‘A Mentira’, injeção de vida nas veias do riso

‘A Mentira’, injeção de vida nas veias do riso

Rodrigo Fonseca

04 de janeiro de 2020 | 16h08

Rodrigo Fonseca
De tempos em tempos, a França elege algum(a) expoente de sua dramaturgia como bússola estética a ser seguida, como se viu, da década de 1990 para cá, com Jean-Luc Lagarce (1957-1995), Christophe Honoré, Yasmina Reza e, agora, com Florian Zeller, autor de “Le Mensonge”, texto de 2014 vertido deliciosamente para os palcos brasileiros pelo pirilâmpico Miguel Falabella de Sousa Aguiar. Em cartaz no Rio de Janeiro, no Oi Casa Grande, a peça – um bálsamo para maxilares sedentários diante da falta de riso – joga holofotes sobre a carpintaria dramatúrgica de Zeller no momento em que ele prepara sua estreia nos cinemas, como realizador. Dramédia sobre novos arranjos familiares, “The Father”, o primeiro filme dele como diretor, vai estrear nos EUA dia 27 de janeiro, no menu do Festival de Sundance. Especula-se que seguirá de lá para a 70ª edição da Berlinale (20 de fevereiro a 1º de março), ancorando-se na atuação de Anthony Hopkins. Depois de seu desbunde em “Dois Papas”, o astro galês parece estar em um novo apogeu, algo que não se via desde a fase pós “O Silêncio dos Inocentes” (1991). No longa de Zeller, ele vive um pai amargurado com seu passado, incapaz de dar à sua filha (a genial Olivia Colman) uma brecha para diálogos, criando para si um refúgio na ilusão. Esse é, não por acaso (acaso autoral), o assunto de “A Mentira”, nova joia da obra de Falabella. Na atual encenação, houve uma troca de elenco, saindo Karin Hils e entrando Alessandra Verney. Parceira habitual de Miguel, Verney faz jus à sua antecessora, soprando sua elegância habitual (expressa em sua voz de sorvete de morango) no moinho de vento construído com pás de Feydeau no palco do Casa Grande, no Leblon.

“Le Mensonge”, em sua versão nos palcos da França, com Evelyne Bouix e Pierre Arditi

Na montagem original francesa de “Le Mensonge”, Pierre Arditi e Evelyne Bouix faziam os papéis desempenhados agora – na margem da gargalhada – por Falabella e Zezé Polessa. Esta parece retomar (e reinventar) elementos de sua (magistral) composição em “Quem tem medo de Virginia Wolf”, encenada em 2014, em especial na habilidade em resvalar no desatino. Em cena temos um jantar a ser realizado entre casais: Miguel + Zezé e La Verney (sublime a cada fraseado) + Frederico Reuter (agudo na ironia). O cardápio: delicadeza com taças de Château Baby. Mas a anfitriã, encarnada no fio da navalha por Zezé, parece saber de uma infidelidade do convidado vivido por Frederico. Transbordando nervosismo, ela ameaça entornar o caldo do pudim azedo que é o desconforto. Seu marido – uma figura que Falabella esculpe indo da subserviência bovina à individualidade mais rascante – se desespera com a tragédia anunciada e faz de tudo para manipular o diálogo. Dessa manipulação, que evolui para lavações de roupa suja com o Omo da hipocrisia, borbulha um ensaio sobre o maquiavelismo na microfísica do amor. Ensaio que Falabella cozinha à fervura máxima da taquicardia, arrancando quilos de risos dos espectadores. É uma de suas melhores atuações nos palcos.

p.s.: Corre pela Europa um rumor de que o novo longa-metragem do italiano Nanni Moretti, a dramédia “Tre Piani”, também chamado de “La Nostra Strada”, vá fazer sua estreia mundial na 70ª Berlinale, agendada de 20 de fevereiro a 1º de março. Estima-se que o filme vá integrar a seleção de concorrentes do Urso de Ouro de 2020, apoiado no esforço da recém-empossada dupla de curadores do evento alemão, Mariette Rissenbeek e Carlo Chatrian, para ampliar a potência pop da mostra competitiva. A produção pilotada pelo diretor de “Caro Diário” (1993) é baseada em romance do israelense Eshkol Nevo sobre um grupo de pessoas, de índoles distintas, confinadas em um mesmo condomínio de Roma. Riccardo Scamarcio, Alba Rohrwacher e o próprio Moretti estão no elenco da longa.

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