A malta de Michel Gondry no MUBI

A malta de Michel Gondry no MUBI

Rodrigo Fonseca

10 de outubro de 2019 | 10h35


Rodrigo Fonseca
Baú do tesouro para fãs de estéticas radicais, indo de Jean Renoir a Roger Corman, passando por Joris Ivens e Gustavo Vinagre, o MUBI, streaming dedicado a filmes autorais que passam a léguas do trópico das convenções formais, hoje acolhe, em sua grade, um filmaço de Michel Gondry que nunca chegou ao circuito brasileiro. “The We and the I”, traduzido em português (à portuguesa) como “A malta e eu”, é um dos trabalhos mais viscerais do diretor de “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (2004), atualmente envolvido com a feitura de clipes dos Chemical Brothers e de Matthieu Chedid. Exibida por aqui no Festival do Rio, há sete anos, a produção integra o menu www.mubi.com, na seção dedicada à Quinzena dos Realizadores de Cannes. Idealizado pelo cineasta francês em 1992, época na qual ele despontava como realizador de videoclipes, o projeto foi rodado em Nova York ao longo de 20 dias, com atores adolescentes não profissionais. Na tela, a turma improvisa diálogos sobre descoberta do sexo, exclusão social, lealdade e memória, o tema central de Gondry, hoje com 56 anos. Seu último trabalho mais narrativo no audiovisual foi a série “Kidding”, para a Amazon, com Jim Carrey.
Ambientado no interior de um ônibus do Bronx, “A malta e eu” virou filme-sensação na Croisette em 2012, capaz de dialogar com o público pelas vias do humor ao mesmo tempo em que experimenta linguagens, brincando com imagens do YouTube. “Trabalhar com jovens, em um esquema narrativo que aposta na criatividade, é algo que me ajuda a envelhecer mais devagar. Como fui um jovem muito tímido, eu me identifico com as inseguranças de muitos deles. E há algo nesse dispositivo que encontramos aqui, juntos… a garotada e eu… que bebe das lições que aprendi da vida filmando documentários, num caminho de observação”, disse Gondry num papo antigo com o P de Pop.
Pouco depois de sua incursão na nata industrial de Hollywood com “Besouro Verde”, lançado em 2011, o diretor começou a fazer “A malta e eu” inspirado nas recordações de uma época em que andava muito de ônibus e escutava as conversas dos jovens. Na direção, ele deixou o elenco juvenil improvisar diálogos e situações dramatúrgicas diversas, chegando a uma tensa sequência em que um casal gay discute seu relacionamento, nas raias do soluço. “Nosso roteiro não ia além de 20 páginas e ele dependia da interação de todos, como o título original em inglês, ‘O Nós e o Eu’ sugere”, explica Gondry. “Temos aqui um filme sobre a anulação da individualidade nas trocas do coletivo. Nisso, ele busca o sentido mais democrático de ‘popular’, de cinema popular, feito com a massa”.

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