A missa do domingo em Cannes é à luz de Malick

A missa do domingo em Cannes é à luz de Malick

Rodrigo Fonseca

18 de maio de 2019 | 22h15

Rodrigo Fonseca
Deus liberou um de seus mais ardorosos fiéis, Terrence Frederick Malick, para se lambuzar dos assuntos da Terra, entre os mortais, em seu novo filme, “A Hidden Life”, que Cannes vai conferir neste domingo, entre os 21 candidatos à Palma de Ouro de 2019 – “Dor e Glória”, de Pedro Almodóvar, é o queridinho da crítica até o momento. Estima-se que, pela primeira vez desde 1978, Malick virá ao balneário francês para conversar com a imprensa. E tem razões para isso.

Rodado em 1969, com Harry Dean Staton e Warren Oates no elenco, Lanton Mills completa 50 anos em 2019, o que totaliza cinco décadas de carreira para seu mítico realizador, o ermitão Malick. Em meio à efeméride, Cannes vai servir de plataforma à estreia mundial do novo longa-metragem do diretor de A Árvore da Vida (Palma de Ouro de 2011). De verve transcendentalista, o cineasta se debruça uma vez mais sobre  II Guerra Mundial – tema de seu aclamado Além da Linha Vermelha, Urso de Ouro de 1999 -, só que, agora, a batalha é vista sob a perspectiva do lado germânico não hitlerista. Chamada originalmente de Radegund, esta coprodução EUA e Alemanha tem como protagonista o ator August Diehl (de “O jovem Karl Marx”). Ele interpreta o fazendeiro austríaco Franz Jägerstätter, um mártir das lutas de oposição ao nazismo, que combateu o Eixo nas regiões rurais de seu país, mobilizando a juventude local.

Objeto de devoção na Áustria, considerado um santo por alguns aldeões, Jägerstätter foi assassinado pelas tropas de Hitler em 1943 e, anos depois, acabou sendo beatificado pela Igreja Católica. O agricultor cruza o caminho de um oficial do exército alemão também em crise, Herder (vivido pelo belga Matthias Schoenaerts), enquanto inventa estratégias para resistir às forças nazistas. O prestígio de Malick serviu como um ímã para atrair mitos germânicos dos palcos e das telas como Bruno Ganz (Asas do Desejo) e Jürgen Prochnow (Das Boot), que integram o elenco do longa. A fotografia é de Jörg Vidmer (de V de Vingança) e não de Emmanuel Lubezki, parceiro habitual de Malick, que lançou no último Festival de Veneza uma versão estendida de A Árvore da Vida com 188 minutos (e não com os 139 minutos originais).

É o projeto mais intimista do cineasta e, ao mesmo tempo, o mais esperado pelo mercado, por representar uma ruptura com as narrativas mais filosóficas e messiânicas de seus últimos filmes, como “De canção em canção”, lançado ano passado sob vaias.  Há uma expectativa de que “Radegund” possa abrir os trabalhos em Berlim, na briga pelo Urso dourado. A estreia está prevista para março, em solo europeu – mas nada foi oficializado. Tudo em Malick é cercado de segredo.

 

Em Malick, a Natureza é a onipotência em estado puro, só que esta é tratada a partir de contornos messiânicos, num reflexo de sua formação pelo transcendentalismo, expresso em ensaístas como Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau. O ideal transcendental desses autores escorre por Malick, lido à luz e ao ethos do Romantismo, seja pela evasão (no tempo, no espaço ou na metafísica) seja pelo tratamento quase divino dado ao Amor.

Analista da dicotomia entre inocência e hipocrisia, Malick sempre arquiteta tomadas belíssimas da natureza – como os campos de trigo de Cinzas no Paraíso, de 1978 -, reflexões existenciais – abundantes na Segunda Guerra de Além da Linha Vermelha, pelo qual ganhou o Urso de Ouro em 1999 – e licenças poéticas atípicas em Hollywood – como as da América do século XVII de Um Novo Mundo, de 2005. Outra marca: a cada filme que roda, uma multidão de astros do mais alto quilate se oferece a trabalhar para ele a cachês módicos. Sean Penn é seu maior entusiasta. Na estreia de A Árvore da Vida, ele chegou a dizer que não havia entendido bem o roteiro, mas que valia encará-lo para estar como um mestre daquele porte ao seu lado. Mesmo nos trabalhos em que foi recebido com frieza ou desdém, vide Amor Pleno (2012) e Knight of Cups (2015), Malick continuou sendo respeitado como um artesão da imagem. Até o mais ácido cronista do cinema americano, o jornalista Peter Biskind, autor de Easy Riders, Raging Bulls – Como a Geração Sexo-Drogas-Rock’n’roll Salvou Hollywood, foi capaz de render elogios ao diretor em uma entrevista à Metrópolis. “Depois de ter desafiado as convenções de roteiro dos EUA em dois marcos dos anos 1970, Malick simplesmente desapareceu, para se dedicar a dar aulas de Filosofia, o que muitos interpretaram como uma recusa de se submeter aos vícios de Hollywood. Certo ou errado, Malick passou a ser visto como marco de integridade artística numa indústria que valoriza pouco o que é íntegro”.

Durante anos a fio, o cineasta filmou com hiatos enormes. Mas, a descoberta das câmeras digitais alimentaram seu gosto por voltar aos sets ou de remexer em imagens de arquivo.

No sábado, a competição deu espaço nobre à ficção policial e a retratos do submundo com dois thrillers impecavelmente bem dirigidos. Da China veio “The Wild Goose Lake”, de Diao Yinan, que retrata a ação de maneira virtuosa ao narrar os esforços de uma mulher para entregar um criminoso em fuga para seus detratores e, com isso, libertar-se de suas dívidas. Da Primavera Romena chegou “La Gomera” (cujo título em tradução livre seria “Assobiadores”), novo filme do hilário Corneliu Porumboiu (de “O tesouro”), que merecia, com pompas, um prêmio de melhor roteiro por sua habilidade de driblas convenções do cinema noir. O ótimo ator Vlad Ivanov, o Ricardo Darín lá da Romênia, visto como o abortador Sr. Bebê de “4 meses, 3 semanas e 2 dias” (2007), é um policial vendido para a máfia que aprende uma língua diferente falada por uma célula criminosa da Espanha: um idioma de assobios. Catrinel Marlon, no papel da femme fatale Gilda, é o destaque do elenco.

Atraído pela passagem de Jesse Eisenberg (de “A rede social”) pela Croisette, P de Pop acabou parando no filme mais esquisito de toda a 72ª edição de Cannes até agora, em competição na Semana da Crítica: “Vivarium”, de Lorcan Finnegan. Espécie de episódio estendido de “Além da imaginação” ou de “Black Mirror”, o longa-metragem escala Imogen Poots e Eisenberg como um jovem casal que, em busca da casa ideal, acaba preso em uma realidade paralela, num condomínio onde tudo soa artificial, inclusive as nuvens no céu. Lá, eles são obrigado a cuidar de um bebê mutante (!) que fala com voz de adulto (!!) e apresenta inchaços no pescoço com a entrada do ar.

Neste sábado, em suas mostras paralelas, Cannes recebeu um comovente retrato do passado de Cabul na seção Quinzena dos Realizadores, trazida pela diretora afegã Shahrbanoo Sadat: “The Orphanage” (“O orfanato”). Em seu enredo, que se passa nos anos 1980, um menino órfão apaixonado por cinema indiano é levado para um abrigo soviético, onde precisa lutar por sua identidade.

Neste domingo, a Quinzena vai receber um de seus longas mais esperados, sobretudo depois que um de seus protagonistas, o inglês Robert Pattinson, foi anunciado como o novo Batman: o suspense psicológico “The Lighthouse”. No filme, o astro da franquia “Saga Crepúsculo”, já confirmado para viver Bruce Wayne em “The Batman” (2020), e Willem Dafoe  estão ligados a um farol que abriga mistérios.

No dia 25 de maio, o festival chega ao fim, com a entrega de prêmios e a projeção do filme de encerramento: a comédia motivacional “Hors norme”, com Reda Kateb e Vincent Cassel.

 

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