A nova transa de Radu Jude com a Berlinale

A nova transa de Radu Jude com a Berlinale

Rodrigo Fonseca

05 de fevereiro de 2022 | 13h56

Um ano depois de conquistar o Urso de Ouro por “Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental” (“Babardeala Cu Bucluc Sau Porno Balamuc”), o romeno Radu Jude regressa ao Festival de Berlim, em sua 72ª edição, agora na competição de curtas-metragens, em filme dirigido em dupla com Adrian Cioflâncă

Rodrigo Fonseca
Onze meses se passaram desde que o diretor romeno Radu Jude recebeu um Urso de Ouro em sua casa, conquistado por “Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental” (“Babardeala Cu Bucluc Sau Porno Balamuc”). E, às vésperas de uma nova Berlinale começar, na próxima quinta-feira, ele estará na competição novamente, desta vez com um curta-metragem, formato em que está sempre criado experimentos, nas franjas entre as artes gráficas, plásticas e a fotografia, como é o caso de “Memories from the Eastern Front”. Seu novo trabalho, codirigido por Adrian Cioflâncă, com direção de 30 minutos, analisa fotos tiradas entre 1941 e 42 que flagram a relação dos exércitos da Romênia com os nazistas em meio a um combate contra tropas da URSS, por conta de uma coligação política oportunista do então governo do país do cineasta. O filme explora o dia a dia do front a partir daquelas fotografias, desterritorializadas a partir de uma série de intervenções feitas por Radu. Em seu curta anterior, “Caricaturana”, exibido em concurso no Festival de Locarno, em 2021, ele fez algo parecido, só que usando desenhos. Era um filme que havia sido terminado em meio aos elogios colhidos por seu longa-metragem vencedor do Festival de Berlim de 2021, uma comédia no qual abordava a pandemia. Nela, uma série de advogados, militares e políticos mascarados julgavam o “cancelamento” de uma professora, cujas peripécias sexuais vazaram na internet.
“Sempre há lugar para expor nossas hipocrisias e sempre é necessário descortinar o humor em nossa garganta, em especial nós, que somos de origem latina”, disse ele ao Estadão, em setembro, em sua passagem pelo Festival de San Sebastián, enquanto preparava “Memories from the Eastern Front” estava saindo do forno.

“Memories from the Eastern Front” concorre na seção Berlinale Shorts

Nascido em Bucareste, há 44 anos, o diretor volta agora com uma homenagem ao cinema e à fotografia. “Desde a década de 1950, quando Antonioni nos deslumbrou com seus filmes sobre a incomunicabilidade, aprendemos que existem duas formas de se praticar o audiovisual e sobreviver. Existe o cinema da imagem pura, que foi o caso perseguido por Robert Bresson. E há o caso de um tipo de cinema onde tudo pode virar linguagem na tela. É um ramo que tem em Godard sua figura mais idiossincrática, capaz de incorporar trechos de livros, caricaturas e até cartazes em sua narrativa, construindo vinhetas. Eu tento ficar nessa segunda seara, para ter um “guarda-chuva” maior e usar os diferentes elementos que a vida me dá, sem uma preocupação de pureza narrativa. O ‘Má Sorte no Sexo’, por exemplo, foi feito assim. Como uma colagem de linguagens”, diz o cineasta.
Com seu humor mordaz, ele resgatou em “Caricaturana” um projeto pouco citado do realizador soviético Serguei Eisenstein (1898-1948). O diretor de “O encouraçado Potenkim” (1925) idealizou um filme utilizando litografias sobre um personagem fictício da prosa e dos palcos franceses – o falsário Robert Macaire – feitas por Honoré-Victorien Daumier (1808 -1879), numa brincadeira com sentimentos. Seria uma espécie de “emicionário”, que traduzisse, a cada desenho, um estado de espírito. Mas Radu se apropria dessas litogravuras e, à luz de Eisenstein, faz uma cartografia de notícias do tempo atual, expressa a partir de textos que alteram a percepção do traço de Daumier.
“Nunca fomos tão dependentes da ideia de que o roteiro é o imperador das narrativas, dando a cada filme uma dimensão didática. Quero atomizar essa dependência entre palavra e ação filmada, dessacralizando o verbo, ironizando um momento histórico onde qualquer letra dita fora de contexto é um pavio aceso”, disse Jude ao Estadão na feitura de “Caricaturana”.
Após o êxito de sua passagem por Berlim e do Urso, o diretor de “Eu Não Me Importo Se Entrarmos Para a História Como Bárbaros” (2018) ganhou status de cineasta autor, fazendo jus à tradição de filmes provocativos da chamada Primavera Romena. O termo nasceu em Cannes, em 2007, quando “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, de Cristian Mungiu rendeu a Palma de Ouro à Romênia, consolidando um movimento que calcado em dramas sociais e comédias rascantes operacionalizados a partir de uma estética altamente realista, sempre referente à corrupções. “Eu sou pai de duas crianças. Ao frequentar uma reunião de escola, eu noto o quanto a vida anda bruta na Romênia e fora dela, pois o diálogo não é possível. Tento dialogar com autores, como Eisenstein, e com o mundo que vive tão avesso à harmonia. Só rindo…”, provoca Radu.

Juliette Binoche e Vincent Lindon estrelam “Avec Amour et Acharnement”, outrora chamado “Feu”, de Claire Denis

Quem abre a Berlinale 2022 é “Peter von Kant”, de François Ozon. Claire Denis é quem mais pode fazer estrago no coração da competição, com o esperado “Avec Amour et Acharnement” (outrora chamado “Feu”). A realizadora de “35 Doses de Rum” (2008) narra um triângulo amoroso em cujos vértices estão Juliette Binoche, Vincent Lindon e Grégoire Colin. Mais esperado do que o novo filme dela só a inusitada volta de Paolo Taviani à Berlinale. Dez anos depois de conquistar o Urso dourado com “César Deve Morrer”, Paolo (que filmou desde 1954 em parceria com o irmão, Vittorio, morto em 2018, aos 88 anos) regressará à capital alemã para brigar por prêmios com “Leonora Addio”. É uma leitura surrealista da obra de Luigi Pirandello (1867-1936) sobre três funerais marcados por bizarrices e sobre as cinzas de um autor morto. Sua presença pode mudar o placar em prol da Itália, dada a potência que o octogenário cineasta sempre imprimiu em seus filmes, como o aclamado “Pai Patrão” (1977).
Podem fazer barulho na disputa a francesa Ursula Meier (“La Ligne”); o austríaco Ulrich Seidl (“Rimini”); o suíço Michael Koch (“A Piece of Sky”, com atores não profissionais em interpretações assombrosas); e o onipresente sul-coreano Hong Sangsoo, que roda dois anos por ano e volta com “The Novelist’s Film”. A América Latina vai brigar por troféus com “Robe of Gems”, uma coprodução entre México e Argentina, de Natalia López Gallardo.

p.s.: Neste sábado, às 15h, tem “Curtindo a Vida Adoidado” na Globo, com o ator Nizo Neto a dublar Ferris Bueller. O filme custou US$ 5 milhões e faturou US$ 70 milhões, tornando-se um clássico absoluto no Brasil, na “Sessão da Tarde”.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.