‘A Portuguesa’ nas telas do CCBB

‘A Portuguesa’ nas telas do CCBB

Rodrigo Fonseca

06 de fevereiro de 2021 | 11h12

RODRIGO FONSECA
Embrulhada pra presente para cariocas sedentos pela experiência presencial da sala escura, com direito a um laço de protocolos de segurança pra covid-19, a retrospectiva DE PORTUGAL PARA O MUNDO, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), é o primeiro gol de placa no RJ da indústria das mostras cinematográficas, garimpando pérolas lusas como “A PORTUGUESA”, de Rita Azevedo Gomes. Tem sessão dessa joia neste sábado, às 17h. No ano passado, a suntuosa produção de 2019 entrou na “streamingesfera”, via MUBI. Inédito cá por estas bandas de exibição em circuito, o exercício de arqueologia sinestésica da História da Europa feito por Rita pousa agora entre nós numa telona. Revelada em 1990 com “O som da Terra a tremer”, Rita dirigiu esta viagem à Idade Média inspirada pelo desejo de entender a universalidade de conflitos ligados à fragilidade. Sua narrativa trava diálogo com a literatura de Robert Musil (1880-1942), construindo a luta de uma jovem nobre (Clara Riedenstein) para transformar um castelo em um lar, enquanto seu marido não se desgarra de seus compromissos com uma guerra nos confins do mundo.
“É um filme de quietudes porque o silêncio que está impresso é o silêncio do Tempo. É o silêncio de toda a introspecção de uma mulher que busca entender o mundo à sua volta, falando o mínimo de si”, explicou Rita ao P de Pop na Berlinale. “Minha protagonista é uma mulher frágil, fisicamente, num contexto histórico de guerras. Mas é nessa condição que reside sua potência. Uma potência que vamos desvelando silenciosamente. Até os ruídos de batalhas eu diminuí. Há combate. Mas o conflito que eu quero entender é o daquela moça portuguesa em um castelo na Itália que ela deseja transformar numa casa. E ela não vai contar o que se passa dentro de si. Precisamos nos aproximar dela para entender”.

Fotografado por Acácio de Almeida com uma luz que favorece a delicadeza, “A Portuguesa” é um estudo sobre resiliências, marcado pela pluralidade de reflexões morais de sua diretora. Plural é um adjetivo preciso para definir a sinestesia que “A Portuguesa” gera na maneira como Rita apresenta uma Idade Média capaz de fugir dos Romeus e Julietas. “A imagem que temos do período medieval é de peste, de inquisição, de guerras religiosas. Temos pinturas que nos sugerem o que aquele tempo pode ter sido. Pinturas que ainda não carregam em si a dimensão teatral que as artes plásticas ganharão com a Renascença”, explica Rita. “O que eu tento é olhar para as figuras que tenho como se fossem pessoas de sempre, pessoas de hoje com roupas de ontem”.

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