A simbiose dos Pitt, o sexo de Spike Lee, o panetone de Sofia Coppola e o nocaute de Stallone

A simbiose dos Pitt, o sexo de Spike Lee, o panetone de Sofia Coppola e o nocaute de Stallone

Rodrigo Fonseca

04 de dezembro de 2015 | 01h09

Produção de US$ 10 milhões, rodada em Malta,

Produção de US$ 10 milhões, rodada em Malta, “À Beira Mar” se escora entre deslizes e acertos, sobretudo a trilha sonora e o talento amadurecido de Brad Pitt

Regada a gim, vinho branco, uísque, leite fresco e um coquetel sonoro de Serge Gainsbourg, Charles Aznavour e Harry Nilsson, À Beira Mar (By The Sea), produção de US$ 10 milhões idealizada para fazer Angelina Jolie Pitt passar ao primeiro time de realizadores do cinema internacional, afogou-se nas águas da indiferença popular e acabou devorada pelos tubarões de uma crítica avessa a veleidades autorais de astros de alto quilate. Há, de fato, sinais de raquitismo na dramaturgia escrita pela própria atriz e diretora, por uma opção em prometer demais e oferecer de menos, apostando num coeficiente trágico que raro sai do zero. E há também cenas constrangedoras de Jolie como intérprete de uma ex-bailaria em coma existencial: cindida entre caretas e bocas (carnudas). Mas basta um pouco de generosidade – e confiança num projeto estético que vem engatinhando desde Na Terra de Amor e Ódio (2012), primeiro longa de ficção da moça à direção – para deixarmos as qualidades do filme saltarem a nossos olhos, a começar pela trilha sonora de Gabriel Yared. De dor indisfarçável, a música do oscarizado compositor de O Paciente Inglês (1997) traz à tona todo o engasgo que tira o ar do casal Roland e Vanessa, assolados por um impasse mantido em segredo até os 15 minutos finais. Os murmúrios regidos pelo libanês Yared se casam com comunhão total de bens com a fotografia do austríaco Christian Berger, obturador-assinatura do mestre Michael Haneke. Berger aqui se vê embevecido com o esplendor paisagístico da geografia de Malta – mesma locação na qual Robert Altman filmou Popeye (1980). Mas sua lente vai e vem numa aeróbica de movimentos curtos (entre planos médios e closes) em busca das gretas onde o Sol não bate e a Lua não estala seus beijos de luz. Berger quer a escuridão da morena anoréxica e do louro borracho que estão a buscar uma reconciliação num paraíso litorâneo. E, em seu esforço para flagrar o desmanche da beleza (e da utopia de felicidade a dois), o fotógrafo encontra um Brad Pitt no auge da forma estética, desfolhando sua pele de galã para deixar brotar algo mais denso. No registro da esposa e parceira (desde Sr. & Sra. Smith), Pitt deixa todas as tristezas desta vida em primeiro plano, tornando este drama obrigatório.  

https://www.youtube.com/watch?v=WvCwtQPBhDA

p.s.: Odiado pelos fãs de Clint Eastwood e Quentin Tarantino pelas asneiras que falou contra esses dois mestres da direção, defenestrado pela indústria de exibição por conta dos fracassos acumulados desde O Milagre em St. Anna (2008), Shelton Jackson “Spike” Lee deu um jeito de se reinventar, com o apoio ($) da Amazon TV, à frente do musical Chi-Raq. Em cartaz a partir de amanhã nos EUA, seu novo longa-metragem é uma versão black power de Lysistrata, de Aristófanes, narrando, com um bom humor em acidez máxima, uma greve de sexo entre mulheres de Chicago. A meta delas é parar com a violência das gangues. Teyonah Parris é a Lysistrata pós-moderna num projeto que resgata Wesley Snipes e Ângela Bassett, tendo Samuel L. Jackson como um coro à grega de um homem só e John Cusack de pastor.

https://www.youtube.com/watch?v=yoDAS8XbAek

p.s.2: Já viu Chatô – O Rei do Brasil, que ganhou o troféu APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor direção na quinta? Então corre e confere o que Guilherme Fontes fez ao narrar a vida do midas da comunicação de massas neste país, apoiado na fotografia mais inspirada da carreira de José Roberto Eliezer.

p.s.3: A Mythos cobra uma fortuna inexplicável por cada gibi que edita, mas mandou bonito ao pintar em capa duro e colorido fino o álbum O Sombra 2, resgatando o herói radiofônico criado por Walter B. Gibson em 1930. O roteiro é de Aaron Gischler.

p.s.4: Se liga no Ho!Ho!Ho! de Sofia Coppola: o NetFlix lança nesta sexta-feira o especial de Natal da cineasta, A Very Murray Christmas, com seu xodó Bill, Chris Rock, Amy Poehler e George Clooney. Graça certa com o astro de Encontros e Desencontros (2003) fazendo metalinguagem de si mesmo.

https://www.youtube.com/watch?v=XJP3db3R014

p.s.5: Sylvester Stallone ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante do National Film Board por Creed: Nascido para Lutar, que estreia aqui em 7 de janeiro. Parece que o resultado vai se repetir na votação das associações de críticos de Washington DC (sai no sábado) e nas de Los Angeles e de Boston (agendadas para sábado). Sly aparece ainda no topo da lista de indicados de supporting role do Satellite Award. É sinal de que o mundo ainda tem esperança de felicidade. E hoje, no anúncio dos preferidos da crítica de Nova York, venceu Carol, de Todd Haynes, nas categorias filme, diretor, roteiro e fotografia, o que coroa uma love story delicada, em combate ao preconceito, com Rooney Mara e Cate Blanchett nos braços da excelência.

Creed Coogler

 

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