A planície poética de Walter Carvalho vai ao Canal Brasil

A planície poética de Walter Carvalho vai ao Canal Brasil

Rodrigo Fonseca

01 de setembro de 2017 | 20h51

Rodrigo Fonseca
Segunda, às 22h, o Canal Brasil traz uma atração imperdível na seção É Tudo Verdade: o documentário Manter a Linha da Cordilheira Sem o Desmaio da Planície, que passou na Flip de 2016, circulou em festivais do ano passado, mas segue inédito. A direção é de Walter Carvalho, hoje em cartaz com Um Filme de Cinema.

Parece esmaecido o retrato de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) enquadrado de soslaio por Walter Carvalho em uma cena de Manter a Linha da Cordilheira Sem o Desmaio da Planície. A foto aparece num trecho no qual o cineasta paraibano tenta cartografar a intimidade do poeta Armando Freitas Filho. Dura apenas alguns segundo a troca de olhares com o pôster do bardo de Itabira em meio a pilhas de livros, mas é o suficiente para sabermos que sua figura não está ali por reverência literária ou respeito intelectual. Afinal, “os lírios não nascem da Lei”, como o mineiro dizia. E para um fã como Armando, o homem que se apresentava dizendo “Meu nome é tumulto e escreve-se da pedra” dispensa salamaleques assim. Disposto como altar litúrgico, o retrato está ali como árvore genealógica para saber de onde o autor documentado por Carvalho veio. É um retrato de pai poético. Gênese.

O poeta Armando Freitas Filho deflagra uma reflexão sobre a transcendência em “Manter a Linha da Cordilheira Sem o Desmaio da Planície”

Falando de sua hipocondria, da mania de escrever colado ao papel, dos cadernos de anotação, do filho corujado, da esposa que encheu seus últimos 30 anos de cheiro de flor, Armando se rende a Pai Drummond evocando seu santo nome sempre que quer explicar de onde veio – talvez também para onde vai. A paixão pelo autor de E Agora, José? Inspirou releituras que não cessam, deixando abertas as venezianas de uma Urca ensolarada que reside não na orla da Zona Sul carioca mas no próprio peito do poeta. A Pássargada de Armando são dois casamentos fracassados e três décadas de um amor romântico com quem vai de mãos dadas ao cinema ver filme com Richard Gere. Nela, cabem a paternidade, amizades, digressões sobre dança de salão, uma máquina de escrever de outrora e livros premiados (com o troféu Jabuti inclusive), traduzidos nas línguas variadas que se congregam no esperanto da curiosidade. E é lá que Carvalho vai filmar. Mas não por curiosidade geográfica. A geografia que lhe interessa é outra.

De uma doçura e de uma elegância narrativa incomuns no perímetro da não-ficção no país, Manter a Linha da Cordilheira Sem o Desmaio da Planície não é um filme SOBRE o autor dos versos reunidos em coletâneas como Fio Terra (2000), 3 x 4 (1985) ou Dual (1966). Não se trata de uma biografia. Não é sobre Armando; é COM Armando. E, a partir dele, encontramos o real objeto: a transcendência estética. Fala-se muito sobre a Palavra (este ente que, segundo Victor Hugo, era um ser vivo). Mas o doc não se vê refém de verbos nem de preposições. O ser transcendente aqui é o próprio ato de documentar. No desfiladeiro das saudades de Armando, numa conversa (hilária) dele com Ferreira Gullar e nos aforismos fabricados por ele a cada respirar (tipo “Filho único não tem direito a Caim” ou “Cura é hierarquia”), Carvalho se embrenha num relevo plano para flagrar (e cercar) os precipícios nos quais o cinema documental brasileiro caiu de cabeça em nome de um suposto código de ética sem postulados estéticos. Numa histeria contemporânea do filão, apregoa-se a máxima de que não se usa música, não se falseiam cenários, não se retalham falas, não se encena.

Pois Carvalho faz isso tudo, enfiando Godard no meio, apelando para um estalar de baterias e realizando mudanças de texturas na epiderme do filme. Bagunça o tom regrado e bem comportado no qual o ofício documental se embalou deixando a emoção como sua bússola. Mesmo a entrada de Gullar causa olhares de espanto e soluços de incômodo por parte de quem enxerga o autor do Poema Sujo como um tipo de “…ólogo” que veio para vaticinar a força literária de Armando, nos moldes do que muita gente faz com Nelson Motta em filmes musicais. Mas não é esse o uso de Gullar. Ele entra numa ponte autoral com a obra do próprio Carvalho, repetindo o dispositivo encontrado por ele no seminal Moacir Arte Bruta (2005) ao escalar o artista plástico Siron Franco para falar sobre a obra de um quasímodo do Nordeste. Siron ali não era um selo de qualidade para Moacir. Era só um colega de processo artístico. A relação de Armando e Gullar é a mesma. Por isso, a fala dele não é sobre métricas ou versificação alexandrina: o papo é sobre vida. E naquele papo, o maior fotógrafo do nosso cinema – cada vez mais afiado como realizador – injeta em nossas veias óticas um veneno antimonotonia documental, rasgando laços que não passam de resquícios de pudor.

Armando é, portanto, o super-herói que combate a clausura de um senso ético fabricado em detrimento da fabulação. Armado desse Wolverine das estrofes calculadas pela simetria da mancha gráfica na página escrita, Carvalho faz fábula, cantando o amor na forma da amizade, da nostalgia (da colega Ana Cristina César), da condição de ser pai, na disciplina de se saber feliz como marido e no posto de criar. Criar coisas belas e sujas (na lógica da assepsia pós-moderna) do tipo “Magro e amargo/ um corpo distende/ cercado de treva/ tato mais dente/ rebenta a flora/ trevo de carne/ travo de terra/ segreda: sente/ um braço que abraça/ uma perna que arrasta/ corpo: um furo/ segrega rente/ o corpo futuro/ germina: doente”. Na doença godardiana da libertação, ambos, Armando e Walter Carvalho, são Drummonds: nestes tempos de muletas, ambos continuam… feito claro enigma. Feito filme bom.

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