A MUBI só cresce, na ‘Alfazema’, na ‘Raiva’

A MUBI só cresce, na ‘Alfazema’, na ‘Raiva’

Rodrigo Fonseca

29 de setembro de 2020 | 10h33

Vidas secas se amontoam na “Raiva” de Sérgio Tréfaut, escalado para a MUBI

Rodrigo Fonseca
Como viver sem a MUBI, canteiro de curadoria humanizada de cinema autoral que finaliza setembro com um marco da resiliência homoafetiva em sua grade: “Buddies” (1985), de Arthur J. Bressan Jr. (1943-1987), essencial para a representação da luta contra a Aids. Tem pérolas a granel agendadas para o mês que vem, começanço já no dia 1º, com “Barreiras”, de Laura Schroeder, e terminando no dia 31/10 com a sensação de Tribeca 2019: “Swallow”, pelo qual Haley Bennett ganhou o prêmio de melhor atriz no papel de uma mulher com compulsão por engolir objetos. No dia 16, a joia dessa coroa vem do Brasil, o curta “Alfazema”, de Sabrina Fidalgo, laureado com o Candango de Melhor Direção em Brasília no ano passado com sua mirada sinestésica e metafísica para o Carnaval, com Elisa Lucinda no papel de Deus. Presidente do júri de Gramado, Sabrina é hoje a diretora de mais ascensão (em termos de prestígio e em termos de vigor criativo) no país, filmando e escrevendo com cada vez mais contundência. Entre as atrações que a rede de streaming (www.mubi.com) ativa há 12 anos e hoje operante em 200 territórios – no Brasil, ela é gerenciada por Juliana Barbieri – separou para outubro, a língua portuguesa tem espaço nobre, esculpida nas formas de uma crítica social com “Raiva”. Dia 7, a coprodução Portugal-Brasil-França dirigida por Sérgio Tréfaut (“Teblinka” e “Alentejo, Alentejo”) entra para o cardápio desse canal de iguarias cinéfilas. Em 2019, o longa-metragem passou pelo nosso circuito, atraindo elogios de múltiplas latitudes. É um estudo das microfísicas da dominação.

Folia autoral: “Alfazema” faz de Sabrina Fidalgo uma das mais potentes diretoras do Brasil na atualidade

Gracilianamente trágico em sua mirada para a exploração de um universo rural, o filme tem uma secura à altura da aspereza do escritor de “Memórias do cárcere” e seu correspondente audiovisual, na obra de Nelson Pereira dos Santos. Mas há também algo do húngaro Béla Tarr (de “O Cavalo de Turim”) em sua forma de depurar a imagem. Rascante, “Raiva” disseca poeticamente, em seu PB sombrio, sem sociologices, as seculares estruturas de poder e forma de resistência que fazem da miséria um meio de controle. O que se vê de Portugal neste curtíssimo, mas exasperante trabalho de Tréfaut é uma espécie de fantasmagoria: mesclam-se sombras de um cinema ancestral, meio Carl T. Dreyer (“A palavra”), meio Aleksandr Dovzhenko (“Terra”), em uma combinação do alucinatório de um com o realismo exasperado do outro. Temos, de um lado, a pobreza e a lei dos latifúndios do campo. Temos, do outro, um camponês de espingarda na mão, Palma (Hugo Bentes), a buscar justiça como um pistoleiro solitário. Entre essas instâncias, há um romance, “Seara do vento”, escrito por Manuel da Fonseca, que media a reflexão sobre as armadilhas do trágico… o trágico como uma baliza da lógica institucional da contradição financeira.

Nascido em São Paulo, sob ascendência lusa, Tréfaut, hoje um dos mais requintados poetas da imagem do cinema português, utiliza a gramática de Manuel e sua experiência prévia como documentarista para poder produzir uma espécie de “Vidas secas” alentejano, reconstruindo o espírito da primeira metade do século XX como se fosse algo milenar, e universal. Seu fotógrafo, Acácio de Almeida, dá aos enquadramentos (à la Tarr) uma beleza singular, mas asfixiante, retratando a natureza como um palco para brutalidades que são delineadas por silêncios e pelo onipresente uivar da ventania. Nessa paisagem quase expressionista, nasce um anti-western: cansado de ser oprimido, Palma pega em armas para reagir. Mas sua conversão em justiceiro, ao matar seus opressores, gera um fardo de ódio que sua família não é capaz de suportar. Não é um filme sobre a transcendência pela pedra, e sim sobre os grilhões da fome. Sua aquisição pela MUBI só potencializa os encantos da streaminguesfera nacional.

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