A mil por hora, ‘Bad Boys Para Sempre’ é um achado

A mil por hora, ‘Bad Boys Para Sempre’ é um achado

Rodrigo Fonseca

21 de janeiro de 2020 | 06h50

RODRIGO FONSECA
Por demandas familiares, após a chegada de um netinho, o detetive Marcus Burnett resolve se aposentar, sem levar em consideração a necessidade que seu parceiro de distintivo (e de fé), Mike Lowry, tem de sua presença, indo se aboletar no sofá de sua casa, para ver telenovelas. Na modorra do lar, ele quebra um ventilador, queima o disjuntor de luz e leve um bebê para as mais inapropriadas situações, demonstrando sua inaptidão para ser avó. Nada mais corriqueiro e demasiadamente humano, sempre atento aos folhetins de sua TV. Com lançamento no Brasil marcado para o dia 30, “Bad Boys For Life”, que estreou no fim de semana nos EUA – com um faturamento de US$ 112 milhões, arrecadado em apenas três dias, lá e em um punhado de países – vibra nessa toada, a da vida como ela é… ou como a teledramaturgia nos fez crer que ela seja. Burnett dá a Martin Lawrence um espaço pra brincar de Jack Lemmon: gente como a gente, ele analisa as coisas simples (outras nem tanto) da vida, enquanto tenta levar uma rotina de paz. Mesmo seu companheiro de armas, Lowry – um personagem que devolve ao cinquentão Willard Carroll “Will” Smith Jr. um viço apolíneo há muito perdido – é engolfado por essa marola de “deixa a vida me levar”. Só que pra ele é mais difícil, uma vez que há um assassino em seus calcanhares neste terceiro tomo da franquia criada por Michael Bay (“A Rocha”) em 1995, e hoje (bem) confiada aos realizadores Adil El Arbi e Bilall Fallah. É, no mínimo, avassalador o modo como eles refrescam uma grife que já soma um quarto de século sobre os ombros, não apenas pelo combustível de adrenalina em seu sangue, mas por seguirem uma marcha oposta ao politicamente correto e castrações afins. E é, ainda, uma narrativa de afirmação e inclusão, essencial a um tempo em que as lutas raciais nos EUA (e no mundo) elevam cada vez mais suas vozes (com toda a razão) contra a opressão e as práticas sectárias. Vale lembrar que a (hoje) trilogia nasceu no torvelinho histórico dos protestos contra o espancamento do operário Rodney King, pela Polícia de LA, em 1991. O episódio, somado a reflexões inerentes a I Guerra do Iraque, fizeram da correção política uma filosofia, que, atualmente, costuma ser empregada nem sempre para a meta que almejava: a integração das gentes. Mas “Bad Boys Para Sempre” toca no bloco do humanismo.

Burnett e Mike em ação

Em meados dos anos 1990, quando Bay dirigiu o primeiro longa com Burnett e Lowry – orçado em US$ 19 milhões o projeto faturou US$ 141 milhões -, saindo da condição de “realizador de videoclipes” para o posto de “promessa da direção”, a jornalista brasileira Ana Maria Bahiana publicou um ensaio analítico riquíssimo sobre o contexto industrial e social do projeto. Ela dizia que Smith e Lawrence chegavam para dar continuidade a um legado heroico descolado aberto por Eddie Murphy, que tinha a função de dar a plateias negras um herói com os quais elas se identificassem diretamente, sem passar por um arquétipo WASP. Murphy, a quem os Oscars ignoraram em seu magistral desempenho em “Meu Nome É Dolemite”, foi a gênese do que os “Bad Boys”, a marca, tornou-se: ou seja, uma inspiração para novos espectadores. Era uma porta aberta para novos talentos afrodescendentes e também para latinos hispânicos. E, aqui, na constante referência do longa de Adil e Billal ao espírito folhetinesco das novelas, a latinidade ganha múltiplos corpos, olhares e brilhantismos, como é o caso da mexicana Kate Del Castillo (de “A Rainha do Sul”), em memorável participação como a vilã Isabel Aretas; ou como é a situação do matador que espreita Lowry, Armando, vivido pelo inglês com DNA das Guianas Jacob Scipio; ou ainda a situação de Paola Nuñez, também do México, que se desenha como “o” achado do longa, no papel da policial Rita.

Antenado ao passado arquietatado por Bay nos dois primeiros filmes (o segundo, de 2003, custou caro, US$ 130 milhões, mas arrecadou US$ 273 milhões), “Bad Boys Para Sempre” faz uma jornada por uma Flórida que fala mais espanhol do que inglês cartografando modos de viver, de sobreviver, de subsistir e de burlar normas. Existem populações diversas, juntas, e existe dois heróis que tentam manter a ordem numa terra que sempre foi açoitada pelo desajuste financeiro. Numa sequência, Burnett diz a Lowry: “Eu jurei a Deus que, se você sobrevivesse, eu nunca mais ia fazer nada violento”. A resposta: “Violência é o que a gente faz”. A frase soaria irresponsável, mas, na triagem de microfísicas da brutalidade institucional que Adil e Billal fazem, a expressão abre a deixa para um debate histórico, que desce de modo indigesto, mas necessário, como eram as sequências à la “New Jack City” de “Pantera Negra” (2018). Ryan Coogler, que dirigiu a epopeia africana da Marvel, vem do mesmo gene que nos trouxe os “Bad Boys”. E, nele, também havia uma centelha de melodrama… a tragédia que caiu do Olimpo e se assentou nas periferias.

Isabel (Kate Del Castillo) encara Lowry (Will Smith) na sequência do sucesso de 1995

Só que o melodrama aqui vai numa ordem mais Gilberto Braga (que bom!): Isabel Aretas e Armando querem matar Lowry a todo custo, por uma desatenção cometida por ele há duas décadas, só que o esteio moral do herói, Burnett, está cansado de guerra. Com esse enredo de “Dancin’ Days”, Adil e Billal criam uma montanha-russa que, de descida em descida, inaugura uma exposição de tônus político inclusivo, bem encaixado na narrativa graças à montagem de Dan Lebental e Peter McNulty. A (impecável) edição de som pavimenta a estada de excelência do filme, que joga com cores e luzes saturadas na fotografia de Robrecht Heyvaert, que amplia a altivez da figura de Aretas e sua monumental Kate Del Castillo. E, se é uma novelona, Joe Pantoliano, de volta ao papel do sábio capitão Howard, funciona como um Elias Gleizer para este “Vale a Pena Ver de Novo”. Filmaço.

No Brasil, Mauro Ramos dubla Lawrence e Márcio Simões empresta o gogó a Smith.

p.s.: Laureado com o Oscar de melhor roteiro adaptado por “Me Chame Pelo Seu Nome” (2017), o diretor californiano James Ivory (de “Uma Janela Para o Amor”) tem sua obra dissecada pela Cinémathèque Française, numa retrospectiva que segue até 15 de fevereiro, em Paris.

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