‘A Mulher Que Fugiu’ da Berlinale

‘A Mulher Que Fugiu’ da Berlinale

Rodrigo Fonseca

10 de fevereiro de 2022 | 19h25

RODRIGO FONSECA
Embora as duas principais curiosidades do mundo acerca da 72ª edição da Berlinale, iniciada nesta quinta-feira, até o momento, gravitem em torno a) das severíssimas regras de controle anticovid, com testagens contínuas e b) da potências inegável do filme de abertura, “Peter von Kant”, antigos achados do festival alemão estão vindo à tona, tardiamente, planisfério cinéfilo afora, despertando a atenção do público pra grife do ursinho germânico, o que é o caso, em telas brasileiras, de “A Mulher Que Fugiu”. Enfim chegou em circuito o excepcional “The Woman Who Ran”, do sul-coreano Hong Sangsoo, laureado com o Urso de Prata em 2020, num reconhecimento mais do que merecido às técnicas, aos engenhos e à sabedoria de seu realizador à direção. Aliás, na quarta, ele exibe um título novo aqui, em concurso, chamado “The Novelist’s Film”. É a história de um grupo de pessoas que se movem do centro de Seoul pra periferia.
“Generalizações de sentido, de significados, não me servem. O cinema que eu faço não obedece a nenhuma lógica teórica prévia que engesse o meu senso de descoberta. A questão que me interessa é observar a vida e valorizar aquilo que o momento possa me trazer”, disse Sangsoo ao Correio da Manhã na Berlinale de 2020, onde conquistou o prêmio de melhor direção por “A Mulher Que Fugiu”. “Definições só servem para a minha experiência individual. Não são cinema. Cinema é aquilo que eu encontro quando ligo a câmera e deixo as coisas acontecerem”.
Cozido num banho-maria que contagia, “A Mulher Que Fugiu” (“Domangchin Yeoja”, no original), é um estudo sobre companheirsmo. Parceira de vida e de obra do diretor, a premiada atriz Kim Ninhee vive Gamhee, mulher de um tradutor que, em um dia sem a companhia do marido, vai visitar amigas. Comendo, bebendo, rindo e trocando confidências (numa cena, uma mulher lhe pergunta ‘Você ama seu marido?’ e ela dá um riso azedo e um tempo de silêncio como resposta), Gamhee disseca a lógica mais redentora da desatenção, encarando uma solidão existencial.
“Rodo meus filmes de modo rápido e penso a montagem já na filmagem, pois tento concentrar ao máximo aquilo que desejo contar”, disse Sangsoo, cuja carreira foi catapultada para o sucesso com a vitória de “HaHaHa” na briga pelo prêmio Un Certain Regard de Cannes, em 2010. “Eu não saberia dizer se Gamhee é a ‘mulher que foge’ ou ‘a que corre’ do título. Esse nome me veio à cabeça. Gostei dele e usei nesse contexto. Talvez ele se revele para nós mais adiante”.

Logo no início de “A Mulher Que Fugiu” – talvez a trama mais divertida de sua trajetória recente -, um homem bate na porta da casa onde Gamhee está bebendo com as amigas. A dona da casa abre e escuta o vizinho a reclamar do fato de ela alimentar gatos que por ali passam. Segundo ele, os felinos são predadores. A maneira como a jovem usando retórica e silogismos, rebate os argumentos do sujeito levou Berlim às gargalhadas e a uma salva de aplausos. “Detectei o gato que queria usar, concentrei a câmera nele e rodei o que precisava. Quando se está atento, as respostas nos chegam”, explica o cineasta, que mantém uma média de um longa por ano, às vezes dois, em um período de 12 meses.
No fim deste mês, a MUBI vai exibir dois de seus longas. No dia 26/2, rola “Certo Agora, Errado Antes” (Leopardo de Ouro em Locarno, em 2015) no www.mubi.com. No dia 27, tem o belo “Na Praia à Noite Sozinha”, com o qual sua habitual parceira, Kim Minhee, saiu laureada da Berlinale 2017, com o Urso prateado de Melhor Interpretação.

Denis Ménochet é uma força da natureza em “Peter Von Kant”, de François Ozon

Sobre “Peter von Kant”: Ozon presta uma comovida homenagem ao diretor Rainer Werner Fassbinder (1945-1982) e à história do melodrama. O filme é uma ode ao amor de fossa. Um avassalador Denis Ménochet e Isabele Adjani protagonizam essa releitura de “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant”, peça teatral escrita por Fassbinder em 1971 e filmada por ele mesmo em 1972. No original, Petra era uma estilista que se apaixonava por uma moça que a esnobava. Aqui os gêneros são invertidos. Petra vira Peter (Ménochet, magistral) e passa de Yves Saint Laurent a Murnau. Não se trata de um ás da moda e, sim, um cineasta. Cineasta de muito sucesso, que cai de amores por um garotão (Khalil Ben Gharbia, canastra toda vida), a quem lança como astro. A paixão vai ser sua ruína, como acontece com muitos personagens de Ozon, numa trajetória autoralíssima, que Berlim já acolheu múltiplas vezes. Em 2019, ele saiu da Alemanha com o Grande Prêmio do Júri por “Graças a Deus”. Seu novo longa é maduro em suas escolhas dramatúrgicas – e em seu diálogo com o teatro – mas é acanhado no trato com os códigos cinemáticos. Mas Ménochet bagunça o coração da plateia.

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