A Rapsódia Boêmia ainda ‘will rock you’

A Rapsódia Boêmia ainda ‘will rock you’

Rodrigo Fonseca

03 de abril de 2020 | 09h25

Nos acordes da autoralidade
Rodrigo Fonseca

Passou “Rocketman”, vem aí David Bowie, mas nada bate a Rapsódia Boêmia de Bryan Singer, que encontrou na rede Telecine um lar fiel, com exibições constantes. É sempre um alento (re)ver esse espetáculo, sobretudo nestes dias em que a música reage à 40ena apoiado em gênios da canção como Bob Dylan e sua “Murder Most Foul”. Orçado em US$ 52 milhões, “Bohemian Rhapsody” se pagou e deu lucro em apenas duas semanas em cartaz, regado a polêmicas: faturou US$ 176 milhões em cerca de dez dias, totalizando US$ 903 milhões ao longo de quatro meses em circuito. É um triunfo para o cinema musical e uma vitória para a estética de Bryan Singer, mesmo com todo o tumulto que cercou seu nome. Recebeu o Globo de Ouro de melhor filme e quatro Oscars: montagem, edição de som, mixagem de som e ator, para o genial Rami Malek. Trabalhando com o guitarrista Ry Cooder em “Paris, Texas” (1984), Wim Wenders, o diretor de joias como “Buena Vista Social Club” (1999), aprendeu uma lição que virou lema: “O rock’n’roll salva vidas, pois ele mostra o limite entre tédio e vazio existencial”. Poucos longas-metragens traduzem melhor esse ideal analgésico do rock do que “Bohemian Rhapsody”, um “filme de autor” com “A”, feito por um realizador sem qualquer laço com o existencialismo de Wenders, mas que, assim como o mestre alemão, enxerga a relação essencial da imagem com outros vertores da arte, como a canção pop. Bryan Singer é seu nome e você o conhece da franquia “X-Men”. Mesmo tendo sido afastado dos sets desta releitura personalíssima dos feitos do grupo Queen, sob acusações, reclamações e gasturas com Malek, Singer deixou sua marca impressa a cada cena, desafiando os cânones da cartilha das cinebiografias para criar seu próprio Freddie Mercury… o Freddie Mercury de sua saudade… portanto, um Freddie vivíssimo e comovente de ver, que arranca o couro do ferramental gestual de Malek. Desde sua ascensão como cineasta, em 1995, com “Os Suspeitos”, Singer – um órfão criado em lar adotivo que cresceu assumindo a causa LGBT como bandeira – lançou-se nas telas como um cronista das artes de enganar, da mentira. “O melhor truque do Diabo foi fazer a Humanidade crer que ele não existe”, dizia Kevin Spacey em seu primeiro sucesso, deixando claro o apreço do cineasta por personagens que fingem ser o que não são, que mascaram a identidade à cata de zonas de conforto. Nada mais coerente do que filmar super-heróis vítimas de preconceito, atormentados pela inadequação, como seu incompreendido “Superman – O Retorno” (2006). Freddie Mercury – um rockstar gay nascido em Zanzibar, de família zoroastrista, apelidado de paquistanês de modo pejorativo – é o Wolverine desta imersão de Singer na cena roqueira dos anos 1970 e 80. Como o mutante da Marvel, Freddie foi um animal selvagem com o fator de cura da autoregenaração midiática que disfarçava sob uma voz de veludo e um bigode grosso a busca por sua própria essência, conciliando sua herança familiar de fé em Zoroastro com o ímpeto voraz do show business. Isso compensa qualquer deslize factual, sobretudo quando somado ao apuro técnico do fotógrafo Newton Thomas Sigel (de “Drive”) e a uma apoteótica sequência de quase dez minutos do show Live Aid: um marco de reconstituição. Surpreendente em sua arrecadação astronômica, “Bohemian Rhapsody” virou um dos maiores fenômenos de bilheteria da década, não apenas pelo apelo midiático do Queen, mas pelo fato de o projeto da Fox se enquadrar em um filão que, quando vitaminado por intrigas e peripécias sexuais (o que é o caso), rende milhões nas bilheterias: as cinebiografias. Quando Bryan Singer ainda estava de bem com sua equipe e elenco, filmando Malek bater o pé a cantar “We will rock you”, a Paramount deu sinal verde para “Rocketman”, narrando os feitos de sir Elton John, vivido por Taron Egerton (da franquia “Kingsman”), sob a direção do ator Dexter Fletcher. As excentricidades do intérprete de “Goodbye Yellow Brick Road”) servem com perfeição ao que o filão biográfico necessita. Há biografias baseadas nas mais variadas celeridades, como comprovam alguns sucessos hoje em cartaz no país – como é o caso de “O primeiro homem”, de Damien Chazelle, sobre a visita à Lua do astronauta Neil Armstrong -, ou produções em gestação, como o esperado “Vice”, no qual Christian Bale vive Dick Cheney, o homem forte de George W. Bush no Poder. Porém há uma linha ainda mais rentável e prolífica nesse campo: as cinebiografias musicais, que lotam salas de exibição seja como documentário, seja como ficção. Em 2018, no Festival de Cannes, poucas ficções despertaram mais atenção da imprensa do que “Whitney”, no qual o cineasta escocês Kevin Macdonald documenta os conflitos pessoais e os anos de sucesso da cantora Whitney Houston (1963-2012). A única reconstituição de feitos de músicos polêmicos que sacudiu mais a Croisette recentemente foi “Leto” (“Verão”), produção russa em preto & branco sobre o lendário compositor Viktor Tsoi, uma espécie de Renato Russo da URSS, que era adorado em Lenigrado de uma forma quase religiosa, por um nicho roqueiro no fim do império soviético. Com a inclusão de vinhetas animadas, a produção revive, em tom de videoclipe, canções de sucesso de Lou Reed, Iggy Pop e Talking Heads. Mas nenhum desses filmes, até agora, comoveu mais do que “Bohemian Rhapsody”, nem o doce longa sobre Elton John. Quando é que vai chegar a biopic de Roberto Carlos, hein?

p.s.: Pouca gente tá fazendo uma militância cinéfila mais bonita nas redes sociais do que Raphael Camacho, um agitador cultural que durante anos a fio comandou a direção artística do Cine Joia e do Reserva Cultural, ajudando a promover debates essenciais para a saúde existencial do Rio de Janeiro e de Niterói. Ele vem promovendo trívias, listas e discussões sobre grandes estrelas e cineastas. Se alguém resgatar suas postagens preciosas, dá um livro. Poucos programadores (só lendas como Cosme Alves Neto e Fabiano Canosa) demonstraram tanto empenho quanto o de Camacho para inflamar a cinfilia carioca. Que bom que ele existe.

p.s.2: Pouco falado, mas essencial, “A Hora do Amor” (“The Touch”, 1971) é um Bergman para noites de ressaca existencial, um “Pontes de Madison” à sueca. A Versátil lançou uma edição primorosa dele em DVD.

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