A sociedade do poeta Robin Williams

A sociedade do poeta Robin Williams

Rodrigo Fonseca

11 de abril de 2020 | 09h54

Rodrigo Fonseca
Em busca da risada perdida, abalada ou obliterada, nestes dias de 40ena, a família de Robin Williams (1951-2014) colocou no ar um canal no youtube com o melhor do ator (https://www.youtube.com/watch?v=b3InDzB0vKE&feature=youtu.be), a fim de assegurar alegria a seus fãs. A seleção de situações cômicas estreladas pelo genial astro resgatam momentos lúdicos, entre eles a estreia de “Sociedade dos Poetas Mortos”, que está completando 30 anos de Brasil. A lembrança do filme evoca uma prática pedagógica rara no ensino na cidade do Rio de Janeiro.
Nos idos de 1990, um professor de Literatura (ainda em atividade) no RJ, chamado Márcio Maia, tinha um método muito singular de docência, entre seus estudantes de uma escola de ensino médio de subúrbio, na Zona Norte carioca: nada de Guimarães Rosa, de José de Alencar, de Joaquim Manuel de Macedo, do cospe-giz machadiano habitual. Mestre Márcio mandava que lessem poemas de Anacreonte, “Édipo Rei” e “Hamlet”: “Estes são os pilares da formação narrativa ocidental. Sem entender eles, vocês não vão entender nada”, dizia o professor, amparado por um conselho habitual. “Você pertencem à periferia do consumo em uma cidade de corte, um feudo… Caso vocês queiram cultura, precisam sair da zona de conforto e ir atrás dela. A cultura é uma moça dengosa, a ser cortejada”. Em sua aplicação de conceitos didáticos, ele fazia um diálogo com Paulo Freire ao combinar meio e mensagem, figura e fundo: a pobreza e a violência da Penha de 1994 a 1996 não era compatível com qualquer elucubração romântica de Lucíolas ou Aurélia Camargo. A Moreninha, à época, era uma presa fácil para o feminicídio das guerras do CV e para o tarado do bairro. Era necessário uma outra pólis, ainda que fosse a dos gregos, com sua aposta na coragem, na temperança e na sabedoria. Para isso, MM se apoiava em um par de filmes. Utilizava “Em Algum Lugar do Passado” (1980), de Jeannot Szwarc, para explicar o conceito de evasão no Tempo do romantismo. Utilizava “Sociedade dos Poetas Mortos” (1990) como seu parâmetro para dar o conceito de “aproveite o dia” na poesia do romano Horácio e em sua aplicação entre os árcades. Da turma de Márcio, dos anos 1990, saíram juristas, estatísticos, matemáticas com dissertações de impacto fractal, administradores, fisioterapeutas, educadores, chefs e até um crítico de cinema. Foi uma experiência singular de imersão na prosa e em poemas que desafiavam o lugar comum do ensino. Não era uma pedagogia de algibeira e sim uma experiências de descontrução, da qual ninguém esqueceu Gregório de Mattos e suas artimanhas de “pica-flor”. Márcio foi a Páscoa para uma geração em quaresma de ideais. Foi o verso alexandrino de uma rima engasgada. Uma percepção de que não se atira pérolas a porcos, mas se convida cães a caçar osso. E que ossos apetitosos eles (nos) deu.
Voltando a Williams, no canal há uma memorável improvisação dele sobre paternidade.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: