A Serviço Secreto de cifras milionárias

A Serviço Secreto de cifras milionárias

Rodrigo Fonseca

12 de novembro de 2019 | 12h08

RODRIGO FONSECA
Em luta contra o inimigo nº 1 do cinema de ação (e não só dele) – a correção política – e em peleja contra a concorrência feroz dos cinemas de super-herói e as aventuras Disney, o diretor Ric Roman Waugh, um veterano dublê e cineasta californiano de 51 anos, apostou em dramas como o envelhecimento e a atomização familiar para transformar “Invasão ao Serviço Secreto” em um sucesso que Hollywood não esperava. Sucesso que estreia nesta quinta no Brasil, após ter faturado US$ 130 milhões mundo. Orçada em US$ 40 milhões, a feérica produção batizada originalmente de “Angel Has Fallen”, é a terceira parte de uma franquia inaugurada em 2013, cujo faturamento beira US$ 1 bilhão, apoiada no carisma (nem sempre infalível) do cinquentão escocês Gerard Butler, o Rei Leônidas de “300” (2007). Ele repete (de modo glorioso) o papel do agente Mike Banning, antes envolvido com terroristas na alta cúpula do Poder dos EUA (em “Invasão à Casa Branca”, lançado há seis anos) e com antipatizantes do presidente americano na Inglaterra (“Invasão a Londres, de 2016). Agora, Banning é convocado pelo líder dos Estados Unidos (Morgan Freeman) para comandar a Segurança de sua pátria. Mas um atentado feito com drones (numa sequência regada a adrenalina e bom gosto) deixa a vida do estadista por um fio e acaba com a reputação de Banning, que passa a ser considerado um traidor. A fim de provar sua inocência, ele foge e sai atrás dos culpados, contando com a ajuda de um ermitão violento: o Sr. Clay, pai com quem ele não falava há anos. O papel coube a Nick Nolte.

Sob o impacto de uma narrativa febril, que valoriza afetos na mesma medida em que arranca nosso fôlego, o P de Pop aqui do Estadão conversou com Waugh por telefone. Realizador de joias como o thriller “Sem perdão” (2017), com Nikolaj Coster-Waldau, e o .doc “That Which I Love Destroys Me” (2015), ele executou cenas de alta periculosidade em “Eles vivem” (1988) e “O Vingador do Futuro” (1990), como dublê. Na entrevista a seguir, ele fala sobre o que espera das veredas da brutalidade na ficção.

Qual é o diferencial de “Invasão ao Serviço Secreto” em relação ao cinema de ação que se faz hoje em Hollywood e em outras cinematografias?
Ric Roman Waugh:
A vontade de fugir do voyeurismo. Historicamente, o gênero caminhou para uma natureza de espetáculo sádica, onde a poética passou a se limitar ao testemunho da destruição. Aqui, não. Aqui existe a busca por um conflito humano mais complexo, que vai além da violência, e passa pelo envelhecimento, pela solidão, pela necessidade de pedir ajuda. Queríamos um mortal, não um deus. Um mortal que foi treinado para ser um leão e acabou viciado nessa condição de guerreiro, que, agora, pode ser arrancada dele.
Mas de onde vem o movimento estético que gera essa mudança de paradigma que você propõe?
Ric Roman Waugh:
Se você observar a fase Daniel Craig na franquia 007, vai notar algo de novo em relação à tradição, um esforço em tirar James Bond do terreno exclusivista da peripécia a fim de analisar sua figura sob um prisma mais humano, de fragilidades, de conflitos internos.
Esse traço humanista no seu olhar autoral de diretor já aparecia em “Felon” (2008), que foi o atestado do seu amadurecimento como realizador. Mas de que forma a retidão dada a Mike Banning pela interpretação de Gerard Butler moldou-se a essa sua investigação sobre a fragilidade dos heróis?
Ric Roman Waugh:
Além de responder de imediato a tudo o que a cena exige, de maneira quase instintiva, sempre solícita, Gerard tinha também esse desejo de desconstruir o ethos clássico do heroísmo e reinventar essa representação de alguma forma. Essa forma, aqui, na terceira parte de uma franquia já estabelecida era abrir um debate acerca do custo que nossos defensores, ou seja, as pessoas que se imolam para proteger nossos países, pagam em nome do dever. A saída aqui, como dramaturgia, foi arranhar a ideia do mito de formação e fazer uma investigação de onde Banning vem, onde criou seu ímpeto guerreiro. E um caminho foi dialogar com a inspiração dos thriller americanos dos anos 1970.
Daí o convite a Nick Nolte, um dos pilares aquela época?
Ric Roman Waugh:
Nick é um gigante, capaz de tornar ainda mais encantador, num filme mais pautado pelo drama do que pelo combate, um reencontro entre pai e filho. No olhar de Mike, o velho Banning enxerga seus traumas. São dois homens de guerra que se olham e se ajudam.
Em que ponto sua experiência prévia como dublê favorece a construção de uma narrativa como a de “Angel Has Fallen”?
Ric Roman Waugh:
Ter sido dublê faz com que eu entenda de maneira íntima o risco que um astro de ação representa nas telas. Mas há algo mais… algo técnico. Fazendo filme desse filão, eu aprendi que o componente central para o thriller é o som. É nos efeitos sonoros que as sensações de perigo se dimensionam na percepção do espectador.

Tendências: