‘A Portuguesa’ na plataforma da pluralidade

‘A Portuguesa’ na plataforma da pluralidade

Rodrigo Fonseca

20 de julho de 2020 | 12h03

Uma suntuosa direção de arte, aliada a uma fotografia que ressalta a delicadeza essencial à diretora Rita Azevedo Gomes, torna “A Portuguesa” um espetáculo para o olhar – hoje, ele está ao alcance de um clique, na MUBI

Rodrigo Fonseca
Garimpando-se dia a dia uma mina de pepitas autorais como a MUBI (www.mubi.com) não tem como um cinéfilo não sair feliz, sobretudo depois de ver uma das sensações do Festival de Berlim de 2019 – “A PORTUGUESA”, de Rita Azevedo Gomes – encontrar um lugar à luz na “streamingesfera”. Inédito cá por estas bandas de exibição em circuito, o suntuoso exercício de arqueologia sinestésica da História da Europa feito pela cineasta lusa pousa enfim entre nós, com a resolução habitualmente primorosa da plataforma. Revelada em 1990 com “O som da Terra a tremer”, Rita dirigiu esta viagem à Idade Média inspirada pelo desejo de entender a universalidade de conflitos ligados à fragilidade. Sua narrativa trava diálogo com a literatura de Robert Musil (1880-1942), construindo a luta de uma jovem nobre (Clara Riedenstein) para transformar um castelo em um lar, enquanto seu marido não se desgarra de seus compromissos com uma guerra nos confins do mundo.
“É um filme de quietudes porque o silêncio que está impresso é o silêncio do Tempo. É o silêncio de toda a introspecção de uma mulher que busca entender o mundo à sua volta, falando o mínimo de si”, explicou Rita ao P de Pop na Berlinale. “Minha protagonista é uma mulher frágil, fisicamente, num contexto histórico de guerras. Mas é nessa condição que reside sua potência. Uma potência que vamos desvelando silenciosamente. Até os ruídos de batalhas eu diminuí. Há combate. Mas o conflito que eu quero entender é o daquela moça portuguesa em um castelo na Itália que ela deseja transformar numa casa. E ela não vai contar o que se passa dentro de si. Precisamos nos aproximar dela para entender”.

Fotografado por Acácio de Almeida com uma luz que favorece a delicadeza, “A Portuguesa” é parte de um empenho da MUBI em mapear a obra de Rita. “A Vingança de uma Mulher”, lançado pela realizadora no Festival de Roterdã, em 2012, vai entrar nessa revisão que a plataforma (hoje coalhada de joias de Mati Diop, Hal Hartley, Katharina Kastner e Godard, além do “Napoleão”, de Abel Gance) prepara para as próximas semanas. “É um passo importante para a MUBI ter um diretora mulher portuguesa. É uma forma de olharmos o cinema europeu além do lugar só dos grandes cineastas homens”, explica a gerente da plataforma no Brasil, Juliana Barbieri. “Temos uma programação rotativa, organizada a partir de uma curadoria humanizada, indo além da ideia do cult e do clássico, passando por narrativas experimentais e narrativas de gênero, de modo a criar a pluralidade mais ampla possível”.

Plural é um adjetivo preciso para definir a sinestesia que “A Portuguesa” gera na maneira como Rita apresenta uma Idade Média capaz de fugir dos Romeus e Julietas. “A imagem que temos do período medieval é de peste, de inquisição, de guerras religiosas. Temos pinturas que nos sugerem o que aquele tempo pode ter sido. Pinturas que ainda não carregam em si a dimensão teatral que as artes plásticas ganharão com a Renascença”, explica Rita. “O que eu tento é olhar para as figuras que tenho como se fossem pessoas de sempre, pessoas de hoje com roupas de ontem”.

p.s.: Agendado de 2 a 12 de setembro, o Festival de Veneza 2020 vai conceder prêmios honorários à atriz inglesa Tilda Swinton, estrela de pérolas como “Precisamos Falar Sobre o Kevin” (2011), e à cineasta chinesa Ann Hui, realizadora de filmes premiados como “Neve de Verão” (1995).

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