A Marvel que se cuide: Guará chegou pra ficar

A Marvel que se cuide: Guará chegou pra ficar

Rodrigo Fonseca

03 de junho de 2019 | 14h05

Rodrigo Fonseca
Desde que Marcelo Cassaro lançou “U.F.O. Team”, no fim dos anos 1990, no auge da cultura RPGística e no fervor de “Arquivo X”, não se vê, no Brasil, uma iniciativa tão potente (tanto em dramaturgia, quanto em planejamento mercadológico) para o desenvolvimento de uma linha nacional de HQs de heróis quanto o trabalho atual da Guará Entretenimento, na esteira do cult O Doutrinador. Já estão nas bancas dois quadrinhos que não deixam desejar, em nada, na disputa por território com os gibis Marvel e DC: “Pérola” e “Santo”. Se o jornaleiro aqui de Bonsucesso fizer valer sua palavra, até o fim desta segunda, um terceiro título do selo editorial de Gabriel Wainer e Luciano Cunha caem nas mãos do P de Pop. Apoiado na visceralidade dos desenhos de Péricles Júnior, a afirmação do feminino que se faz nas aventuras em tom de thriller de Pérola evoca o Luc Besson de “Nikita: Criada para matar” (1990), esbanjando dor na composição tridimensional no perfil de sua protagonista. Wainer escreve os roteiros a quatro mãos com a escritora Kika Hamaoui (cujo livro “Teus navios são tuas coragens” é um dos mais poéticos exercícios literários publicados no Brasil nos últimos anos), apostando em uma  protagonista com força e agilidade amplificadas. O primeiro tomo de suas peripécias se concentra numa jornada de saída do inferno do comercial sexual em nome do amor fraterno (quase maternal) por uma jovem. A lembrança de Anne Parillaud, a musa de Besson, vem à tona a cada quadro. Já “Santo”, um desbunde no controle de cor, com um traço de Mikhael Raio Solar que evoca Paul Gulacy (de “Conan – A Caveira de Set”), mostra um Zé Pilintra de periferia, às voltas com a Jihad carioca que destrói terreiros de Candomblé e Umbandá pelo RJ. É um texto sofisticado, que mistura reflexões sobre liberdade religiosa com um debate acerca da falência da segurança pública no Brasil. Tem até citação de Sêneca na epígrafe. São duas leituras da maior qualidade. Ansioso pela parte dois, três, quatro….

Tendências: