A obra de Bortolotto é cheia de Kenny G e de fúria

A obra de Bortolotto é cheia de Kenny G e de fúria

Rodrigo Fonseca

30 de agosto de 2020 | 10h46

Rodrigo Fonseca
Titânicos são os desafios da arte, porém um dos mais árduos é a consolidação de um personagem maior do que a duração de um filme ou de um espetáculo ou de um virar de páginas… um personagem que se candidate a durar pra sempre em nossa memória, como é o caso do cachorro Kenny G. Sua fixação anal é descortinada pelo William S. Burroughs da Consolação… o Akira S. de Londrina… Mário Bortolotto em um dos textos do Trio McLanche teatral Terça em Cena, servido via YouTube no Canal Aberto Produções. Tem Carolina Cardinale dando um show sobre a intransitividade da vida a dois em “Privê. Tem Pedro Guilherme em “Um Natal Para Aquecer Nossa Economia”. E tem os latidos de “Kenny G”, escrito por Lucas Mayor, dirigido e estrelado por MB, que deu ao P de Pop sua melhor leitura literária desta pandemia: o livraço “Esse Tal De Amor e Outros Sentimentos Cruéis”, da Editora Reformatório. Saliva vira água benta na stand up tragedy que o autor de “Hotel Lancaster” regurgita ao falar do convívio com um cão de retal fricção como uma metáfora para o processo artístico dos dias de hoje. Quando Kenny é trocado por Kevin, a solidão, mãe de todas as coisas no cógito bortolottiano, ganha a ribalta, levando o espectador a um canil de desamparos, bem parecido ao que esse zé pereira de dramaturgia nos deu em “Borrasca”, um filmaço a ser buscado na TV a cabo ou na web.

Texto de Bortolotto em “Esse Tal de Amor”

Lá pelas tantas da doída coletânea de poemas “O pior lugar que eu conheço é dentro da minha cabeça”, Bortolotto nos ensina que “pessoas destruídas pelo tempo/ ainda podem conviver com o perigo/ como velhos tênis/ presos pelos cadarços/ em fios de alta tensão”. E completa, no cume de outra estrofe: “Dizem que até os santos devem morrer/ para viverem eternamente”. Os versos que saíram como literatura se alinham com a saliva que o poeta, músico, dramaturgo e ator (bom pacas) cospe nas bochechas retesadas de Eldo Mendes (igualmente potente na atuação) em “Borrasca”, um dos filmes brasileiros de maior coragem narrativa entre os lançamentos de 2019. Parece filme de fala, num parlatório parecido com o brilhante início de “Amargo regresso” (1978), de Hal Ashby, ou mesmo com “The sunset limited”, de Tommy Lee Jones. Mas as peças que o cineasta Francisco Garcia (do farpado “Cores”) escolheu para compor seu puzzle sobre o desmantelo afetivo ampliam a dimensão de sinestesia desse espetáculo: no caso, a direção de arte de Monica Palazzo e a fotografia de Alziro Barbosa. Eles esculpem uma Fortaleza da Solidão no apartamento onde se passa o embate entre dois amigos que choram o luto de um companheiro de cachaça e falação.

Autor de peças carregadas de tétano moral como “Medusa de Rayban” e o brilhante “Diário das Crianças do Velho Quarteirão”, que abriram entranhas comatosas do teatro brasileiro, Bortolotto fez um desabafo poético que sintetiza sua gramática: “Tenho alguns amigos que fazem muita merda/ eu faço muita merda/ Tenho alguns amigos que saem de controle/ eu já saí muito de controle/ Tenho amigos que se emocionam/ ouvindo Van Morrison/ é ruim de eu não me emocionar”. Sua matéria é a lealdade, mesmo nos estágios improváveis da confiança. E ele esculpe essa argamassa sob um método ruidoso parecido com o do cineasta (e ícone indie) Hal Hartley (“Flerte”, “Amateur”): a razão cínica une os dois, na ótica da atomização das certezas que sustentam as aparências. No teatro e na obra poética dele, querer é um trinômio verbal entre saber perder, segurar a onda e encher a cara para esquecer (ou para suportar).
O maior acerto dramatúrgico de Garcia nesta imersão no universo de Bortolotto é dar a este tripé de ações carne, pele e cheiro de suor azedo. Fala-se muito, num pingue-pongue de câmera, que ziguezagueia louca atrás de predicados sangrados de mágoa, entre sujeitos que tentam indeterminar sua própria força. O papo sobre o coelho Ricochete e o debate sobre um sanduíche do Bob’s injeta pop nas veias de um filme que se disfarça de teatralidade para chegar ao intimismo máximo do cinema.

p.s.: Nesta segunda, às 22h30, num necessária e justíssima homenagem a Chadwick Boseman, morto de câncer na sexta-feira, a Globo vai exibir “Pantera Negra” (“Black Panther”, 2018), de Rya Coogler, no qual o brilhante ator deu vida ao monarca de Wakada. Criado em julho de 1966, nas páginas da HQ Fantastic Four nº 52, o Pantera Negra ganha sob a batuta de Coogler o protagonismo de uma trama que se equilibra entre a futurística nação africana e a Coreia do Sul, palco de uma cena de ação, antecipada já no trailer, idealizada para eletrizar plateias como nunca se viu nos filmes Marvel até agora. A tarefa de T’Challa é manter sua nação coesa, após a dor que se instalou por lá após a morte de seu pai, o antigo rei, numa articulação do Barão Zemo. Mas um vilão interessado nas reservas de vibranium, o Garra Sônica (vivido pelo ator e coreógrafo Andy Serkis, o Gollum de “O Senhor dos Anéis”, amplificado por efeitos em CGI), abalará a paz de T’Challa. Ele ainda precisa ainda deter a vaidade de um conterrâneo vingativo, Erik Killmonger (Michael B. Jordan, ator-assinatura de Coogler). Rodrigo Oliveira dubla Boseman no longa, que faturou US$ 1,3 bilhão, papou três Oscars (os de Trilha Sonora, Figurino e Direção de Arte) e representou uma revolução audiovisual na representatividade das populações negras.

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