A Sbørnia de ‘Tangos e Tragédias’ volta ao palco

A Sbørnia de ‘Tangos e Tragédias’ volta ao palco

Rodrigo Fonseca

02 de janeiro de 2022 | 11h09

Hique Gomez revive o violonista Kraunus

RODRIGO FONSECA
Fenômeno popular do teatro brasileiro, com cerca de 1,5 milhões de espectadores em uma trajetória iniciada no Rio Grande do Sul, em 1984, e interrompida em 2014, a peça & show “Tangos e Tragédias” imortalizou versos como “Ana Cristina eu não gosto de você / Tô amando loucamente / a tua mãe / Foi de manhã / Eu fui tomar café / Apareceu a veia / Sabe como é”. Trovadores, Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky arrancaram sorrisos de legiões de fãs, com direito a uma passagem pelos cinemas em 2013, na forma de um longa de animação de Otto Guerra e Ennio Torresan: “Até Que a Sbørnia Nos Separe”. Foi assim até 2014, quando Nico perdeu sua batalha contra a leucemia e partir, sem pedir licença à saudade da gente. Mas é hora de honrar o legado dele e manter vivo o país de mentirinha criado por eles: de 13 a 15 de janeiro, Porto Alegre recebe, no Teatro Bourbon (Avenida Túlio de Rose, 80), uma curtíssima (porém imperdível) temporada de “A Sbørnia Kontr´Atracka”. O espetáculo traz, no título, o nome da peculiar nação inventada por Nico e Hique, de onde vinham seus respectivos personagens: o maestro Pletskaya e o violinista Kraunus. Este entrava em cena sempre faminto e intrigado com os sumiços de seus sanduíches nas cidades onde se apresentavam, cobrando fanatismo da plateia.
“O acordeon do Nico Nicolaiewsky sempre foi um link entre folclores Sbørnia-RS. O Copérnico, a dança da Sbørnia, é, na verdade, um vanerão. Isso permanece. Mais do que isso, no último espetáculo tivemos a participação de Renato Borghetti, o Borghetinho. Temos um concerto juntos com orquestra e vamos registrá-lo neste ano em que Porto Alegre completa seus 250 anos. Acredito que o folclore da Sbørnia está interpenetrado com o folclore gauchesco. Não só com o regional mas, também, com o folclore afro-brasileiro, rico e abundante. É o que chamo de HiperPampa. Dois sambas reverenciando o Theatro São Pedro, em seus 163anos, foram apresentados no último espetáculo, que, na verdade, foi o primeiro pós pandemia, marcando a volta de nossas atividades, ao ar livre”, explica Hique, falando como se fosse Kraunus. “Em nossa webssérie, premiada no Rio Web Fest e selecionada para o Festival de Montreal, nós temos um momento com um gaiteiro do fundo da grota de verdade. Compusemos um Bugiu, ritmo local, contando a história de um macaco abduzido, atingido por raios alienígenas que, ao voltar, funda o sindicato do Bugiu e se candidata a presidente”.

Parcticipação espiritual de Nico Nicolaiewsky em cena

Há 20 anos, Hique protagonizou um dos mais brilhantes filmes da história do cinema gaúcho (território que nos deu “Ilha das Flores”, “Verdes Anos” e outras joias): “Festa de Margarette”, de Renato Falcão, exibido no Festival de Tribeca, em Nova York. Em paralelo à sua carreira nas telonas, o ator e músico manteve “Tangos e Tragédias” a rodar pelo Brasil e pelo mundo. Passeou por Buenos Aires, Montevidéu, Quito, Lisboa e San Sebastian, na Espanha. Por onde foram, narravam o fato de que o maior patrimônio da Sbørnia é a Recykla Gran Rechebuchyn, a Grande Lixeira Cultural de onde são extraídos e reciclados os dejetos artísticos esquecidos por outras nações. Seu regime político é o Anarquismo Hiperbølico, o que faz com que todos os seus governos sejam provisórios. A religião oficial do país é o Votørantismo, pois os sbørnianos são radicalmente sonhadores e precisam muito acreditar no concreto. O esporte nacional é o Machadobol, mas não existem ídolos como os jogadores de futebol brasileiros, pois é muito raro que algum atleta sobreviva por mais de três partidas.
“Agora, nessa volta, com ‘A Sbørnia Kontr´Atracka’, Simone Rasslan encarna Nabiha Nabaha. Excelente Pianista e maestrina, ela é formada pela Libertók Universitik de Musik da Sbørnia. Simone foi parte do espetáculo dirigido por mim, que esteve em cartaz por nove anos, chamado ‘Rádio Esmeralda’, que nasceu dentro do ‘Tangos e Tragédias’. Temos também o Professor Ubaldo Kanflutz, papel de Cláudio Levitan. Ele é o reitor das Universidades de Ciências Fictícias. Trabalha como compositor junto conosco desde o início. Para teres uma ideia, quando nos perguntavam quais eram as referências para termos chegado a isso que fizemos, eu falava em Charles Chaplin e Nico falava: Cláudio Levitan!!!”, diz Hique. “Juntaram-se a nós também Tales Melati, o professor MenTales. Tocador de Gaita de Foles, aprofundando o folclore Sbørniano. E Gabriela Castro nosso Pierrot Lunaire, que dá um show incrível de tap dance em dois momentos, incluindo um onde simulamos o som da Unidos da Kapunga, primeira Escola de Samba Sbørniana. Janczura o Bumbeiro que já era parte da Grande Orchestra da Sbørnia permanece conosco, turbinando seu bumbo hiperbólico com loops disparados em um Mac. E temos o Jungst Korhal Sbørniani. É o Coro Jovem da Sbørnia”.
Que “A Sbørnia Kontr´Atracka” marque época como “Tangos e Tragédias” marcou.

p.s.: Tem “Matrix” (1999) esta madrugada na Globo, 0h45, de carona na volta de Neo aos cinemas. Reynaldo Buzzoni dubla Keanu Reeves.

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