A navalha de Sweeney Todd volta ao Brasil, afiadíssima, na jugular do teatro

A navalha de Sweeney Todd volta ao Brasil, afiadíssima, na jugular do teatro

Rodrigo Fonseca

29 de setembro de 2016 | 12h46

Montagem de João Gofman na UERJ refaz o mito de Sweeney Todd a partir da dúvida

Montagem de João Gofman na UERJ refaz o mito de Sweeney Todd a partir da dúvida: sessões grátis em outubro, com Dennis Pinheiro no papel central

RODRIGO FONSECA 

Tem Tim Burton novo nos cinemas: O Lar das Crianças Peculiares estreia nesta quinta com um olhar infanto-juvenil para o congraçamento das diferenças a partir de um internato para jovens com superpoderes. Mas a crítica internacional, muito azeda a fabulações, recebeu a pontapés o novo trabalho deste dínamo da fantasia e do surreal, que, há tempos, vem sofrendo com o desprezo da indústria – e mesmo dos fãs. Seu último exercício autoral acolhido com abraços calorosos – por seu virtuosismo – foi Sweeney Todd (2007), um rasga-coração que ganha uma nova vida agora, junto aos brasileiros, nos palcos da Universidade Esatdual do Rio de Janeiro (UERJ). Sua volta se dá numa reencarnação teatral, inspirada pelo libreto de Hugh Wheeler, com as canções gruda-ouvido de Stephen Sondheim, revistas sob a direção (promissora) de João Gofman. Na telona, tínhamos Johnny Depp como o barbeiro; sob a ribalta do Teatro Odylo Costa Filho (em sessões 0800, digratis), temos um talento egresso das Minas Gerais: Dennis Pinheiro com seu vozeirão tonitruante. Tudo isso trabalhando a partir da versão brasileira assinada por Vitor Louzada e Menelick de Carvalho, com orquestrações de Rafael Sant’anna e direção musical e preparação vocal de Gabriela Alkmim, na direção de movimento de um jovem mestre: Jefferson Almeida (ator de Velho Chico). O projeto é fruto das pesquisas do Utópico Coletivo de Teatro, sob as bênção da santíssima trindade formada pelo TERG – Teatro Escola Rosane Gofman, pela Escola Nacional de Circo e pela Specttaculu. Quando passa de novo? Ah… Tem sessões gratuitas dias 5, 6, 7, 10 e 11 de outubro, sempre às 18h30m. É ver para ter prazer.
7 ST Maceió Sweeney Todd

Tem sangue, ok! Mas é sangue cênico, espirrado no imaginário do teatro desde a encenação original do musical em inglês, ocorrida em 1979, na Broadway, com Len Cariou no papel central. O espetáculo era inspirado numa peça, Sweeney Todd, de Christopher Bond, lançada em 1973, com base num folclore londrino compilado como texto em 1846, no conto The String of Pearls. Na trama, Benjamin Barker (vivido aqui por Dennis Pinheiro) ganha a vida na navalha. Mas isso até o Juiz Turpin (Erick Rizental) cobiçar-lhe a mulher e armar um golpe para possuí-la, isolando o barbeiro nas catacumbas do mundaréu. Mas, como there’s no place like London, Barker volta, refeito como Sweenet Todd, anjo da vingança, que fará de sua gilete o instrumento de um genocídio onde a primeira faz tchan… a segunda faz tchum… e o resto… a Morte completa. Porém, Barker/Todd teve uma filha, Johanna (interpretada pelo quindim Roberta Galluzzo), que precisa ser resguardada pelo pai dos males do mundo. O mal maior é o próprio Turpin. Porém, mais afiada do que as lâminas de Todd, embebidas no tétano da revanche, é o objeto pontiagudo chamado Amor, que vai açoitar o peito da menina na forma do efebo Anthony (Caio Passos). É nessa ciranda que os personagens terão de achar sentido em sua jornada regada a coágulos e às tortas de carne de Mrs. Lovett (Jéssica Freitas), aliada de Todd.

“Montar Sweeney Todd, no âmbito do teatro amador, com um grupo que está começando, é uma forma de procurar novas estéticas, com base num contexto de sujeira, onde nenhum personagem se salva do buraco, do que existe de pecaminoso”, diz João Gofman. “A concepção original do espetáculo foi feita em cima de tipos: a puta engraçada, o homem que quer se vingar, o mocinho, a mocinha. Mas tentamos fugir do que há de mais raso nessa tipificação, buscando deixar a dúvida no ar. Que juiz é esse que se diz um bom pai, mas se masturba pensando na filha menor de idade? Que Sweeney Todd é esse que, num momento consegue se sensibilizar, e, noutro, quer matar? O lugar da dúvida parte de uma lacuna a ser preenchida pelo público, como num teatro da imaginação”.

Sweeney Todd
Se a moda da revisão crítica (e estudantil) dos grandes musicais da Broadway ganhou pé no Rio após a antológica montagem de The Book of Mormon, encenada por Rubens Lima Jr. na Uni Rio, em 2014, esta micareta sondeheimiana de Gofman chega para realçar o peso estético desse tipo de exercício para oxigenar as artes cênicas no país – e formar um novo coletivo de estrelas e de artesãos. Salta aos olhos na jira deste Sweeney Todd, por exemplo, a beleza dos figurinos de Evelyn Cirne (um diamante a ser descoberto na renovação dos figurinistas e cenógrafos do nosso teatro). E já ecoam por aí, no burburinho, no boca a boca, o bom desempenho de Jéssica Freitas (na pele da pombajírica Mrs. Lovett), a retidão de Otávio Hudson (como o Bedel Bamford) e o gogó folheado a platina de Santiago Villalba, a quem confiou-se o Sr. Pirelli, com seu elixir para barbear e suas excentricidades imortalizadas no cinema por Sacha Baron Cohen.

“Montar este texto, no atual cenário comercial dos espetáculos musicais, é fugir da comédia, das histórias convencionais de amor e de poesia para falar de uma história suja, mas atual, na qual a Londres de Sondheim, um terreno lúdico, é um espelho para o Brasil de agora”, diz Gofman. “A peça começa e termina com A Tender Tale of Sweeney Todd, que indica ‘Fique atento’ pois você começa o espetáculo torcendo pelo barbeiro, encarando-o como um herói, e, na sequência, passa a se questionar sobre aquela figura. Isso acontece como todos os personagens, numa estrutura de réquiem, sobre o ato de se fazer justiça com as próprias mãos”.    

 

 

 

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