A madrasta Isabelle Huppert assombra Tribeca

A madrasta Isabelle Huppert assombra Tribeca

Rodrigo Fonseca

27 de abril de 2019 | 11h48

Lou de Laâge corteja Isabelle Huppert em “Blanche comme Neige”, de Anne Fontaine

Rodrigo Fonseca
Qualquer festival de cinema internacional que se preze precisa ter Isabelle Huppert em suas telas, como Tribeca, aqui numa chuvosa Nova York, terá neste sábado, com a projeção da comédia de tons cítricos “Blanche comme neige”, de Anne Fontaine, em sua competição de longas-metragens de idiomas variados. Não há como se mexer nesta máxima das mostras do audiovisual, pois, onde a diva francesa passa, ela chega causando e abrindo debates. Traduzido nos EUA como “White as snow”, numa referência direta à fábula da Branca de Neve, o novo filme da atriz e diretora de “Coco antes de Chanel” (2009) põe Isabelle como a madrasta má da jovem Claire (Lou de Laâge). Só que nesta revisão crítica – e feminista – de Anne, todas as ruindades que a Branca das Neves, no caso Claire, deveria sofrer ficam para segundo plano. O que conta aqui é o empoderamento da jovem e sua descoberta do desejo e da arte de mexer com a libido de homens e mulheres. Lançado há duas semanas na França, o longa vem sendo aplaudido por seu revisionismo das discussões de gênero

“Estamos vivendo um momento feliz de diversidade”, disse Isabelle ao P de Pop em Cannes, quando o trabalho com Anne começou. “Estou na estrada há tempos e já trabalhei com muitos olhares estéticos distintos sobre a vida. A cada trabalho, tento tirar um pouco de cada um para crescer como artista, como faço ao filmar com Anne. Não vejo nenhum cineasta, homem ou mulher, mesmo os mais renomados, como professores com quem você toma loções: diretores são parceiros de construção, de quem você toma emprestado olhares sobre o mundo. São meus colegas de estrada. Pavimentamos obras juntos. Cada papel, leva a gente a territórios diferentes do que somos”

Em maio, ela volta à Croisette com “Frankie”, de Ira Sachs, na briga pela Palma de Ouro: ela vive a matriarca de uma família americana que se encontra em Portugal. A fotografia é do genial Rui Poças.

“Atuar em inglês é algo que já faço deste o fim dos anos 1970. Eu já havia feito coisas de muita qualidade em Hollywood, como “O Portal do Paraíso”, do talentoso Michael Cimino, que sofreu muito pelo fracasso daquele belo filme. Fiz umas coisas bem estranhas também por lá, como “Huckabees – A Vida é uma Comédia”, com Dustin Hoffman”, lembra Isabelle. “Cada experiência, seja onde for, é um aprendizado”.

Definido injustamente, por anos a fio, como um dos piores filmes da História, “Showgirls”, um  marco do erotismo nas telas, lançado (e achincalhado) em 1995, vai ganhar uma revisão crítica capaz de redimi-lo de sua má reputação esta noite, na maratona cinéfila nova-iorquina. “You don’t Nomi”, documentário de Jefferey McHale, é uma investigação sobre o legado maldito do repudiado longa do mestre holandês Paul Verhoeven e uma reflexão sobre como seu fracasso reflete a hipocrisia moral em relação ao sexo. Cerca de uma década após seui lançamento, a produção estrelada por Elizabeth Berkley, Kyle MacLachlan e Gina Gershon passou a angariar fãs e ter suas peculiaridades narrativas cultuadas. Elizabeth estrela este drama sexy na pele de Nomi, uma aspirante a dançarina que vira estrela de um show calcado em nudez.

Esta noite, em sua programação de debates, Tribeca recebe a estrela Jennifer Lawrence e seu diretor-fetiche, David O. Russell (de “Joy” e “A trapaça”), para conversarem sobre confluências de talento. Amanhã, Coppola passa por aqui para projetar uma versão comemorativa dos 40 anos de “Apocalypse Now” (1979), diferente da que se conheceu em Cannes, quando o filme ganhou a Palma de Ouro, e distinta de sua versão “Redux”, lançada em 2001.

Nova York segue em ritmo de Tribeca até 5 de maio. Produzido por Alec Baldwin, o thriller “Crown Vic”, de Joel Souza, com Thomas Jane sob o uniforme de um vingativo policial, é “o” achado do festival até agora.

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