporções de inseto. Trata-se de um invento transformado em aparato militar por um cientista de sanidade fraturada: Darren Cross, interpretado pelo astro revelação de “House of Cards” Corey Stoll. Ele é o ponto fraco do filme, pois atua com uma histeria que se destoa de seus pares. Contudo, os excessos de canastrice do vilão são filtrados sempre que Rudd está em cena, em especial em seu duo com a atriz Evangeline Lilly, que vive Janet, a futura Vespa. Aqui, a química entre ela e PR se mostram invisíveis em sequências de pura cinemática como a disputa num trem de brinquedo, que fica para a história do audiovisual como o momento antológico do longa em termos de domínio da imagem. Em 2018, o longa teve uma sequência igualmente frenética, que faturou US$ 622 milhões.
Na versão brasileira, Angélica Santos dubla Evangeline e Márcio Araújo dá voz a Rudd.

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