A sombra autoral de Philippe Garrel, o semiólogo do amor

A sombra autoral de Philippe Garrel, o semiólogo do amor

Rodrigo Fonseca

12 Maio 2017 | 12h10

“À Sombra de Duas Mulheres” desafia o machismo e tinge, a branco e preto, as tensões do discurso amoroso

RODRIGO FONSECA
Em meio à munição pesada que a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes de 2017 reservou para si, a fim de rivalizar atenções com a briga pela Palma de Ouro, este ano em que o evento vai de 17 a 28 de maio, tem um título quentinho do semiólogo do amor, Philippe Garrel: a ciranda L’Amant d’un Jour. No momento em que esta trama sobre um sujeito dividido entre o querer pela filha e o querer pela namorada, ambas de 23 anos, um dos melhores filmes do realizador francês vai estar trilhando uma estratégia para chegar aos cinemas brasileiros: À Sombra de Duas Mulheres (L’Ombre des Femmes). É o melhor longa-metragem dele desde a obra-prima Amantes Constantes (2005). E tem estreia prevista aqui para 15 de junho.

Embalado na trilha sonora de Jean-Louis Aubert e na narração de Louis Garrel (o filho e muso de Philippe), L’Ombre Des Femmes é um triângulo amoroso que atomiza o machismo ao levantar uma bandeira de equalização na libido dos homens e das mulheres. Na visão do diretor, ambos os sexos têm fome (e direitos) para desejar com quantidade e qualidade, apesar de a moral ocidental propor que só o macho da espécie tem licença para o cogito anticartesiano “Cobiço, logo existo”. Fruto tardio da Nouvelle Vague, surgido na esteira das experiências de Godard, Chabrol, Truffaut e cia., Garrel, nascido em Paris a 6 de abril de 1948, comanda aqui uma trupe de peso: Clotilde Courau, Stanislas Merhar e (a deusa) Lena Paugam -, que refletem sobre afeto ao longo de 73 minutos enxutos minutos, cravados na precisão de um roteiro com a prosódia cinéfila de Jean-Claude Carrière (O Discreto Charme da Burguesia). Ele é coautor de script com Garrel, Arlette Langmann e Caroline Deruas.

Garrel em ação nos bastidores

Na trama, o documentarista Pierre (Stanislas, numa atuação impecável) leva uma vida de tropeços financeiros ao lado da mulher, Manon (Clotilde), a quem já amou loucamente, mas que, hoje, virou mais uma parceira profissional. Ela é assistente e roteirista de seus docs, em especial um sobre um velhinho que participou da Resistência Francesa durante a ocupação do país pelos nazistas na Segunda Guerra. Tudo caminha na mesmice para Manon e Pierre até que ele conhece uma estagiária de um arquivo de filmes, Elizabeth (Lena Paugam, com feições modiglianescas). Ali, tudo muda, pois Pierre não resiste ao abrir de pernas de Elizabeth, que, de transa em transa, vira mais do que um objeto sexual.

Cega de afeto pelo amante, ciente do casamento dele, Elizabeth passa a segui-lo para saber quem é Manon e, numa de suas espionadas, descobre que esta também vive um romance extraconjugal. A tentação de revelar a verdade a Pierre conduz L’Ombre Des Femmes por caminhos tortuosos de dramaturgia, promovendo um (psic)análise da fragilidade dos machos do Ocidente, como é de costume ao diretor. Aliás, Garrel é famoso por andar pelas ruas de Paris carregando um exemplar das obras completas de Freud nas mãos, quase sempre o que traz o texto Totem e Tabu.

 

Mesmo nos momentos mais intelectualizados, nos quais o diretor assume fades como parte da narrativa, para provocar distanciamento crítico na plateia, L’Ombre Des Femmes não perde seu lado lírico nem abandona sua crença no amor romântico. Para Garrel, no auge de seus 69 anos, essa doçura parece algo atípico. É recente sua gravitação por terrenos menos políticos e mais existenciais, como se vê desde o subestimado A Fronteira da Alvorada, que saiu vaiado de Cannes em 2008. Mas há nessa mudança um frescor que sublinha seu estilo (marcado pela hegemonia do plano-sequência, por falação sem fim com a câmera á altura do ombro dos personagens e por diálogos sobre o supérfluo) mas mostra uma vontade de renovação pela imagem de uma França jovem, meio perdida, porém apaixonada e apaixonante.