‘A Prece’ é um sinal de fé no Reserva Imovision

‘A Prece’ é um sinal de fé no Reserva Imovision

Rodrigo Fonseca

21 de abril de 2021 | 11h06

Hanna Schygulla vive a Irmã Myriam, líder religiosa de um grupo jovem em “A Prece”, de Cédric Kahn

RODRIGO FONSECA
Existem pelo menos 250 razões, em forma de filmes, que fazem o streaming Reserva Imovision ser a maior diversão, como a chance de se conferir a realidade do Congo em “Félicité” (2017), de Alain Gomis; ou a oportunidade de se comover com o show da atriz Simone Spoladore em “Memórias Que Me Contam”; ou a possibilidade de entender por que “El Bonaerense: O Outro Lado da Lei”, de Pablo Trapero, foi seminal para o cinema argentino. Tem tudo isso no bunker de resistência autoral inaugurado esta semana na web por Jean Thomas Bernardini, que vai reabrir seu Reserva Cultural, em Niterói, neste fim de semana, exibindo os oscarizáveis “Druk – Mais Uma Rodada”, “O Pai” e “Minari”, além do thriller “Pequenos Vestígios”, com Denzel Washington, Rami Malek e Jared Leto. Entre as gemas que integram os tesouros da plataforma da Imovision há uma garantia de polêmica à francesa: “A Prece”. Ímã de controvérsias por onde passa, com seu olhar crítico sobre o papel sociabilização das religiões, “La Prière” (no original) é comparado a um clássico moderno – “Os Incompreendidos” (1959), de François Truffaut – em seu olhar sobre a juventude, referendado por uma série de elogios no Festival de Berlim. Saiu de lá com o prêmio de Melhor Ator para Anthony Bajon, então com 24 anos. Sua comovente atuação como um delinquente juvenil assolado pelas drogas comoveu a capital alemã. Mais controversa experiência do astro francês Cédric Kahn (de “A economia do amor”) na direção de longas-metragens, este drama sobre redenção abriu debates quentes sobre a representação da Fé na 42ª Mostra de São Paulo e no Festival do Rio.
“Não se usa Deus, aqui, como uma propaganda política, e, sim, como uma investigação de tom sociológico sobre pertencimento e inadequação. Nosso empenho durante o processo de filmagem era conseguir que esta história sobre a luta de alguém que quer se desintoxicar possa tocar as pessoas de maneira universal, ao mostrar o descontrole das emoções, indo além do ato de crer ou não”, disse Bajon ao P de Pop em Berlim.

Anthony Bajon saiu da Berlinale com o prêmio de melhor interpretação masculina

Respeitado como cineasta por longas como “Vida Selvagem” (2014), também em cartaz no Reserva Imovision, Khan surpreendeu a crítica com a maturidade com que dirige “A prece”. “É importante nos desligarmos de juízos morais ao entender a religiosidade aqui. A proposta por trás desse filme não era o desejo de julgar a Igreja, nem de elogiar a dimensão redentora que um grupo religioso pode ter para alguém que está sofrendo. Não estou falando de salvação e, sim, de hipóteses. Meu foco se divide entre a autodescoberta e a solidão. É um filme sobre o calvário de sair de um inferno aberto por escolhas erradas”, disse o cineasta francês, que só no fim de semana de estreia de seu longa na França arrebatou 86 mil pagantes.

Em “A prece”, Kahn acompanha a perseverança de um grupo jovem da Igreja Católica, que tem na freira Myriam (a veterana cantora e atriz alemã Hannah Schygulla) uma referência de fé, para se livrar da tentação das drogas e do álcool. Muitos foram parar ali para se salvarem do vício, como é o caso do dependente químico Thomas (Anthony Bajon), agressivo diante da Palavra de Deus. De cara, o filme parece querer investigar o papel do Catolicismo e da liturgia de Cristo na recuperação de adolescentes. Mas, com poucos minutos, o cineasta deixa claro que a religião é só um detalhe no arranjo narrativo seco que criou, lembrando o legado de Truffaut. “A analogia com Truffaut vem pelo interesse na juventude, em um contexto de delinquência. Nos sets, Anthony realmente lembrava o personagem de Truffaut em ‘Os incompreendidos’, Antoine Doinel, que era o alter ego dele”, disse Kahn ao Estadão. “Mas não fiz uma releitura muito consciente do que aprendi vendo Truffaut. Não era uma homenagem a ele. A questão era explorar o sentimento de simplicidade: olhar o realismo sem feri-lo com muitos adereços fabulares. Esse era o caminho para levar às telas o sacrifício da fé”.
Até o fim do ano, espera-se que cerca de mil títulos façam do Reserva Imovision um lar para todos os cinéfilos.

p.s.: Nesta quinta-feira começa no site www.10olhares.com, com projeção simultânea na plataforma do BELAS ARTES À LA CARTE a mostra CINEMA BRASILEIRO: ANOS 2010, 10 OLHARES, que vai de 22 a 30 de abril, totalmente gratuita. Serão exibidos, ao todo, 75 filmes (43 longas e 28 curtas), vitaminados por dez debates. Integram a seleção pérolas como “Um filme de dança”, de Carmen Luz; “A Batalha do Passinho”, de Emilio Domingos; “Kbela”, de Yasmin Thayná; “Café com canela”, de Ary Rosa e Glenda Nicácio “As Boas Maneiras” (2017), de Juliana Rojas e Marco Dutra; “Estado Itinerante”, de Ana Carolina Soares; “Yãmîyhex: As Mulheres-Espírito”, de Sueli Maxakali e Isael Maxakalie; e “Esse Amor Que Nos Consome”, de Allan Ribeiro e Douglas Soares.

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