Paraguaia Paz Encina vence Roterdã com ‘EAMI’

Paraguaia Paz Encina vence Roterdã com ‘EAMI’

Rodrigo Fonseca

03 de fevereiro de 2022 | 10h45

A diretora Paz Encina conquistou o prêmio mais disputado do Festival de Roterdã com “EAMI”, mistura de fábula, etnografia e documentário

Rodrigo Fonseca
Roterdã se perdeu nas florestas do Paraguai, e no esplendor de sua mitologia indígena, e não faz questão alguma de sair de lá, como comprova a consagração de “EAMI”, de Paz Encina: a diretora nascida em Assunção há 50 anos foi a ganhadora do troféu Tigre de 2022 no evento holandês. Um evento que precisou acontecer online, em sua 51ª edição, qual fez em 2021, por força da pandemia, mas reverberou globalmente com força, apesar disso, por conta de sua sólida seleção. A perspectiva paraguaia que deslumbrou o evento é uma mirada para o povo Ayoreo-Totobiegosode, que vive no Chaco, vasta região florestal que faz fronteira entre o país da cineasta, a Bolívia e a Argentina. Mirada essa que combina mitologias indígenas, etnografia e elementos documentais, editados sob a finíssima montagem de Jordana Berg (parceira de Eduardo Coutinho em vários filmes, como “Santo Forte”).
“Para países como Paraguai, Bolívia ou Peru, os indígenas não estão tão distantes”, explica Paz ao Estadão, por email. “Não temos que viajar uma hora e quarenta minutos para estar em contato com as culturas indígenas. Isso faz parte de nossa vida diária. No Paraguai, a gente se reconhece como descendentes de povos indígenas, embora isso não agrade certa parte da população. Temos o Guarani como nossa língua oficial. É uma língua indígena que nos determina completamente, faz parte de nossa vida diária, é nosso ‘teko’, algo que poderia ser traduzido como ‘uma forma de ser’. Portanto, a abordagem que posso ter de uma população indígena não é algo tão abismal como às vezes se pensa. Seria mais difícil para mim abordar um japonês do que um indígena, com quem, é verdade, eu tenho a diferença de classe social, nossas necessidades são diferentes, nossas concepções espaço-temporais são diferentes, mas estou unido pela mesma sensibilidade. Esse foi um caminho muito claro para mim”.
Críticos do mundo todo se derreteram por “EAMI”. O time de jurados, que incluía a produtora brasileira Tatiana Leite, concedeu à cineasta o cobiçado troféu (vitaminado com um prêmio em dinheiro de € 40 mil para investir no lançamento) sob a seguinte justificativa: “Fomos unanimemente afetados pelo poderoso filme criado pela diretora e sua equipe, cuja narrativa forte não só se sustenta visualmente, como politicamente e, também, poeticamente, colocando luzes sobre os massacres globais das tribos indígenas, através do grito do Ayoreo Totobiegosode paraguaio. Este filme nos deu a oportunidade de sonhar e ao mesmo tempo a oportunidade de acordar”.

O mito de uma deusa pássaro movimenta a narrativa da diretora paraguaia

Há 16 anos, Paz encantou Cannes com “Hamaca Paraguaya”, narrativa observacional sobre a rotina de um casal de lavradores que esperava o regresso de seu filho. Ganhou o Prêmio da Crítica, concedido pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) por sua arquitetura visual. Agora, seu retorno via Roterdã demonstra o quanto ela evoluiu sua maneira de narrar. O título de seu novo longa, Eami significa “floresta” na língua dos Ayoreo. Significa também “mundo”. Para aquela população, as árvores, os animais e as plantas que os rodeiam há séculos são tudo o que eles conhecem. Mas eles encaram agora um desmatamento que ameaça tudo o que têm. Para retratar essa tragédia, Paz recorre ao mito de uma menina que vira uma deusa-pássaro, mesclando documentário e fábula em sua forma poética de narrar.
“’Hamaca Paraguaya’ foi um filme 100% controlado por mim. Eu tinha o controle do tempo e dos movimentos. Eu montava uma trilha sonora que era tocada durante as filmagens e sobre a qual eles improvisavam uma coreografia. Eu controlava os tons das vozes. Eu controlava tudo. Mas em “EAMI”, o controle não estava em mim, estava no Totobiegosode (na comunidade), especialmente nas crianças. A única coisa que eu podia controlar, mas apenas minimamente, era a decisão de que o filme teria uma narrativa em vários tempos, como acontecia lá em Hamaca… Gosto de narrativas em que muitos tempos convergem, mas não inteiramente. E tempo para esse povo é muito mais eclético, e corre de acordo com outros parâmetros”, explica a diretora, lembrando que o Paraguai produz hoje de dois a três longas por ano, emplacando sazonais sucessos como “As Herdeiras” (2018). “Nós quase não temos tradição cinematográfica. Depois de quase 30 anos sem longas-metragens paraguaios, ‘Hamaca Paraguaya’ apareceu, quase como se fosse um milagre, mesmo para mim, e me colocou num lugar no cinema do meu país de ‘um antes e um depois’”.

Ao explorar a resiliência dos Ayoreo-Totobiegosode pelo prisma da menina-pássaro, Paz faz de “EAMI” uma espécie de ensaio sobre sororidade, celebrando a força feminina da aldeia. “O deus do Totobiegosode é a Asojá, a mulher deus-pássaro. Quando começa a primavera e ele/ela canta, tudo começa. A palavra ‘pássaro’ é masculina para eles, mas quando se referem ao Asojá, referem-se a ele de forma feminina, porque é de lá que vem a vida. O universo feminino no Toto é a vida, é a colheita, é a tradição, é a terra. Quase não há diferença entre a mãe e a terra. O afeto é transmitido pela palavra. Eu percebi que eles quase não se tocam. Nós estamos acostumados a dar abraços. Eles, não. Eles dizem um ao outro o que sentem. Então, se eles dão sua palavra, eles lhe dão seu coração”, explica a diretora, que, em 2016 arrebatou elogios no Festival de San Sebastián com o documentário Exercícios da Memória.

Paz concorria com 13 outros longas e dois deles dividiram o prêmio especial do júri: “Excess Will Save Us”, de Morgane Dziurla-Petit (Suécia) – uma investigação sobre um atentado terrorista – e “To Love Again”, de Gao Linyang (China) – sobre um ritual de casamento coletivo. Roterdã concedeu ainda o The Ammodo Tiger Short Awards de 2022 ao curta português “Tornar-se um Homem na Idade Média”, um ensaio de Pedro Neves Marques sobre o emasculamento ao falar de homens que engravidam e da esterilidade em tempos de caça aos sexismos.
Mesmo com a premiação entregue, Roterdã segue online até o dia 6. Estão por lá dois longas nacionais: “Medusa”, de Anita Rocha da Silveira, e “Paixões Recorrentes”, de Ana Carolina Teixeira Soares.

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