‘A Melhor Escolha’ de Linklater: falar da América

‘A Melhor Escolha’ de Linklater: falar da América

Rodrigo Fonseca

13 Janeiro 2018 | 13h53

Bryan Cranston, Steve Carell e Laurence Fishburne cruzam a América numa cerimônia do adeus em “A Melhor Escolha”, novo e tocante trabalho do diretor de “Boyhood”

Rodrigo Fonseca
Faltam cerca de dez filmes para sabermos qual será a lista de concorrentes ao Urso de Ouro do 68º Festival de Berlim (15 a 25 de fevereiro), mas, enquanto os alemães não resolvem sua seleção, Cannes sai na frente e abre uma série de especulações acerca da escolha de Richard Linklater para abrir os trabalhos na Croisette este ano, com seu Where’d You Go, Bernadette. Sua protagonista é Cate Blanchett, que presidirá o júri cannoise de 2018, de 8 a 19 de maio. Enquanto nada disso se confirma, ficamos nós, aqui pelo Brasil, com a estreia do último longa-metragem deste existencialista, sempre debruçado sobre a arte de se acomodar rotinas, surpresas e traumas: Last Flag Flying. No circuito brasileiro, a produção vai se chamar A Melhor Escolha e chega por estas bandas no finzinho deste mês, via Imagem Filmes, apoiado no carisma de Bryan Cranston, Steve Carell e Laurence Fishburne. Este tocante novo exercício de dramaturgia do realizador de Boyhood (2014) é filme de autor e filme de ator, graças à interação equalizada entre os três. A trama parece ser uma espécie de parte dois para um cult do pacifismo a década de 1970: A Última Missão, de Hal Ashby. O original passou por Cannes em 1974 e saiu de lá com a láurea de melhor ator para Jack Nicholson. Ele vivia o marinheiro Buddsky, empenhado em levar um jovem desertor (Randy Quaid) para a prisão, com a ajuda do colega de farda Mulhall (Otis Young). Ambos os filmes tem por base a literatura do escritor Darryl Ponicsan, um especialista no universo militar.

Na trama original, os três cruzavam o país, enquanto o rapaz, chamado Meadows, fazia o possível para quebrar o padrão subserviente e conservador de seus captores. Com seu jeitão beberrão e brigão, Buddusky aprendia a enxergar as contradições sociais dos EUA e a desafiar os ditames das Forças Armadas, enquanto Mulhall aprendia a brigar pelos ideias negros, desafiando o racismo de que era vítima. Em A Melhor Escolha, ambientado na era George W. Bush, no início dos anos 2000, em meio à caçada a Saddam Hussein, Linklater deu ao eterno Walter White de Breaking Bad um tônus e um ethos similar ao que Nicholson tinha, tendo Carell emulando as inquietações morais de  Meadows e confiando a Fishburne toques de Mulhall. Os nomes mudaram, para dar um ar de novidade. Meadows virou Doc. Vivido por um Carell sem seus faniquitos habituais, um homem em luto pela morte do filho do front, que resolve arrastar o cadáver do garoto, da Costa Leste dos EUA a New Hampshire, com uma ajuda dos velhos colegas de farda: Sal (Cranston, numa atuação contagiante) e Mueller (Fishburne), agora um reverendo. O tempo passou para eles e para a América, mas Sal prefere não acreditar nisso completamente.

Como de costume, a palavra é a vedete da estética de Linklater: tudo existe pelo verbo, sejam de ação ou de estado. Conversa-se sem parar no cinema que ele faz, vide Antes do Amanhecer (1995) e seus derivados. Nem sempre os verbos resolvem situações nas narrativas de planos médios ou closes do cineasta, aqui com planos-sequência bem sazonais. Mas a saliva que se produz em suas histórias vira água benta, sacralizando o direito à dúvida, à fragilidade, ao erro. Em A Melhor Escolha fala-se de Vietnã, de carraspanas inesquecíveis, de ereções (o melhor diálogo do filme) e do sentido de sair pelo mundo afora tremulando a bandeira dos EUA. É um filme sobre o luto, sobre perdas que não podem ser amenizadas com desculpas. Cicatrizes continuaram na alma de seus personagens ao fim da jornada, mas elas estarão secas, menos ardidas. A amizade serve de Merthiolate às feridas da vida.

O filme mais recente de Linklater foi a deliciosa comédia universitária Jovens, Loucos e Mais Rebeldes (2016). Ele prepara ainda um projeto com Robert Downey Jr., que, há dez anos, não faz outra coisa que não ser o Homem de Ferro, desperdiçando seu múltiplos talento em um só (ótimo) personagem.