A saudade de Mário Carneiro ilumina Brasília

A saudade de Mário Carneiro ilumina Brasília

Rodrigo Fonseca

18 de dezembro de 2020 | 13h08

Na primeira pessoa, Mário Carneiro (1930-2007) pinta o retrato afetivo de si mesmo no documentário de Betse de Paula indicado ao troféu Candango de Brasília

Rodrigo Fonseca
Passados uns dez meses do lançamento de “Banda de Ipanema – Folia de Albino”, lá pelos idos do Carnaval de 2003, o diretor Paulo Cézar Saraceni (1933-2012) deu uma festa em sua casa, em meio a uma celebração para Iemanjá, e engatou o P de Pop num papo sobre “Porto das Caixas” (1962), do qual um senhor de óculos, grisalho, de fala mansinha, com uma camisa de botão alvíssima, participava de maneira carinhosa. Lá pelas tantas, em meio a um elogio solto por este que vos tecla, acerca da composição de luz e de algo bem contrastado de Rembrandt nos enquadramentos daquele filmaço, o tal senhor de falar sereno sorriu e cravou: “Alguém ainda valoriza o que estes velhinhos já fizeram”. Era Mário Carneiro (1930-2007), a quem este blog muito (MUITO) admirava pela direção de “Gordos e Magros” (1976), mas que, até então, nunca havia encontrado pessoalmente, sequer visto em retratos. Naquela de “Oi. Muito prazer”, retrucada com o nosso “Que honra conhecer o senhor”, brotaram duas horas de histórias, reminiscências e sonhos. Era um torvelinho de experiências históricas para a imagem brasileira – a do audiovisual e a das artes plásticas, na qual ele foi pintor e gravurista – que foi requentado na noite da última quinta, como um avassalador fluxo memorialístico, após a sessão de “A Luz de Mário Carneiro” no 53º Festival de Brasília. O evento tem no Canal Brasil a sua veia central de escoamento, sempre às 23h, tendo projeções ainda nos canais Globo. Lá dá pra ver a carta de amor a Carneiro assinada pela realizadora Betse de Paula (de “Vendo ou Alugo”) no terreno onde ela se sai soberana: o retrato afetivo. Ela já alcançara sucesso e prêmios em “Revelando Sebastião Salgado”, laureado em Gramado, em 2013. E fez bonito também em “Desarquivando Alice Gonzaga” (2017). São longas-metragens em que a diretora de comédias leves como “O Casamento de Louise” (2001) e “Celeste & Estrela” (2002) administra com suavidade o uso de arquivos e depoimentos (quase sempre feitos em primeira pessoa) para construir fluxos de consciência, desabafos, testemunhos. É mais que documento: é jira de saudades; é uma informal resenha de si mesmo; é deixar falar e saber ouvir. É isso o que temos nessa produção do Canal Curta! (que tem mandado bemzão na leva de selecionados desta competição brasiliense), com lembranças de Carneiro sobre sua trajetória como artista plástico e sua entrada gradual no ambiente cinematográfico. “Meus livros não eram sobre cinema, eram sobre pintura. Eu lia sobre a pintura do século XII. (…) Eu levei as artes plásticas pros filmes, fazendo murais em movimento. (…) Fazia com a câmera o que a minha experiência como pintor e gravador mandava eu fazer”, diz Mário no filme.

Partindo de um longo depoimento de Carneiro, Betse deixa com que ele se apresente – e muito bem – às gerações que só o conhecem de longas memoráveis como “O Padre e a Moça” (1965), “Capitu” (1968), “O Mágico e o Delegado” (1983) ou “500 Almas” (2004). Deles, Betse, inteligentemente, pinça os fotogramas menos batidos, fugindo do óbvio e levando sua plateia a uma estranheza convidativa, a um desejo de desbravar Carneiro. A montagem de Marta Luz é especialmente feliz nessa articulação entre as falas e os longas que ele fotografou, tornando-se um Midas do transbordamento na iluminação. Marta se põe no mesmo patamar das finas montagens dos concorrentes que vieram antes de “A Luz de Mário Carneiro” – o .doc “Espero Que Esta Te Encontre e Que Estejas Bem”, de Natara Ney, e o faroeste “Longe do Paraíso”, de Orlando Senna – num indício de que este é um festival pautado por boas edições. Que o júri possa distinguir uma delas… que seja com uma menção honrosa. Mas há muito mais a se destacar no trabalho de Marta, uma vez que ela também assina o roteiro, bem impulsionado pela pesquisa de Lais Rodrigues e Mario Caillaux.
Entre fatos e feitos, o duplo trabalho de Marta permite que Betse possa estruturar a revisão do legado de Carneiro em filmes como “Todas as Mulheres do Mundo” (1966), blockbuster de Domingos Oliveira. “Aquela época, faltava um leve, uma comédia de Ipanema”, lembra o documentado em uma fala. Esmiuçando a vida profissional dele, diretora a ainda garimpa falas dignas de anotação, tipo “O artista tem que fazer o seu trabalho e deixar que o mundo resolva o que vai fazer dele aqui a 200 anos” ou “É sempre uma alegria saber que você não envelheceu sozinho”. A Iemanjá de Saraceni, amigo irmão de Carneiro, deve estar borbulhante.

Cena de “O Mágico e o Delegado” no recorte da fotografia de Carneiro

Ainda aos soluços pela sessão de “A Luz de Mário Carneiro”, o P de Pop vem curtindo cada passo do Festival de Brasília de 2020 com a certeza de que seu curador, o documentarista Silvio Tendler, extraiu flor de pedra, numa luta para poder preservar a mais antiga e mais politizada das mostras competitivas do país. O debate entre o Heródoto do cinema nacional, Flávia Guerra e Mr. Ken Loach, na última quarta, foi uma aula de resistência e de dialética. Que Ricardo Cota, crítico ligado à engenharia desta edição, ganhe louros também, por todo o empenho que fez para levantar o evento. Um evento que esbanjou rigor – pelo que se viu até aqui – no trabalho de sua comissão de seleção, que teve o querido diretor Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, entre seus integrantes. Presidido pelo cineasta e músico André Luiz Oliveira, o grupo responsável por escolher os seis longas da Mostra Competitiva Oficial foi composto pela professora e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), Tânia Montoro; pela atriz pernambucana Anne Celestino; pela diretora Adriana Dutra; e pelo já citado Bigode.

Curta “Guardião dos Caminhos”, de Milena Manfredini

Brasília está tendo um festival à altura de sua história e à altura da História, com o perdão do velho “trocadalho”. E olha que Brasília viveu entre 2016 e 2018 uma fase curatorial memorável, digna de aplausos. Mas diante de uma hipótese de suspensão daquela festa cinéfila, Tendler entrou em campo nos 45 do segundo tempo, sem deixar cair a peteca, e, mesmo diante do triste desmanche de nossos aparelhos culturais, buscou fazer o melhor e deu uma aula de resiliência e de afeto ao audiovisual. Coisa linda de se (vi)ver. Coisa de mestre.
Para o desfecho da programação, Tendler escalou “Ivan, o TerrirVel”, que ganhou a láurea de melhor .doc em Stiges, na Espanha, revivendo as aventuras do diretor Ivan Cardoso pelas estepes do sobrenatural, de Helio Oiticica e de uma tardia sanha tropicalista. A direção é do crítico Mario Abbade. Promete. Entre os curtas-metragens, merecem destaque “Guardião dos Caminhos”, de Milena Manfredini, e “Ouro Para o Bem do Brasil”, de Gregory Baltz.
#SilvioTendler

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.